quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Dos Mundos (de Alma Welt)

Sim, há infinitos mundos nesta vida
Pois Deus nos dá um "modo" alternativo
Já que criou o destino do ser vivo,
E podemos escolher uma saída...

É verdade que às vezes nosso escape
Corresponde ao simples "modo" covardia
De que lançamos mão no dia dia
Ou diante da pistola ou do tacape... 

Quanto a mim, refugiei-me na Poesia
O que pra uns é outro lado da euforia,
E pra outros uma espécie de ilusão.

Mas se soubesse o que há de solidão
No pobre ser que a beleza ama e cria,
O mundo ainda mais sós nos deixaria...
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30/09/2020

Eu, Anima Mundi (de Alma Welt)

Ainda criança, em casa, eu intuía
Que havia livros misteriosos e secretos ,
Nas estantes, que meu pai não proibia,
Mas que não imaginava em meus projetos.

E do leito, assim, de noite levantava
E como sombra furtiva, pé ante pé
Até o escritório eu caminhava
Com uma vela na mão, tremendo até...

E então horas ficava, insone e atenta,
Virando páginas de um grande volume
De artes obscuras, de outro lume...

E delirando não mais que de costume,
Eis que vejo um rosto que me alenta:
"Anima Mundi", eu mesma era meu nume...
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29/09/2020








terça-feira, 29 de setembro de 2020

O mundo que eu herdei (de Alma Welt)

Há um certo teor de insanidade
Latente ou aflorada neste mundo
Que meu pai me fez ver em tenra idade
Ao menos como um pano de fundo.

Mas ríamos! Como junto a gente ria
Com a insensatez da humanidade
Cuja História nesta clave perfaria
Cem volumes, e mais um só da Maldade...

Já não era engraçado, era demais...
De ficar triste, de repente ameacei,
Senti vergonha de ser gente e tudo mais...

Então meu pai que aquilo percebeu,
Disse: Alma, este mundo que eu amei,
Sim, herdarás, mas só não sinta como teu...
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29/09/2020


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A Beleza (de Alma Welt)

Exige um certo esforço, reconheço,
Em se viver em verdade e em beleza,
Mesmo tendo a favor sua natureza
E uns preciosos dons que vêm de berço.

Entretanto a beleza é duradoura
Pois se escora num olhar universal;
Seu mistério vem de modo natural
E não como quem o chumbo doura.

Resumindo: a beleza é uma virtude
Que implica numa alma quase pura
E que não seja só pura atitude.

Mas da carne uma sutil sabedoria:
No arremedo é que a beleza dura,
Ouro puro, tinta, mármore, poesia...
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28/09/2020

"Noblesse oblige" ou "A princesa das potrancas" (de Alma Welt)

Meu propósito é enaltecer a Vida
Mesmo que não possa defini-la,
Muito menos desprezar sua acolhida
Já que nunca me pôs no fim da fila. 

Sempre soube perceber meus privilégios:
Nascida muito bela e na abastança,
Aceitei com humildade os tratos régios
Que me cercaram, pois, desde criança.

Assim, recusei fechar as trancas,
Apelidada de "princesa das potrancas"
Na escolinha rural em que me vi.

E a manter-me no alto das tamancas,
"Noblesse oblige" bem cedo aprendi,
Quando estreitas ainda as minhas ancas...
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28/09/2020

De amor-e-ódio (de Alma Welt)

Do amor em mim jamais descuidarei
Mas dirigido somente a quem merece.
Se desprezar não sei, amar não saberei,
Mas amor com outras fibras se entretece...

Pois há de amor um certo tipo estranho,
Que, pasmem, com o ódio se combina
O que quase toda a lógica elimina
E que por soma aumenta de tamanho.

É este que se torna logo um monstro
Que chega a dar inveja ao puro ódio,
O que só ao citá-lo, já o demonstro.

Pois no centro mais alto de algum pódio
Dos paradoxos, está este vencedor
Que só por doping vence o puro amor.


28/09/2020

O Oráculo (de Alma Welt)

O soneto é minha maneira de pensar,
E digna de crédito é a única,
Pois daquilo que não posso nem rimar
Não vestirei camisa, nem a túnica.

O verso descobre as realidades
Que ficam encobertas de outro modo.
É como uma consulta às deidades
Sobre o que mantenho e o que podo.

Uma espécie de oráculo de Apolo
Ao qual apelo todo dia de manhã
Quando desço do sonho para o solo.

Por processo puro e próprio da poesia,
Refaço a teia que se viu tornada vã,
Ao lançar os versos meus de cada dia...
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28/09/2020

domingo, 27 de setembro de 2020

Os ventríloquos (de Alma Welt)

Os poetas são ventríloquos de Deus,
E portanto levemente caricatos.
Os bonecos sem os belos traços Seus
Fazem-nos rir até nos entreatos.

Alma, é blasfêmia o que tu dizes:
Descreves Deus como cômico de feiras
A divertir o povo com os deslizes,
De Sua própria criatura... as besteiras?

Demasiado humano! Apaguem tudo!
O humor de Deus é surdo mudo:
Nunca pude na verdade compreendê-lo.

Bonecos de Deus, por Seus conselhos
Conservamos entretanto o mesmo selo
De quando nos tirou de Seus joelhos...
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27/09/2020

Sem instruções (de Alma Welt)

Viver é uma aventura temerária,
Mais arriscado do que isso nada é.
E não precisas ser o rei da área,
Podes mesmo estar andando a pé

Que haverá quem de ti inveja tenha
E só queira vislumbrar a tua caveira
Ou que pra tua fogueira traga lenha
Como uma Sancta Simplicitas de feira. *

Mas não quero, na verdade, te alarmar
Recebemos a nossa cruz portátil
Sem instruções para abrir e para armar.

Estamos todos, afinal, no mesmo barco,
Nossa rota continua a ser volátil
Mas o farol de Deus é o nosso marco...
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27/09/2020

Nota
Sancta Simplicitas - Santa Simplicidade! (ou Santa Ignorância), foi a exclamação de John Huss (dissidente suíço da Igreja condenado pela Inquisição) quando amarrado ao poste de cremação em praça pública, viu no meio do povo uma velhinha arcada sobre um feixe de lenha para vir colocar na sua fogueira (!!!).



O Sísifo e a noz ( de Alma Welt)

Reerguer o mundo a cada dia
Eis a missão do Sísifo em nós
Que de suplício, só, não chamaria
Já que o mundo também é casca de noz.

Na verdade estamos nele encerrados,
Como o pequeno cérebro das nozes;
Nossos crânios, uma vez esfacelados
Sabemos de onde vêm as nossas vozes.

Pequenina encarando os Universos,
Quase tão atrevida quanto Ulisses
A quem gregos dedicaram tantos versos,

No meu pequeno berço navegante,
Ó Deus, me permitindo ir adiante
Só queria que assim também me visses...
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27/09]2020

sábado, 26 de setembro de 2020

Visitas à minha tia (de Alma Welt)

"Pela janela, não adianta olhar a vida.
Veja as senhorinhas "janelando"
Com os cotovelos engrossando,
De aparência, assim, meio encardida..."

Dizia a nossa tia em Novo Hamburgo
Ou quando íamos com ela a Alegrete
E comíamos delicioso capeletti
Num molho de tomate, sim, "al sugo".

A gente se esbaldava e divertia
Com aquelas tiradas da minha tia
Quase esquecendo ela ser jovem e bela.

Mas meu pai é que fazia questão dela,
De nos levar para ver sua cunhada
De dois lindos cotovelos, como fada...
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26/09/2020

Conselho de amor (de Alma Welt)

Por que não cantas teu amor, ó Alma triste?
Não te cansas de tanto arrazoado?
Escreves sobre a vida um tratado
E esqueces do teu pássaro o alpiste...

Nas coisas pequeninas está o amor;
É ele que embeleza o comezinho
Do nosso dia a dia, como a flor
Num vazo de lata "leite Ninho"...

Vá passear no parque de mãos dadas
Para veres as crianças ocupadas
Em brincar de um mundo ainda mais vivo...

Se a flor secar, não tem mais jeito:
Poderás trocar a água sem proveito,
Não a porás entre as páginas de um livro...
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26/09/2020

A Exceção (de Alma Welt)

"Do nosso olhar, no seu ponto focal
Um deslocamento, assim, pequeno,
Já muda tudo, e passa a ser fatal
O que seria apenas morno e ameno."

"Nosso ponto de vista é tão sensível
Que até mesmo a flor do amor-perfeito
Se transforma e se revela horrível
Como um caleidoscópio com defeito."

"É preciso uma tendência da visão
Para um enfoque, assim, intencionado,
Que embeleze as feições do ser amado."

Do que estás falando, ó alma louca?
Tais manobras são apenas a exceção:
O amor é cego e até dorme de touca!
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26/09/2020

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O Pente Fino (de Alma Welt)

O sentido da beleza é um consolo...
Eu diria muito mais: é um presente
A nós dado pelo pai, ao homem tolo
Que grita, esbraveja e se ressente.

Como podemos deixar de agradecer,
Assim cercados por essa natureza
Que se esmera em brotar e florescer
E que ainda nos põe o pão na mesa?

Mas não! Temos que sempre reclamar...
"Bom cabrito não berra", disse alguém
Para um outro que não pára de chorar.

Seja homem, enfrenta o teu destino!
Tens um Pai severo, tudo bem...
Então procures passar no pente fino.
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25/09/2020

Comentários

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Ressentimentos (de Alma Welt)

Penso que Deus levou a mal nossa Babel,
Destruindo e trazendo a algaravia,
Pois só queríamos chegar perto do Céu,
Mais junto Dele, que não nos permitia...

Ele já tinha do Jardim nos expulsado
Por uma simples intriga da serpente.
Sem ao menos ouvir o nosso lado
Nos jogou na rua nus e de repente...

Depois Ele os nossos filhos instigou,
Os dois, um contra o outro, por fumaças
Que escolhidas, um morreu, outro matou.

Depois tome Dilúvio, chuva e enchente;
Por mais uma das Celestiais pirraças
Salvamos ratos, mosquitos e... a serpente.
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24/09/2020

A Argamassa (de Alma Welt)

O que em poesia não puder ser dito
Já não o poderá ser por outro meio;
O inefável não pertence ao Mito
Mas a Deus, e Dele mesmo cheio. 

Não haverá linguagem mais capaz,
Que da torre de Babel foi outra via
Quando um raio fulminou o capataz
E ninguém mais falando se entendia.

Foi quando um operário mais esperto
Começou a divagar como quem canta,
Que da fala de Deus chegava perto...

E então a Torre mais alto já subia,
Com a liga que ao Arquiteto encanta
Permitindo a argamassa da Poesia...
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24/09/2020

O Contrato (de Alma Welt)

"Como posso preservar meu pensamento?"
E meu pai respondeu-me de imediato:
"Minha filha isso depende do contrato
Que firmaste com Deus nalgum momento".

"O contrato que de dá a prosa e o verso 
Te foi assegurado nas maiúsculas,
Só não leste as cláusulas minúsculas
Que são do trato o lado mais perverso:

A solidão por companheira, só, terás,
Pois como arauto serás quase invisível,
Apenas voz de algo maior que há por trás.

E tudo que contares de ti mesma
Será um mero encanto, intransferível
Como o rastro prateado de uma lesma..."
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24/09/2020

 Nota 
 Um segundo quarteto alternativo seria este, descartado:

"Se queres expressá-lo um pouco acima
Das palavras que estão no teu estoque,
Use o verso, a métrica e a rima,
Mas poesia é carro-chefe, não reboque."

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

A Trajetória (de Alma Welt)

A maioria de nós já vem zerada...
Uns vêm tocando Mozart ao piano,
Mas são tão poucos no meio da manada
Que só anjos formariam tal arcano...

Temos que aprender desde os começos
Passando pelo estágio das cavernas
E através de inúmeros tropeços
Beber da água pura das cisternas...

Só aos poucos chegar a estar na moda
Tendo saltado na verdade alguns degraus
Sem ao menos ter inventado a roda.

E então quando quase lá chegamos,
Tendo vivido com os bons e com os maus,
Diante da Morte trememos e choramos...
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23/09/2020

O Retorno (de Alma Welt)

Pensando bem, não se trata de outra lida.
Se trata, sim, de voltar pra nossa casa
Após nossa jornada, mesmo rasa,
Pois somos todos desterrados de saída...

Há quem possa discordar de tal conceito
Desprezando a ideia do Retorno.
Quanto a mim dela tirei muito proveito
Pra não chegar, assim, olhando em torno...

Como tolos filhos pródigos que somos,
Vagamos nossa teimosia reincidente,
Roubando e devorando novos pomos.

Mas creio, sim, que o Pai já acalmado
Abrirá pra nós os braços, de contente,
Aos anjos ordenando grande assado...
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22/09/2020






terça-feira, 22 de setembro de 2020

Meu Castelo (de Alma Welt)

Cada verso é a surpresa matinal
Que antes mesmo de tomar o meu café,
No papel de modo antigo, ou digital,
No ar eu lanço como profissão de fé.

"És doida, Alma, ninguém mais isso faz!
O soneto é uma coisa muito antiga...
Se o velas, a velhice é que verás
Bem antes da primeira ruga amiga."

Assim, todos, mais ou menos, me diziam,
Esses bem intencionados que me viam
Contando sílabas, cinco em cada mão...

Mas eu, que meu próprio céu constelo,
Continuo construindo o meu castelo
Todo de cartas, feito pra que vá ao chão...

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22/09/2020

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O Factotum (de Alma Welt)

O poeta em mim é um compassivo
Aplicando-me um respiro boca a boca,
Ou então um analista, que passivo,
Consegue evitar que eu fique louca;

É um piromaníaco que é bombeiro
Que pra mostrar serviço o fogo ateia,
E entra nele de alma e corpo inteiro,
Que uma vez apagado se chateia...

É um cobrador de dívidas ferrenho,
Aquelas, enterradas, do passado,
Que ressuscita e cobra entusiasmado.

Será, por fim, o funerário agente
Que colocará talento e engenho
Maquiando o meu cadáver sorridente...

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21/09/2020

O Topo (de Alma Welt)

Nunca eu quis ser mais do que um poeta,
Que ambição mais alta não concebo
Da montanha no topo é que se espeta
A bandeira, e não num pau de sebo.

Perguntaram-me uma vez, pra meu espanto,
Qual status era o mais ambicioso,
Se o era o general todo garboso
Ou do Juiz o corvino e negro manto...

Mas logo transformava a tal questão
Em saber qual era, pois, a grande meta,
Na escala da alma nua o coração...

O aventureiro escalador era o poeta,
Mas o Santo, ele mesmo uma poesia,
Bem no alto da montanha já vivia...

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21/09/2020

domingo, 20 de setembro de 2020

Prece 45 (de Alma Welt)

Que eu não precise ser salva de mim mesma
Por meu louco entusiasmo pela vida,
Ou, ao contrário, por estar tão deprimida
Parecendo de mim meu abantesma;

Que a minha sobriedade sobreviva
Ao desafio da solidão ou tédio;
Que do amor o desencanto jamais sirva
De pretexto para eu pular do prédio;

Que nunca me envergonhe da bondade
De um momento frágil de pieguice
Que me faça perder a acuidade...

E se esta prece vos digneis ouvir,
Senhor, peço-vos, poupai-me da velhice
Que me daria isso tudo sem pedir...

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20/09/2020

sábado, 19 de setembro de 2020

Epopeias (de Alma Welt)

Minhas Termópilas lutei dentro de mim,
Que tive também dentro os meus "trezentos".
Batalhas dessas que geram monumentos
Mas que na alma humana não têm fim.

Também minha Odisséia é desfiada
Pelas noites como teia de rainha
Quando lembro os percalços da jornada
E desfaço mais um ponto desta linha.

Tendo a inclinação de ouvir sereias,
Já que limpo qualquer cera de ouvido.
Saberás o que disseram, se me leias.

Mas de Troia fui de mim o meu cavalo,
Meu presente de grego introduzido
Nestes muros que no coração abalo...

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19/09/2020

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Nós, nossa história... (de Alma Welt)

Nossa história, um romance, é o que somos;
Um capítulo escrevemos cada dia,
Logo precisamos de dois tomos.
Quanto a mim, já me vejo em trilogia.

Aquele que assim não se percebe
É árido, infrutífero, vazio...
Quem sua vida em livro não concebe,
Só verá de si a poça e não o rio.

Quantas vezes, relendo a minha saga
Me sinto heroína, com direito,
Ou no mínimo faço um bom proveito

Pois há partes impagáveis: não se paga,
Picaresca que me vejo, bem me olhando...
Como é bom poder dormir de mim zombando!

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18/09/2020

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O como, não oquê (de Alma Welt)

Quando vejo uma pintura entro nela;
Pode ser, como se diz, pintura pura.
É somente essencial que seja bela,
E me refiro às cores e à fatura.

Não é nem preciso ser uma paisagem,
"Ritratto di famiglia in un interno",
Ou Adão com a maçã vestindo terno *,
Ou de um apocalipse a voragem.

O olho sabe bem o que ele vê
Distingue o bom piloto do pedestre
E é um crítico que julga sem maldade.

O importante é o como e não oquê.
Preciso estar nas tintas à vontade,
Levada pelas mãos de um vero mestre...

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17/09/2020

Notas
*Ritratto di famiglia in un interno - denominação técnica italiana de um certo tipo de pintura de gênero muito colecionável a julgar pelo maravilhoso último filme de Luchino Visconti que leva esse título (com Burt Lancater no papel principal.)

* Adão com a maçã vestindo terno - a Alma se refere talvez a um tema recorrentes nos quadros de René Magritte, que ela assim curiosamente interpretou...

A Intérprete (de Alma Welt)

O real requer que o interpretemos.
Como água de fonte nada é claro,
Um véu de dubiedade é o que temos,
E por não saber pagamos caro...

A Poesia é o necessário tradutor,
Não é ela que devemos traduzir
Se nos parece difícil decompor
Seus signos, para então a inteligir.

De nada adianta analisar a Arte
Porque ela, sim, é o analista,
E a temos à mão em toda parte.

Entregue-se, somente, a essa mestra
Que te dará a necessária pista...
Um verso vale mais que uma palestra.

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17/09/2020

Na grande "masquerade" (de Alma Welt)

Neste baile os horrores são demais
Quando a face do Amor está ausente,
Mas isso é impossível, felizmente,
Já que a máscara do Amor é eficaz.

O amor veste e se insinua diferente
Na grande "masquerade" universal
E se desvela mais ou menos no final
Quando a festa está ficando quente.

Estive nessa festa e, pois, vi tudo.
O Amor encantava toda gente
Com aquela cabeleira e o veludo.

Mas quiseram expulsá-lo na metade
Pois foi considerado inconveniente:
Sua máscara era o rosto da Verdade...

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17/09/2020

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A Manhã, o Dia e a Noite (de Alma Welt)

Quando me encontro aqui na estância,
Neste pampa que me é começo e fim,
Onde de manhã estou na infância
E no poente já estou plena de mim,

As estrelas que então soam um tric-trac,
Não posso entendê-las ao ouvi-las,
Que nada me pareço com Bilac
E do tal Parnaso evito as filas...

Mas como sonho à noite, acordada,
E viajo nela a dentro pelos mundos
Que se vão de mim na madrugada!

E então recomeço com a Aurora
Que emerge dos nossos submundos
Como virgem que, intocada, ainda cora...
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16/09/2020

A dor e o peso (de Alma Welt)

O terrível da vida é o agravamento
De todos os erros do passado
Mas transformados em tormento
De aparente nova face, disfarçado.

Na há paz na velhice quando erramos
Naquela nossa soberba juventude,
Erros graves que por vezes nem notamos.
Pensando estar vivendo em plenitude.

Longe de mim detratar nossa velhice
Com a sua experiência acumulada
E um pouco de ternura sem pieguice.

Mas quando o corpo, finalmente, todo dói,
Nunca nossa dor nasce do nada,
Mas da culpa inconsciente que o corrói.

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16/09/2020

O Prelúdio (de Alma Welt)

Os amigos que a gente nunca via
Mas confortava-nos sabe-los por aí,
Todos vivinhos e cuidando bem de si
Como também aquela nossa velha tia...

Todos foram se calando na distância
E o mundo foi ficando mais vazio
Pois até dos mais presentes a constância
Baixava lenta como seca um rio.

Sabemos que a Morte nos vigia
E parece deixar-nos para o fim,
Sim, por último de todos, Mamma mia!

Eis que a solidão é seu prelúdio,
Justo ela que tinha o meu repúdio,
Ou era só pano de fundo para mim...

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16/09/2020

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Ditados e guardados (de Alma Welt)

Quando tudo deu errado, não adianta
"Chorares pelo leite derramado"
"Ou trocares o almoço pela janta",
Se a tua fome passas a melado. *

Não adianta desvestir sequer o santo
Para vestir o peladinho ao lado. *
Apenas podes tentar comprar fiado
No armazém ao qual já deves tanto.

Das avós essa era toda a sapiência,
E eu me divertia com os ditados
Que apenas ensinavam paciência.

Guardo muita saudade da minha avó,
Que, me lembro, mantinha em seus guardados
Lindo frasquinho com o meu avô em pó...

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15/09/2020

sábado, 12 de setembro de 2020

A fé (de Alma Welt)

Nascemos sob o signo da esperança.
Eis porquê nos vem sempre essa certeza
De que o sol renascerá como criança
E depois morrerá em mais beleza...

Esperaríamos na Noite sem fiança,
Depois do nosso primeiro anoitecer
Que nos voltasse a luz do alvorecer
Se a fé não fosse nossa herança?

A vida toda vivemos sem seguro,
O qual morreu de velho, não no berço,
Mas o sol... este é firme e não dá furo.

Mas tudo é baseado no palpite,
"Pois da missa não sabemos nem um terço".
O sentido? Esse... Deus não nos permite.

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12/09/2020

O Degrau (de Alma Welt)

Não me venham dizer o que disseram
Até mesmo o que a mim respeita ou tange.
Prefiro os elogios que fizeram
Mesmo quando falsidade neles manje...

Por quê? Porque sei que a hipocrisia,
A homenagem à virtude, pelo vício, *
Embora não me traga benefício
É pro ego ferido, anestesia...

Melhor que a mesquinhez do diz-que-disse
É o engano de não conter o mal
Se o propósito a respeito o acompanha:

Queria que minha alma se cumprisse,
Sim, ainda que não fosse por façanha
Mas somente por subir um só degrau...

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12/09/2020

Nota
* Porque sei que a hipocrisia,
A homenagem à virtude, pelo vício - menção à frase famosa de François de La Rochefoucauld (1613–1680) : "Hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude."

Sob o Olhar da Sacada (de Alma Welt)

Que fosse a vida uma forma de rezar
E rezar fosse somente agradecer,
Estivesse eu na sorte ou no azar,
E a alma num perpétuo vir-a-ser...

De mim mesma esperei com minha força
Fazer deste propósito a verdade,
Combinando paciência e sobriedade
Dissolvidas na ternura de uma corsa.

Na verdade, não logrei sair da ideia,
Pois a minha natureza rebelada
Contava com os aplausos da platéia...

Entre a aprovação dos meus iguais
E o Olhar lá de cima da sacada,
Fraquejei pensando ser forte demais...

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12/09/2020

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O Cisne (de Alma Welt)

Da Infância os risos cristalinos
Já me chegam aos ouvidos, amiúde,
E, talvez, entre eles todos, os mais finos,
São os meus, que os conservei enquanto pude.

Esta saudade que guardo da pureza
Me conserva em grande parte a limpidez
Apesar dos efeitos da incerteza,
Das mágoas e da pura insensatez.

Se uma sombra a nossa alma tisne
(já que a pobre era perfeita quando veio)
Tenderá a ofuscar o nosso cisne.

Um mau moinho mais as mágoas moem...
Quanto a mim que não fui patinho feio,
Tenho lembranças tão felizes que me doem.

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11/09/2020

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

El forastero (de Alma Welt)

Muito falei dos meus pobres descaminhos
Que tendo a julgar grandes por soberba
E fazer deles jornada entre os espinhos
Pra tornar a narrativa mais acerba.

Na verdade não passo de uma prenda
Deste pampa, mas um tanto desviada,
Que, por rebelde, não quis seguir a senda
E então se recusou se ver casada.

"Pero, ès sola?"- diz o "gaucho" forasteiro,
"Yo escuché los ecos de una saga
Y monté mi cavallo el día entero."

Mas não sei por quê, ao defrontar-me,
A chama do "gaucho" não se apaga,
Mas amansa sem que eu precise dar-me...

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10/09/2020

"No meio do caminho da minha vida" (de Alma Welt)

Então me vi trilhando em falsa senda
Que a rigor não era em selva escura,
Mas, sim aqui, neste pampa de planura
Onde eu já criara a minha lenda.

Diziam os gaúchos: "Ela é a Alma,
Ela sabe de si, de seus momentos;
A coxilha a embala, dê a palma
E a deixe ao sabor dos quatro ventos".

Então clamei, braços abertos, de aflição:
"Nada sei, amigos, peonada... na verdade
Estou perdida como o pobre do tal cão..."

Mas lembrando que o cãozinho Querubim,
Caiu do carroção em tenra idade,
Fiquei mais triste pelo pobre que por mim...

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10/09/2020

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

De puro coração (de Alma Welt)

"El sueño de la razón produces monstruos" ( Goya)

Para mim um mundo só seria pouco,
Foi preciso estar em duas dimensões:
A real, que é um inútil sonho louco,
E a outra, onde moram os corações.

Na que o mundo considera verdadeira,
Perdemos nosso tempo em ninharias,
Olhar TV a caminhar na esteira,
E imaginar menus de iguarias...

A vida real foi sempre tão mesquinha
Que até mesmo cobrimos a nossa face
Como se o supérfluo ali restasse...

Então fujo para o sonho da razão,
À reserva que a alma já retinha,
Não de monstros, mas do puro coração...

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09/09/2020

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Profissão de fé (de Alma Welt)

Esta delícia imensa me foi dada:
Sentar-me para o sonetar do dia
Ou fazê-lo de pé em caminhada
No exercício diário de poesia...

Sim, porque não posso imaginar
A vida se não trocada em versos
Para bela e razoável se tornar
Entre os seus mil insanos universos.

Do "bom dia, boa noite, como vai?"
Ou de só trocar um "oi" no elevador,
Não quereria viver no prosaísmo...

Mas até disso algum poema sai
Já que acabo de fazê-lo (e indolor),
Quando o pomo refaz o Paraíso...
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07/09/2020





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O soneto (de Alma Welt)

O soneto tem pouquíssimos leitores
Apenas um em um milhão, se tanto;
Apenas rivaliza com o "esperanto"
Que não tem por certo tais rigores...

No meu caso doze sílabas no verso
Rimada duas a duas livremente,
Formando pares ou alternadamente
Seu início na História é controverso.

Mas o essencial é a cadência
Que não deve jamais ser sincopada
Do contrário ir direto pra privada,

Mas que a chave também seja de ouro
Pois o que se espera é excelência
Como a vida, pra evitar o sumidouro...

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07/09/2020

Consolo para quem tudo tem (de Alma Welt)

De céu azul, cheia de sol uma manhã
Torna fútil nossas queixas e reclamos
E de pronto fica claro o quanto é vã
Nossa ciência em seus múltiplos ramos.

Nada mais precisamos para o dia
A não ser um bom café, pão e omelete
E apenas a dose de harmonia
Pra combinarmos quem vai pagar o frete.

Separar o essencial da abastança
É o generoso dom deste céu claro
Que se dá de repente sem cobrança.

Mas se nada tens, com isto paro,
Não tenho para ti nenhum consolo,
Dourado o sol, seria ouro de tolo...

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07/09/2020

domingo, 6 de setembro de 2020

Poemas de amor (de Alma Welt)

Para mim só escrever foi sempre tudo
Não me posso imaginar sem meus cadernos
Onde lanço meus sonetos, às vezes ternos,
A maioria de teor mais cabeludo.

De amor, poemas quase sempre evito
Como preconizava o grande Rilke,
Pois a montanha é mais alta quando a fito
E no topo a bandeira quer que eu finque...

"Mas o que é mais alto que o amor, me diz?
Tudo o mais é mero voo de perdiz..."
Me pergunta alguém que só imagino,

Pois na verdade não me perguntam nada,
A solidão é um sincronismo muito fino
E o amor eu encontrei ao pé da escada...

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06/09/2020

Napoleão de minha parte (de Alma Welt)

Que desmesurados sonhos nós tivemos!
Pequenos napoleões sem Santa Helena,
O dia a dia não nos valia a pena
Mas fizemos quase tudo que pudemos.

Menos, é claro, voltar com passo trôpego,
Mas como em Elba para mera temporada,
Ao lar paterno, sim, pra novo fôlego
Que por nós Waterloo seria vingada.

Mas com os amigos fui conferir pavios
Destes mesmos sonhos desmedidos
E acabei sozinha a ver navios...

Ninguém por mim no fogo pôs a mão,
Todos deram pra mim seus desmentidos,
Fui só eu mesma a brincar de Napoleão...

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06/09/2020

Palavras de uma Sombra (de Alma Welt)

Te alcançará a Vida um dia, Alma,
Em sua face de dura vingadora,
E não poderás senão lhe dar a palma
Pois do castigo serás merecedora.

Brincaste com a dor, fizeste planos
Para viver sem rumo ao Deus dará;
Viveste até de brisa muitos anos
Ou como andarilha, sim, Loba-Guará.

Contaste com a Beleza e tua graça
E devo admitir, também talento,
Mas não foi este que te deu o alimento,

Aceitaste o alheio pão como devido:
Parecias não saber que tudo passa
E jamais se viu o Tempo comovido...

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06/9/2020

sábado, 5 de setembro de 2020

Romeu e Julieta (de Alma Welt)

Romeu clamou ser o "bobo da fortuna"
Que ao coringa no baralho se equivale
E que é manipulado ou nada vale
Ou que a nada de feliz se coaduna.

"As desafio, ó estrelas!", gritou ele,
Pobre jovem alma em desespero,
Remexido o amor em seu vespeiro,
Que sistema de desastres foi o dele!...

Temos do outro lado uma ninfeta
Avant-la-lettre (o conceito não havia)
Era pura e tão somente uma Julieta.

Como amaram, sem saber que não se pode!
Amar assim é só coisa de poesia
Ou presente de Pandora quando explode...

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05/08/2020

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Sempre Doze (de Alma Welt)

Quem passar por aqui meio ao acaso
Me verá contando sílabas nos dedos,
Doze sempre, mesmo, sem atraso
Como as badaladas, mas sem medos.

Tudo é doze em minha vida alexandrina
E gosto de rimar como os antigos
Dois a dois em versos como amigos
E não como Israel e Palestina.

"Nessa dodecafonia sem parar
És absurda, Alma, e anacrônica,
Para somente uma dúzia reparar..."

Respondo: cada qual com sua mania,
E mais: vez por outra escrevo crônica
Mas só pra pausa do soneto ao meio dia.

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02/09/2020

terça-feira, 1 de setembro de 2020

"A Máscara da Morte Rubra" * (de Alma Welt)

 Só confio na face das crianças
Pois não contêm a sombra da malícia,
E o véu que forma as esperanças
Ainda não caiu, como primícia

De algo que o despertar descubra
Quando a gente então máscara veste
P'um baile que terminará em peste
Ao desvelar a infame Morte Rubra.

É aí que o pesadelo então começa
Quando o baile ainda é belo e extasia
E ainda não se vê quem se despeça.

E a cair, um por um, então nos vemos
Sem dar tempo de tirar a fantasia
Para voltar à face que escondemos...

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01/09/2020


Nota
*A Máscara da Morte Rubra - título de um famoso conto de terror de Edgar Allan Poe.

A Neblina (de Alma Welt)

Com a súbita neblina de miasmas
E entrando numa grande calmaria,
De coração opresso vê fantasmas
Meu capitão da nau Santa Maria...

Não tarda a se ouvir a melopeia
Hipnótica, febril e assombrosa
Que bardos referiram em verso e prosa,
E o maior de todos, na Odisseia...

Sim, o canto malicioso das sereias
Que só um homem ouviu e não morreu,
O astuto e hiperbólico Odisseu.

Mas... por que estou eu a falar disso?
Minha mente ociosa tece teias
E o meu amor há muito deu sumiço...
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01/09/2020

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Revisitando o cão e o lobo (de Alma Welt)

É quase tudo tão triste nesta vida,
Já que até o amor nos causa dor
E a beleza é como uma ferida
Causada pelo espinho à própria flor.

Eu sei que o antigo rimar amor e dor
É coisa de poesia meio ingrata,
Mas nem quero mais versos compor,
Estou bem mais pra dizer tudo na lata.

A verdade é que ninguém mais diz
Que é de lágrimas nosso belo Vale
E de vôos baixos, sorrateiros, de perdiz.

Mas como loba ia fazer uma besteira,
É bem melhor, portanto, que eu fale
Que não troco a liberdade por coleira... *
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31/08/2020

Nota
*...não troco a liberdade por coleira - alusão à fabula O cão e o lobo, de La Fontaine.

As rosas que falam (de Alma Welt)

É no jardim onde mais tenho saudade
Da avó Frida, podando suas rosas
Para crescerem mais e mais vistosas
Porque assim elas falam, na verdade.

A beleza das rosas é uma fala
E não roubam o perfume de ninguém,
Mas a poesia do Cartola ainda me cala
E me falta quem devia vir também...

Assim meus olhos têm esse ar tristonho
E faz tempo que meus sonhos eu exibo
Para alguém sonhar comigo, eu suponho.

E volto ao jardim sem mais certeza
Porque já não tem ninguém da minha tribo
E minha beleza é uma flor na correnteza...

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31/08/2020




O Solar do Deus Dará (de Alma Welt)

Sou antiga mas escrevo num teclado
Estas bem traçadas linhas, bem rimadas.
Sou a derradeira prenda lírica do prado,
Sem trovas em peleias charqueadas.

Um ou outro gaúcho ainda me escuta
E me chama para declamar sonetos
Enquanto as chamas lambem nos espetos
Carnes gordas em churrascos de disputa.

Eu, patética como a última guará,
A quem cobiçam somente o pelo ruivo
Declamo meus sonetos como um uivo.

Depois chorando eu corro pela trilha
Que eu mesma abri de andar pela coxilha,
Para voltar ao meu solar do "Deus dará"...

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31/08/2020

A Loba-Guará (de Alma Welt)

Vocês podem imaginar a solidão
De uma sonetista em pleno pampa?
Mais sozinha e deslocada que um cão
Que caiu do caminhão subindo a rampa.

Ó Alma, essa metáfora é batida!
Não é digna do teu belo lirismo...
Mas do cãozinho a imagem tão sofrida
Na verdade, no meu caso é otimismo.

Estou mais para uma loba na coxilha
Contra o disco da lua em longo uivo
E como último guará, uma andarilha

De longas pernas e o pelo muito ruivo,
Mas tímida, em perigo de extinção
Como os poetas puros sempre estão...

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31/08/2020

domingo, 30 de agosto de 2020

Conselhos para mim mesma (de Alma Welt)

Que meu único artifício seja a rima
E o ritmo cantante, também, claro,
Se com a boa métrica combina,
Mas de truques, por aí, eu logo paro.

Não serei hermética ou obscura:
Não turvar a minha água por profunda *
É um preceito bom que sempre dura,
Embora haja gente que o confunda...

Mas é preciso ter muito o que dizer
Como se me estivesse pela goela
E não fosse possível mais conter.

Mas, veja, a experiência é o que conta, *
Só ela, os sentimentos, sim, revela,
E faz com que a poesia nasça pronta...

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30/08/2020
Notas
*Não turvar a minha água por profunda - alusão à famosa frase de Nietzsche: "Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas."

*Mas, veja, a experiência é o que conta - alusão a um conselho do grande poeta alemão Rainer Maria Rilke, nas suas "Cartas a Um Jovem Poeta", num certo parágrafo que começa assim: "Os versos não são sentimentos, os versos são experiências..."

A Louca do Soneto (de Alma Welt)

Meu amor pelo soneto é insuspeito
Pois meus leitores a cada dia somem,
Quero dizer: o quorum é rarefeito,
Catorze versos é demais, e eles dormem.

Então por que os escreve, Alma louca?
E eu respondo que é pura vocação:
Os de Shakespeare uma centena são,
E os trezentos de Camões é coisa pouca.

Petrarca, Dante, Rilke, até Vinicius,
Este mais chegado em outros vícios
Continua eterno enquanto dura...

Mas eu, que já os conto em cinco mil,
O faço só para manter a alma pura,
Que a vela queima enquanto houver pavio...
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30/08/2020

Conselhos de meu pai (de Alma Welt)

"Teu limite é o outro", assim dizia
Meu pai, um verdadeiro Salomão.
"A tua liberdade é a poesia,
Não a queiras muito além da solidão."

A amizade é, sabemos, outro reino,
Com regras quase como um pacto,
Mas a liberdade nela exige treino
Para enxergar um pouco além do fato.

"Complacente, sim, até um limite,
Mas não serás conivente com maldade
Se a justiça ela muito bem imite...

Se teu amigo passar além do ponto
Dos tempos do "contigo eu sempre conto",
Não caminharás com ele por saudade"...

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30/08/2020


Advices from my father (from Alma Welt)

(translation to english with rimes by Guilherme de Faria)

"Your limit is the other", so I guess,
Said my father, a true Solomon.
Poetry, thist is your freedom
Not too far beyond loneliness "

"Friendship is, we know, another kingdom,
With rules almost like a pact,
And requires training its freedom
To see a little beyond the fact.

Yes, be compliant, up to a limit,
But not be conniving with evil too
That imitates the freedom you meet.

If your friend goes beyond that no returning,
From the times of "I always count on you",
You will not walk with him out of longing ".

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Depois do Intermezzo (de Alma Welt)

Estão longe, nestes tempos, os amigos,
Voltados, de repente, aos seus umbigos.
E eu solitária por essência e vocação,
Deveria por à larga o coração...

Mas sinto saudades... que sei eu?
Daquelas diferenças de critério
E de tudo que entre nós nunca bateu,
Que faz da amizade esse mistério...

Dizer que a gente brigava vou negar:
Não mais que tolerância amigos são,
Sem esquecer de puro mel adicionar.

E me pergunto como a gente vai estar,
Se voltaremos de novo do saguão,
Quando a cortina do intermezzo levantar...

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28/08/2020

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A Senda (de Alma Welt)

Num mundo escolhido de beleza
Tão somente aceitar meu movimento
Para assim construir meu monumento
Não é coisa de respeito, com certeza...

Mas, reparem, não é isso o que eu faço:
Pois andando num caminho pedregoso
Dou topadas e as transformo em gozo.
Quase como se não fosse meu mau passo.

Caminhar numa senda num penedo
Meu caminho escolhido, não de pronto
Mas de flores orlado é meu segredo...

E se a queda e o fracasso são as favas
Contadas, eu de antemão as conto
Se não, tu leitor, nem me encontravas...

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27/08/2020




Nonsense (de Alma Welt)

"Sejamos céleres", disse o D'Artagnan
Para outro mosqueteiro sem mosquete;
"Gosto de "céleres" , "ótimo" disse o fã,
E cavalgou, aquele pobre diabrete...

Quanto a mim que gosto de nonsense
Ri no cinema quando quase ninguém riu
E mais ria se a gente ainda pense
Que eram quatro os três que o mundo viu.

Assim pouca coisa mesmo faz sentido
Mas nem por isso é preciso lamentar
Mas fazer da má notícia um desmentido.

Aquilo que fecha e não se encaixa,
Estar por dentro e "pensar fora da caixa",
O humor é o inesperado... a se esperar.

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27/08/2020

A língua (de Alma Welt)

O mundo é complicado, o pai dizia,
Se a explicação causasse espanto,
Achando que assim me pouparia
De um grande e precoce desencanto.

Na verdade eu queria saber tudo
Como se o saber assim fosse possível
Num mundo que talvez começou mudo
E logo veio a algaravia incrível...

Nesta Babel aquela torre infame
Jamais cessou de subir e de ruir
Como uma falsa ópera de arame.

Todavia a minha língua bem domino
Como se nela eu pudesse construir
O meu próprio labirinto do rei Mino.

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27/08/2020

O Ensaio (de Alma Welt)

A vida é triste, me dizia a amiga
Talvez querendo, à toa, me abater...
Inveja, pretensão, ciúme e intriga,
Eis o mundo em que iremos nós viver.

Mas eu botava a mão em sua face
E a olhava com carinho também triste,
Apenas num segundo nesse impasse
Porque este coração jamais desiste.

E sacudindo logo o mau encanto
Me veria, ela, então resplandecer
No meu quarto todo, e ela num canto.

E eu me punha a girar como um pião.
Rindo muito e sem sequer desfalecer,
Eis que saudava meu futuro turbilhão...

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27/08/2020

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Sacudindo a cabeleira (de Alma Welt)

Inimiga insidiosa, eu a combato,
A sutil melancolia dentro em mim,
Que ameaça crescer como esse mato
Que observo avançar em meu jardim,

Ervas daninhas de foscos pensamentos
Sombrios, que ameaçam a minha mente
Frágil diante de adversos elementos,
Nau em busca de um naufrágio dissolvente.

Eis que sacudo a minha rubra cabeleira*
Como aquela de um inusitado frevo
Na voz grave de um cantador famoso,*

E então me ponho em pé nesta soleira
Mirando meu pampa em novo enlevo
Apesar do vento frio como esposo...*
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25/08/2020

Notas
Eis que sacudo a minha rubra cabeleira - alusão ao verso "É quando o Tempo sacode a cabeleira/ a trança toda vermelha"...do notável e surrealista Frevo Mulher, dos anos 70, do compositor e cantor nordestino de voz grave, Zé Ramalho.

*Apesar do vento frio como esposo - o "minuano", vento frio que sopra no pampa no inverno.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Penélope de mim (de Alma Welt)

Exerço em mim a minha forte resistência
Contra a tristeza só enquanto feia.
Minha arma de verdade é uma teia
De Aracne de espera e paciência...

Penélope de mim vou assim tecendo
E desfiando nas noites cada ponto
Embora sem um Ulisses combatendo
Longe por mim conforme o belo conto.

Pra morrendo não voltar somente ao pó,
Meus sonetos são os pontos desta teia,
Que sendo astuta não dou ponto sem nó.

Aliada nesta luta inglória e bela
Tenho uma, percebida a quem me leia:
A beleza interior que me revela...
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21/08/2020

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

O Girassol (de Alma Welt)

Tanto à Natureza estou ligada
Que de minha alma o clima é dono
E sinto como que seu abandono
Quando a manhã está assim nublada.

E me encolho debaixo do meu domo,
Esta bolha que inventei pra não morrer
Porque me vem uma tristeza de viver
Da qual mal sobrevivo, e não sei como.

És sensível demais, me disse alguém
Pois ninguém como flor deve ser frágil
E essa bolha, de tão fina, nem convém.

Mas por isso enquanto flor sou girassol
Que para o encarar me ponho ágil
Pois eu vivo na esperança do meu sol...

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20/08/2020

Não poderia (de Alma Welt)

Diante do esboroar-se deste mundo
Minh' alma vive à beira de um enfarte,
Embora bem pra lá de Passo Fundo,
Ligada ainda estou na Grande Arte.

E afirmo que eu viver não poderia
Se não houvessem Capelas Sistinas
Ou se Museus do Louvre não havia
E se no Prado faltassem as Meninas.

Não poderia viver sem Monas Lisas
Ou sem do Rafael suas Madonas
E seus grandes afrescos que são missas,

Não poderia viver sem Notre Dames
Embora esteja longe, em outras zonas,
E viva esta vidinha em rame-rames...

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20/08/2020

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Narcisa (de Alma Welt)

Tão cercada de mim mesma, refletida,
De Narciso a feminina encarnação,
Exemplo vivo de "terra prometida"
Numa imagem do meu próprio coração,

Assim seria eu não fosse artista
E portanto feita só pra ser exemplo
E ao outro refletir sua própria vista
Espelhos frente a frente como templo.

Não me acusem meramente de vaidade
Que dessa me absolvo a cada verso
Que devolvo de minh'alma ao universo.

No final, humilde indo ao meu repouso
Esvaziada de mim, sem ansiedade,
No leito, não do lago, a face pouso.

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19/08/2020

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Depois do pesadelo (de Alma Welt)

Sonhei com a cidade esvaziada
Onde só a cachorrada perambula
E onde havia restos de queimada
Alguns roendo os ossos de uma mula.

Eu estava tão sozinha vendo tudo,
Perguntando ao céu se Deus existe,
Num cenário estranho surdo e mudo
De um filme em preto e branco muito triste.

Então olhei o céu com novo apelo
Para pedir ao Senhor que me acordasse
Para um mundo que melhor O espelhasse.

Então eu acordei do pesadelo
Indo à janela que dá para o jardim
E vi as flores que Deus fez para mim...

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17/08/2020

As Três Graças (de Alma Welt)

Gostava de jogar o pique-esconde
E até hoje o faço em meu jardim
Com as crianças que são filhas de conde,
Inclusive com aquela que há em mim.

E depois logo brincar a cabra-cega
Que me faz pensar na minha vida
Tateando no escuro, decidida
A pegar um amor que então se entrega.

Mas com o jardim vazio nas manhãs
Eu gostava de formar com minhas irmãs
Todas nuínhas as Três Graças do Mito.

Até que fui flagrada em pose plena
Por um olhar intruso mas bendito
Que do trio me desfez sem muita pena...

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17/08/2020

O Baile das Cartas (de Alma Welt)

Cercados de fantasmas do passado,
Um quase palpável e ainda belo,
Carregamos essa corte num castelo
De cartas, quando não desmantelado.

Mas no meio dos naipes coloridos
Há sempre um coringa meio escuso
Que temos entre achados e perdidos
Ou fora do baralho ainda em uso.

Por isso jogo o meu truco popular *
Que exclui os malditos saltimbancos *
Que expõem nosso fiasco em pleno ar.

Sou rainha de uma corte meio inglória
Pois nas copas os valetes vão aos trancos
Neste baile final da minha história...
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17/08/2020
Nota
*Por isso jogo o meu truco popular
Que exclui os malditos saltimbancos - No pampa do Rio Grande do Sul, terra da Alma Welt, os peões tiram fora a carta do coringa para jogar o truco.




Nova História do Patinho Feio (de Alma Welt)

Que lindos olhos têm nossos amores!
Nós os vestimos com nossos padrões,
Sempre lhes atribuindo nossas cores,
Quase sempre de nossas invenções.

Mas é então que "quebramos nossa cara"
Como diz a plebe rude e ignara
Quando o outro sacode o nosso jugo
Fazendo, inesperado, aquele expurgo

Quando grita: "Não sou o que tu pensas!
Teu doce olhar contém um certo medo,
Me queres moldar às tuas expensas,

E só me queres de terno e de gravata,
Nos atribuis por certo um grande enredo,
Nunca fui filho de cisne, mas de pata..."

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17/08/2020

A História recontada (de Alma Welt)

Na verdade fomos dados uns aos outros.
Ninguém já nasceu sozinho neste mundo,
Nem pintos, nem bezerros, nem os potros,
Nem mesmo se quiserem ir mais fundo.

Somos entregues nos braços de alguém,
Salvo apenas acidentes de percurso,
Exceções que ser lembradas nem convém
Já que tudo faz parte de um concurso.

Es solitário? Ó tolo, com restos de poeira!
"Não é nada bom que o homem viva só"
Disse o bom Deus nos moldando de seu pó.

E arrancando uma costela fez o esposo
Para uma mais fecunda companheira,
Esposa e mãe até com algum gozo...
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17/08/2020

ORAÇÃO NUA (de Alma Welt)

Lembro sempre estes dois olhos que Deus deu
Além dos quatro ou mais outros sentidos
Os quais, conforme o que Seu filho prometeu,
Descartaremos junto com nossos vestidos.

Aliás, o corpo todo, tão pesado,
Será deixado para trás sem mais saudades
Embora ainda às vezes adornado
Destes seios ainda cheios de vontades.

Se for logo, descartar não será fácil
Abandonar esta silhueta grácil,
Lindas coxas com a fenda meio rosa.

Senhor Deus não me leves pois tão cedo
Porque desta roupa ainda estou prosa,
Da nudez dada, ainda nenhum medo...

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17/08/2020

domingo, 16 de agosto de 2020

O Grande Jogo de Dados (de Alma Welt)

Como bonitos são os nossos passos!
Quão belos são os nossos movimentos!
Não precisamos ter réguas nem compassos,
Somos projetos de nossos monumentos.

Não é nem preciso ser malabarista,
Ainda menos uns hábeis bailarinos
Pra que coreografia plena exista
Em nossos fins, trajetórias e destinos.

Deus nos coloca num imenso tabuleiro
E joga com a gente, assim, com dados,
Coisa que um físico nega por inteiro. *

Mas o que vale são nossos movimentos,
Inquietos saltimbancos sobre os dados,
Os grandes cubos que rolam muito lentos...

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16/08/2020

Nota
*Coisa que um físico nega por inteiro - alusão à famosa frase de Einstein: "Deus não joga dados com o Universo".

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Não Quero (de Alma Welt)

Às vezes fico triste de verdade,
Quase morro, e não de deprimida
Mas só de pensar em outra vida
Não na minha terra e esta herdade.

Não, não quero ir pro céu, que Deus me guarde.
Não que eu tenha algo contra os anjos,
Que tocam harpas pra não fazer alarde.
Já pensou se fossem pífaros e banjos?

Pro Inferno também não, nem Purgatório,
Que me lembra um remédio pra criança
Cujo nome é por si um vomitório.

Deixai-me Deus ficar aqui quietinha
No meu pampa e nesta velha estância.
Nunca quis nada além do que eu já tinha...

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10/08/2020

sábado, 8 de agosto de 2020

A maçã do amor (de Alma Welt)

Não se dissiparam as minhas dúvidas,
Aquelas desde o início, em tenra idade,
Pois que na verdade, nada estúpidas,
São legítimas da nossa humanidade.

Por quê a morte existe, exatamente?
Por quê a espantosa fedentina?
Por quê nos transformamos na vermina,
Depois pálido espantalho sorridente?

Por que parir em dor como o castigo
Por um pequeno roubo? Faz favor!
Meu vizinho não fez isso comigo.

Era pequena e invadi o seu pomar
E lhe roubei o que chamei "maçã do amor",
E ele, rindo, convidou-me pra lanchar...

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08/08/2020

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A Jovem Pária (de Alma Welt)

Nesta minha vidinha solitária,
Despercebida dos grandes desta terra,
Escrevo meus sonetos como pária
Ou como quem a si mesma se desterra.

Pois tenho sim algo em mim da hindu jovem
De uma ária de Delibes que em mim resta
Com aquelas campainhas que comovem
Para afastar meu próprio tigre na floresta...

Eis um aspecto simbólico flagrante,
No operístico resumo que me ocorre,
Se tal comparação não for pedante...

Mas que posso dizer mais de mim mesma
Se afasto da fera a abantesma
Com sininhos de meus versos, e ela corre?

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07/08/2020

https://youtu.be/gMO0KFL3E58

Ou va la jeune Indoue, Filles des Parias, Quand la lune se joue, Dans le grand mimosas? Elle court sur la mousse Et ne se souvient pas Que partout on repousse L'enfant des parias; Le long des lauriers roses, Revant de douce choses, Ah! Elle passe sans bruit Et riant a la nuit. Labas dans la foret plus sombre, Quel est ce voyageur perdu? Autour de lui Des yeux brillent dans l'ombre, Il marche encore au hasard, e perdu! Les fauves rugissent de joie, Ils vont se jeter sur leur proie, Le jeune fille accourt Et brave leur fureurs: Elle a dans sa main la baguette ou tinte la clochette des charmeurs L'etranger la regarde, Elle reste eblouie. Il est plus beau que les Rajahs! Il rougira, s'il sait qu'il doit La vie a la fille des Parias. Mais lui, l'endormant dans un reve, Jusque dans le ciel il l'enleve, En lui disant: 'ta place et la!' C'etait Vishnu, fils de Brahma! Depuis ce jour au fond de bois, Le voyageur entend parfois Le bruit leger de la baguette Ou tinte la clochette des charmeurs!


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Nevermore * (de Alma Welt)

Nunca mais! disse o corvo, também digo.
Nunca mais! (repetirei a cada erro).
A própria vida consiste no perigo,
Vivemos num primordial desterro.

Há um lado sinistro incontornável
No nosso dia a dia pouco justo,
Sobrevivendo de modo confortável
Enquanto pousa o corvo em nosso busto.

Bah! Já estás desconsolada outra vez!
Apaga tudo, acorda! É um novo ano!
Estás só: não há corvo nenhum...

Mas repito: Nunca mais! (a cada mês)
Pois este é o fatal destino humano:
Repetir nossos pecados um por um...

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06/08/2020


Nota
*Nevermore - respondia o corvo do poema The Raven, de Edgar Allan Poe, pousado num busto de Palas Atena.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Ariadne em Naxos (de Alma Welt)

Quantas vezes só em mim mesma me perco
E me vejo em labirintos sem respostas
Prevendo o Minotauro pelo esterco
Quer dizer, francamente: pelas bostas...

Báh! Psique de poeta em quarentena
Frágil como se cortado o esperto fio *
Como a doce Ariadne, tão serena,
Abandonada no leito já vazio. *

Esperando a Alegria que vier *
Nem que seja com os truques do improviso
Para aquele vão consolo que se quer, *

Na Naxos sem nexo em que me encontro
Meu herói de mim partiu sem dar aviso, *
E ele mesmo era meu temido monstro...

.
05/08/2020


Notas
*Frágil como se cortado o esperto fio -
referencia ao truque do fio de Ariadne princesa filha do rei MInos, que atando a ponta do novelo na cintura do herói ateniense Teseu, por quem se apaixonou, pode este entrar até o centro do Labirinto de Creta e matar o Minotauro, livrando assim Atenas do tributo anual a Creta dos catorze jovens (sete moças e sete rapazes virgens) para serem entregues ao monstro para serem devorados. Esse tributo era cobrado pelo rei Minos de Creta a Atenas porque seu filho, grande atleta, tendo vencido a Olimpíada causara inveja aos atletas atenienses que o assassinaram. O rei Minos para se vingar, então declarou guerra a Atenas e tendo vencido, para não destruí-la cobrava esse cruel tributo anual havia décadas. Até que o príncipe Teseu filho do rei Egeu, de Atenas, se dispôs a ir com a nova remessa de jovens ateniense afim de tentar matar o monstro de Creta e libertar seu povo daquele tributo.

*Abandonada no leito já vazio -
Após Teseu ter matado o Minotauro e conseguido dair do labirinto graças ao estratagena do fio de Ariadne, eles fugiram juntos de Creta e no caminha aportaram na Ila de Naxos uma Ilha anódina onde nada acontecia. Ali Teseu teve afinal tempo de possuir Aradne engravidando-a. No dia seguinte, despertando, Teseu reuniu seus homens e partiu. Quando já estava em alto mar percebeu que esquecera de Ariadne que deixara dormindo (!!!). Quis voltar mas as velas da naus gregas tinham velas quadradas e só se deslocavam a favor do vento, e portanto não podendo voltar abandonou Ariadne em Naxos e prosseguiu de volta para Atenas. Com esse percalço se esqueceu de trocar a vela negra da nave por branca como combinado com seu se pai se saísse vencedor. O rei Egeu que ficava no alto do promontório olhando o mar esperando por seu filho, avistou ao longe a vela negra e pensando seu filho morto atirou-se ao mar, que então recebeu o seu nome: Mar Egeu.

*Esperando a Alegria que vier -
O verso faz alusão à vinda de Dioniso, o deus do vinho, do riso e da alegria, que peregrinando à toa chegou na Ilha de Naxos e não sendo muito chegado em mulheres tinha inventado um falo de madeira, depois chamado de "consolo" com que possuiu a Ariadne (para deixá-a mais alegrinha?) ou o foi o contrário que aconteceu e foi a Ariadne que o possuiu?

Por incrível que pareça os gregos puseram mesmo tais coisas no Mito original, o que fez com que os psicólogos da Mito-análise junguiana no século XX, se empenhassem em analisar os conteúdos psico-sexuais desses estranhos detalhes (!!!)
Quanto ao soneto da Alma Welt, percebe-se que ela incorporou o Mito do Labirinto, do Minotauro e do Herói interno atrapalhado e esquivo, como forma de expressar com certo humor os seus próprios conflitos de um momento de quarentena interiorizada.
(Guilherme de Faria)