sexta-feira, 27 de maio de 2022

A Montanha Rosa (de Alma Welt)

                                Alma diante da Montanha Rosa - o/s/t , 2021-2022

A Montanha Rosa (de Alma Welt)

A tal Torre era então montanha rosa
A que a minha velha bá se referia
Quando eu era a guria imaginosa
Que viajava em sonhos de coxia:

De mim o palco eu um dia assumiria,
A primeira atriz da trupe inteira,
E como não estou pra brincadeira
Sempre o melhor papel encarnaria.

Mas a vida dá lições de humildade
E na grande Babel de uma cidade
Logo perdi-me em meio à multidão

E da torre as mil linguas já se ouvia
Numa imensa e dolorosa algaravia,
E vi de Deus a decantada maldição...
.
27/05/2022

Mares do meu rei (de Alma Welt)



Na Praia - o/s/t de Guilherme de Faria, 2021, 40x50cm 

Mares do meu rei (de Alma Welt)

Eu vi na praia um bote descansando
Pintado, novo, junto a rochas luzidias
E pensei-me logo nele navegando
Para as nobres e encantadas ilhas,

Aquelas da imaginação guria,
Quando ao mirar as ondas da coxilha
Eu sonhava o mar que eu jamais via,
Sendo que de um mar eu era filha.

Então logo quis voltar às pradarias
Onde eu já navegava a sotavento
E avançava bem melhor nas calmarias...

E eu então reconciliada retornei
Àquele mar perdido que acalento,
Onde o velho Minuano é que é o rei...
.
27/05/2022

terça-feira, 29 de março de 2022

Me perguntaram (de Alma Welt)

Me perguntaram se tenho algum amor....
Mas amor mesmo, dizem... carne e osso.
Eu respondo: "Não sou "carne de pescoço",
Pois amo tanto que já morri de amor..."

Estou até rimando amor com amor...
Como ousam a mim tal coisa perguntar?
Cada palavra que profiro é uma dor,
De tanto amor, de tanto o amor amar.

"Caramba, Alma, nos estás levando a mal!
Percebemos que tocamos na ferida
Mas veja, és também a nossa vida..."

"Pois o quê é o poeta senão isso?"
Eu então baixo esta "cabeça universal"
E choro por nós todos desde o início...
.
29/03/2022

domingo, 27 de março de 2022

Assum-preto num toco (de Alma Welt)

                                   Assum-preto da tarde - o/s/t de Guilherme de Faria, 2013, 30x40cm 


Assum-preto num toco (de Alma Welt)

Assum-preto num toco observando
A queimada muito longe na chapada
Foi a visão que retive desolada
Nas retinas e que vem de vez em quando...

Então pedi ao meu pintor que registrasse
Esse sonho acordado, numa tela,
Para que de me assombrar logo parasse,
E pra tal acendi até uma vela.

Porém quando a tal telinha ficou pronta
A beleza já a tinha conquistado
E nos apresentava a sua conta.

Assim é sempre a Arte e a Poesia:
Só querias dar apenas um recado,
Mas o "como", não o "quê, o transcendia...
.
26/03/2022

A Memória (de Alma Welt)

A memória é tudo que eu possuo.
Nada mais é meu, nem corpo e alma,
Estes a Deus somente eu atribuo,
Mesmo a linha mestra da minha palma.

"O futuro a Deus pertence", mas lembranças
ELE não liga já que são tão pessoais
A não ser quando nos doem, assim, demais
E sugerem uns pecados e lambanças...

Cada folha, seca ou verde Deus comanda:
Nada cai sem Sua ordem, nem farfalha,
E no palheiro Ele está em cada palha.

Mas lembranças? Eu as guardo humildemente.
Pra pecadilhos meio fora de demanda
Meu Senhor faz vista grossa, felizmente...
.
27/03/2022

quinta-feira, 24 de março de 2022

Pequena Fábula Pictórica (de Alma Welt)

                                O Pintor- desenho de Guilherme de Faria, 70x50cm, 1974

Pequena Fábula Pictórica (de Alma Welt)

Como artistas só fazemos o que somos,
Não há como falsear fazendo arte.
Se forçando ou procurando noutra parte
Colheremos simulacros, falsos pomos.

Um pintor cansou de si num certo dia
E a pintar como seu mestre começou.
De tal modo acreditou no que fazia
Que a si mesmo, com agrado, se enganou.

Pelo seu mestre então foi visitado
Que lhe disse: "Estás pintando muito bem.
És um bom imitador, fico encantado... 
"
E o pintor, de repente envergonhado,
Recomeçou a pintar inconformado
Já que a pintura é só terra de ninguém.
.
24/03/2002


quarta-feira, 23 de março de 2022

A Mancha (de Alma Welt)

 

Grande Nu (Alma Welt) - o/s/t de Guilherme de Faria, 1990-2018, 140x120cm


A Mancha (de Alma Welt)

Pro meu pintor posei desnuda a me despir
Em pose improvável e caprichosa,
Jarrão com flores, talvez pra distrair
De uma mancha no tecido, capciosa...

Meu pintor é realista, sem malícia,
Mas cobriu-me sutilmente aquela parte
Mas traiu-se ou me traiu com sua arte:
Uma mancha de carinho ou de sevícia...

Perdoei-o e até ri da sua saída
Com a feminina intimidade captada,
A mais funda numa obra já exibida,

Que vendida afinal foi devolvida,
Por comprador e sua esposa indignada:
"Sua modelo, senhor, tá menstruada!
.
23/03/2022
________________________

Nota
Esta história é absolutamente verdadeira. Esta tela foi vendida e depois de alguns anos foi trocada pelo colecionador por outra tela minha, porque sua esposa não a suportava, porque via nela uma mancha de menstruação, nuns toques vermelhos do panejamento. A tela está comigo até hoje e hesito em apagar o tal vermelho...
(Guilherme de Faria)

A Náufraga (de Alma Welt)

Naufrágio - o/s/t de Guilherme de Faria, 2021 50x40cm


A Náufraga (de Alma Welt)

Como barca que a tempestade encalha
Estive desolada algumas vezes,
A esperar dos ventos e revezes
Qualquer areia que afinal me valha...

Não me queixo, estou apenas recordando,
Sobrevivente orgulhosa de remar,
Embora exausta depois sair andando
Como uma Crusoé de outro lugar...

Pois como aquele refiz a trajetória
De toda humanidade passo a passo
Dentro em mim, que me dei tal moratória.

E afinal o meu percurso culminei
Com a tal liberdade de um abraço
Em mim, que fui fiel e me encontrei...
.
23/03/2022

Oroborus (de Alma Welt)

Se tudo na minha vida foi retorno,
Para isso tive então que andar pra frente
Mas não só mordi a cauda qual serpente:
O caminho me fazia olhar em torno...

Báh! E como foi belo o meu caminho,
Que, artista, para ele tive olhar...
Mas olhar desvelador do comezinho,
E até de reis que eu soube desnudar...

Mas não fui palmatória do universo,
Que moderei-me o crítico severo
Optando escolher o bom e o vero

Como quem deixa o resto, displicente,
Ou sílabas que excedem no meu verso,
Busquei rimar a vida, simplesmente...
.
23/03/2022

terça-feira, 22 de março de 2022

Nem Narcisa nem Medusa (de Alma Welt)

                      Alma Welt como Perséfone - o/s/t de Guilherme de Faria, 2020, 60 cm de diâmetro

Nem Narcisa nem Medusa (de Alma Welt)

Vivo e durmo qual se o mundo fosse bom
E desperto nas manhãs espreguiçando,
Quero dizer que a manter o mesmo tom,
Se não apaixonada, muito amando.

Na verdade meu amor é por mim mesma
Mas lhes peço não me acusem de "narcisa",
Refletida não sou minha abantesma,
Meu espelho é ser esta poetisa...

Na verdade minha beleza foi percalço
Confundindo alguns leitores pelo olhar:
É com ela que nas mentes eu me alço?

Meus cabelos são de fogo, não serpentes,
Sim, sou boa, embora cheia de repentes,
Os que me amarem não irei petrificar...
.
22/03/2022


Mito e coragem (de Alma Welt)

"Pra viver é só preciso ter coragem",
E meu pai a teria como um ogro,
Reconhecendo porém a desvantagem
Da mulher, que a necessita em dobro.

Pois saí com a cara e a tal coragem,
Fui ao mundo que nos livros eu amava
Mas que ao vivo era só sede e voragem
(é verdade que a cara me ajudava...)

Olhos cinzas de uma doce nostalgia,
Cabelos ruivos que não herdei de Ana *
Mas de uma estirpe de região mais fria,

Meio caminho andado, eu admito,
Rosto branco de fina porcelana,
E portas já se abriam para o mito...
.
21/03/2022
Nota
*Cabelos ruivos que não herdei de Ana - Alma se refere {a sua mãe Ana Morgado Welt, de estirpe açoriana, de cabelos negros. Os cabelos ruivos da poetisa vem dos Welt, germânicos...
Neste soneto, Alma admite que sua beleza física a ajudou a conquistar um público e a criar seu mito, o que me parece válido num mundo em que a beleza agora corre perigo...

segunda-feira, 21 de março de 2022

O Poeta (de Alma Welt)

Pensar a vida e a morte é meu mister:
M'o arroguei quando ainda era guria
Que com as outras contar o mal-me-quer
Era só o que esperavam e eu devia...

O Poeta tem estranhos fortes ombros
Para arcar com o peso deste mundo
Sendo escriba à margem dos escombros
Com, dos anjos, o coral soando ao fundo.

Então penso que me alego vãos poderes,
Que o poeta é um simples serviçal
Que só entrava pela porta do quintal

E nos castelos comia com os criados;
Ah! Bebia e farreava sem deveres,
Com os versos e os dias seus contados...
.
21/03/2022

domingo, 20 de março de 2022

A Porteira (de Alma Welt)

"Dar conselhos eu me esforço para evitar
Embora o tenha feito alguma vez;
Uma palavra solta ou fora do lugar
É uma porteira aberta e vai-se a rês..."

Assim me disse meu pai fazendo gênero
De "galtcho" estancieiro de bombacha
(este seu, na verdade, lado efêmero),
Sendo mais para Tolstoi na sua "dacha".

De muito poucas reses mas mil livros
E um negro e caudaloso Steinway,
Era um último romântico entre os vivos.

E eu que o tinha entre os sábios,
Conselhos mesmo, de verdade, nunca dei:
A porteira com que Deus selou meus lábios...
.
20/03/2022

domingo, 6 de março de 2022

Anima Mundi (II) (de Alma Welt)

Pensar muito estraga a pele - ela dizia-
Minha mãe, alta, bela e elegante,
Embora com a ponta de ironia
Que me deixava ainda mais distante.

Já meu pai, me queria inteligente,
Não de língua afiada de comadre
Ou pontificante como um padre,
Mas trocando as lentilhas pela lente.

Conquanto sem menosprezar a prosa,
Pondo o saber a serviço da poesia,
Sem falsear os espinhos de uma rosa...

Ao trocar a superfície pelo fundo,
Eu já estava em minha própria Economia:
Alma de mim, também Alma do Mundo...
.
06/03/2022

quinta-feira, 3 de março de 2022

O Espéculo (de Alma Welt)


                                    Alma Welt - o/s/t de Guilherme de Faria, 2020, 60cm diam.

O Espéculo (de Alma Welt)

Contra a tal nostalgia me rebelo,
A saudade irmã dileta da tristeza,
A prisioneira da torre do castelo
Apesar de toda a sua beleza..

Báh! Alma, tuas figuras de linguagem
Traem todo romantismo que há em ti,
Responsável por te colocar à margem
Como o salgueiro mais choroso que já vi.

Chega! Para! Retorna ao nosso século!
Pensas que o Mal, olhando-se no espelho
Sabe de ti por aquele franco espéculo?

Bem... o contraste do cabelo tão vermelho
Com a brancura impossível de tua pele...
Não admira que fatal destino sele.
.
03/03/2002

terça-feira, 1 de março de 2022

A Eremita (de Alma Welt)

Há muito, onde quer que eu pouse olhares
Nasce um verso, sonetos, um artigo...
"Báh! Lá vens tu de novo a te gabares",
Suponho exclamar logo um inimigo

Ou amigo, não sei, faltam-me as provas
De sucesso verdadeiro ou de fracasso:
A solidão só me fornece novas trovas,
Seu faro pro prestígio é meio escasso.

Eis a sina de eremita do poeta,
Repetindo sua oração dileta
Mas com vocabulário à saciedade.

Sim, sei que até me alcançam no deserto,
E enquanto ouço uns aplausos da cidade,
Mastigo um gafanhoto pouco esperto...
.
01/03/2022

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Anima Mundi ( Alma Welt)

Confesso, não há nada mais extremo
Que viver a vida em liberdade;
Um passo aquém dela, na verdade,
E uma falsa paz será teu prêmio.

Ora, Alma, lá vens tu com mais dilema!
Não consegues deixar de questionar?
Não consegues só levar a vida amena,
Escrever teus belos versos e os mostrar?

Talvez tenha perdido minha inocência
E nem mais consigo simples colher flores
Sem lembrar Ofélia em sua demência...

Já que eu carrego o mundo no meu nome, *
Não dou um passo que não contenha dores:
Guerra e paz, abundância e também fome.
.
28/02/2022

Nota
"... carrego o mundo no meu nome - pra quem não sabe, a palavra Welt (pronuncia-se Velt) é alemã significa Mundo. Alma Welt quer dizer Alma do Mundo, "Anima Mundi" em latim, é arquetípica, representa a alma feminina que perpassa o mundo, o regenera e redime.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Orgulho e sinceridade (de Alma Welt)

Nunca tive pena de mim mesma,
Tive é que me livrar do meu orgulho,
Coisa fácil de seguir até no entulho
Luminoso como rastro de uma lesma.

Entulho? Ora, sim... de pecadilhos
E alguns outros defeitos desprezados,
Mas que quando assim acumulados
Parecem os coelhos tendo filhos.

Alma, vê: não desças tanto lá de cima
Não estás sendo sincera em demasia?
Não confundas humildade e baixa estima.

Deus sabe o tanto que a ti mesma burilas,
Não o rosto no cristal da tua pia
Mas sincera em cada verso que desfilas...
.
26/02/2022

Olhai as flores (de Alma Welt)


                                      Fantasia floral (ou As flores da avó Frida) -o/s/t 2022,70x50cm 


Olhai as flores (de Alma Welt)

Vivo, sim, em eterna vigilância,
No que for concernente à minha alma,
Que me foi dada, eu sei, em confiança,
Para levá-la de volta sem um trauma.

Mas "trauma" é sonho, dizia minha avó *
Se referindo da palavra a própria origem
Na sua aldeia, de onde saiu só
Pra encontrar com meu avô, ainda virgem.

E zelaria por mim muito mais tarde,
Preservando não a minha inocência
Mas a própria chama que em mim arde.

"Minha Alma"- ela dizia- "olhai as flores
E mantenha como elas vossas cores
Até o fim, tudo mais é excrecência"...
.
23/02/2018




A bronquinha de Deus (de Alma Welt)

Se demais penso na vida fico triste...
Proibido foi o Fruto e não à toa;
Ainda vejo Deus de dedo em riste
E rezo pra que a culpa não me roa.

Digo assim: "Senhor Deus, releve aquilo,
Não nos guarde rancor, deixa pra lá!
Não filo mais maçãs, mudei de estilo,
Plantei mesmo um lindo pé de manacá."

"Mesmo assim Deus um dia me deu bronca,
Ou só ralhou, mas como quem acalma:
"Alma,"- (rima falsa... ai!)- "és mesmo tonta,"

"Tu me cobras todo dia esse teu trauma...
De meus Mistérios, não paro pra dar conta,
Mas não vês como acalento a tua alma?"
.
26;02/2022

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Traduttore-traditori (de Alma Welt)

Para viver só preciso de beleza.
(não falarei pois de água nem comida),
Mas só daquilo que, dizem, não põe mesa
E que é a só razão da minha vida.

A Beleza é a Verdade e vice-versa, *
Melhor dito o grande Keats decretou
E não contente no final acrescentou
Que é tudo pra saber, sem mais conversa. *

Sei que estou trocando a libra por reais
Nem sequer da realeza da rainha
Ou monarca de outros tempos ideais..
.
"Bah! Alma, estás trocando é em miúdos!
Sabemos bem que preservas conteúdos,
Mas a beleza só o original continha..."
.
25/02/2022

Nota
*A Beleza é a Verdade e vice-versa, *
*Que é tudo pra saber, sem mais conversa - Alma propositalmente popularizou em português os famosos versos finais da célebre "Ode A Uma Urna Grega" do poeta romântico John Keats, de maneira um pouco gaiata, para fins de demonstração da diminuição da beleza com a perda de forma original na tradução.
No original os versos são assim: "Beuty is truth, truth beauty"- that is all/
Ye know on earth, and all ye need to know."
Mas, na verdade, a Alma reconhece a beleza da tradução primorosa de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
" A beleza é a verdade, a verdade a beleza"- é tudo
O que sabeis na terra, e tudo o que deveis saber.

Puro amor (de Alma Welt)

Quando guria eu era puro amor,
Assim, a esmo, amava todo mundo,
E me magoava também, com igual candor
Que perdurava menos de um segundo.

Sintonizada então no "modo" amor
(como se diz das coisas hoje em dia),
Alegre e inocente persistia
Deixando para trás mágoa e rancor...

Ah! Estais esperando uma catarse,
Uma revelação ou uma vingança?
Pensais que meu amor era um disfarce?

"Não sei vocês" (como, aliás, o povo diz)
Mas não pus o meu amor numa balança,
E nem teve um voo curto de perdiz...
.
25/02/2022

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Retorno ao Ninho ( de Alma Welt)

Sempre quis voltar para o meu ninho
Que não é somente a estância, o casarão,
Mas o interior da alma e o coração
Do poeta que nem deixarei sozinho...

Eu disse: olha, eu sei quanto me gostas.
Me arrancaste do interior, não das alturas,
Sou tua anima, me vias só de costas *
Nesses teus belos desenhos e gravuras...

Me devolva e continuo dentro em ti.
Inventa-me um acidente pros leitores,
Mas, te peço, não capriches nos horrores...

E afogaste-me naquele poço, a sério, *
Acrescentando a mim mais um mistério,
De meu desejo o desfecho não previ...
.
23/02/2002
__________________________

Notas

* Sou tua anima, me vias só de costas
Nesses teus belos desenhos e gravuras -
Na sua obra completa , volume 18, página 412, CARL JUNG escreveu:
"No topo da gravura está a personificação do inconsciente, uma figura de anima nua que se vira de costas. Esta é uma posição típica: no princípio da objetificação destas imagens, a figura de anima frequentemente vira-se de costas. " CW 18, §412

*E afogaste-me naquele poço, a sério
- em 210 de Janeiro de 2007, depois de uma série de sonetos em que angústia da Alma parecia estar crescendo dia a dia, eu recebi dela o soneto intitulado "A Carruagem", uma nítida despedida da vida, uma perceptível vontade de ir embora. Fiquei deprimido, senti que a Alma ia morrer e , veio-me a seguir a visão dramática de seu afogamento no "poço da cascata" de sua estância. Postei como sua irmã Lucia Welt a notícia trágica pormenorizada em detalhes romanescos na página da Alma no Recanto das Letras, o que motivou um grande choque (a Alma já era uma da estrelas daquele portal) e em seguida, com o desmentido indignado do Editor, um escândalo, culminando com a expulsão póstuma (!!!) da Alma, e minha, daquele portal (episódio incrível que já narrei aqui no face há tempos atrás).
 
*Acrescentando a mim mais um mistério- Na narrativa da Lucia Welt, fica uma ambiguidade, uma dúvida até hoje não solucionada, se se trata de suicídio ou assassinato, pois a Alma estava nua, com uma corda no pescoço amarrada a uma grande pedra ancorada no fundo do laguinho cristalino ( o "poço"), Como ela tinha a parte inferior dos braços, esfolados, poderia tanto ser ferimentos de defesa ou da pedra áspera amparada ali, escorregando para as águas.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

"Les Feuilles Mortes" * ou O Último Outono (de Alma Welt)

Chego a pensar que construo minha vida
Soneto por soneto, não o oposto...
Mas, pensando bem, quem não duvida
Das Memórias que tão bem caem no gosto?

Eu realmente não sei onde começa
Ou acaba minha vida verdadeira.
Acaso, existe mesmo essa fronteira,
Estarei para mim mentindo à beça?

Não, não creio... é sempre a alma
Que dita o rumo até por linhas tortas
E não há como falsear linhas da palma...

Tudo aquilo que o coração aborda
Como outono que mais ninguém recorda,
Permanece, até mesmo as folhas mortas...
.
21/02/2022

Nota
*Les Feuilles Mortes - titulo da célebre canção francesa composta em 1945 por Jacques Prévert e Joseph Kosma, e que foi interpretada por Edith Piaf nos anos 50 e revivida nos anos 60 pelo cantor-ator Yves Montand. Na verdade, a canção é tão célebre que foi interpretada em francês e na sua versão inglesa, por todos os grandes cantores desde então.
Entretanto a Alma a homenageia com o título mas se refere às "folhas mortas" em outra acepção bem diferente.



Nem raposa, nem as uvas (de Alma Welt)

Sei bem que para pouca gente escrevo,
Não me iludo pois tenho os pés na terra;
Sou "da" pampa onde tanto gado berra,
Mas até pra um só leitor sinto que devo.

Que me importa se a plateia é reduzida!
Mas não sou como a raposa sob as uvas
E não pauto por despeito minha vida,
Nem saudosa, demais, como as viúvas.

Do sucesso que eu tinha com os meus,
Guardo dos bons momentos mesmo o cheiro,
Estão comigo e não preciso dar adeus.

Um passarinho canta porque existe
Não é preciso seduzi-lo com alpiste...
Vou cantando nem que seja no chuveiro.
.
21/02/2022

Autoajuda (de Alma Welt)

Ando muito só e triste, Deus me cuide...
Foram-se todos os que me eram caros,
E daqueles bons amigos, muito raros,
Vi pequenas traições, mas amiúde.

Ora, Alma- digo então para mim mesma-
Estás aí a te queixares, que vergonha!
Agora és para ti tua abantesma,
Em vez de só molhares a tua fronha.

Mas Rodo, meu irmão que é meu esteio,
Meu coração perdido de si mesmo,
Caiu no mundo a jogar dados a esmo...

Mas Alma! - a resposta a mim me veio...
Não há dados novos, te dás conta?
Tua vida é tão rica... e nasceu pronta.
.
21/02/2022

domingo, 20 de fevereiro de 2022

A Estrada Sem Fim (de Alma Welt)

Se é difícil viver em sociedade,
Viver sozinha a vida é mais ainda.
É como andar numa estrada que não finda
Se no fim não chega a uma cidade...

"Não, Alma"- disse o Mestre- "é ilusão.
A vida é muito mais o caminhar,
Chegar a uma cidade é que é parar.
Até morrer pra quem andar na contramão..."

Então olhei o mestre assim de esguelha
E notei que sua lábia consistia
Em dizer o que lhe vinha assim na telha.

E convencer meu solitário coração
Foi fácil para o mestre que me ouvia:
O seu aval pra eu voltar à solidão...
.
20/02/2022

Expressionismo alemão (de Alma Welt)

Meu pai cobria as paredes de pinturas,
Belos quadros de pintores excelentes
Que nos davam, na abordagem das figuras,
O real visto bem sob outras lentes.

"Expressionistas"- didático dizia,
Apontado as expressivas distorções
Conquanto a diferença eu já não via
Entre aquilo e meu mundo de emoções.

Então ao escrever os meus versinhos
Eu olhava para dentro com um olho,
O outro olho voltado pros vizinhos...

E meu pai aprovava admirado,
Confirmando que o sabor vinha do molho
Naquele meu versejar de pé quebrado...
.
20/02/2022

sábado, 19 de fevereiro de 2022

O Flagrante (de Alma Welt)

Sempre tive muito medo de morrer...
"Tanatofóbica", diria, mas nem tanto.
Observo, com alegria e não espanto,
Um velho tronco desgalhado florescer.

Tenho uma pontinha de esperança
De merecer de novo um Paraíso
Desde que seja igual à minha infância
Sem mais sofrer de novo um mau juízo.

Confesso sofri muito o tal flagrante
De sermos pegos peladinhos no Jardim
E aquela dor me volta a todo instante...

Pela orelha arrastada ao casarão,
Chorando e me cobrindo com a mão,
Ai Me! (diria o grego)... Ai de mim !
.
19/02/2022


De volta ao Jardim (de Alma Welt)

Retornar ao meu Jardim como inocente,
E garanto estar ainda pura e igual,
Pois ao contrário de tanta boa gente,
Nem aceito o tal "pecado original"...

Tão previsível... Quê raio de pecado?
Eu em minha candura virginal,
Junto a mim meu belo irmão pelado,
Em simples brincadeiras de quintal...

"Ora, Alma, estás pegando no concreto,
É tudo alegoria, não percebes?
Não deves tanto assim olhar de perto.

Ao violar o Fruto da Ciência,
Iguais parcelas de Bem e Mal recebes;
Agora é tarde, Inês é morta... Paciência..."
.
19/02/2022

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A Fugitiva de Babel (de Alma Welt)


                                       A torre no prado - o/s/t de Guilherme de Faria, 2017, 30x40cm

A Fugitiva de Babel (de Alma Welt)

Eu jamais fui trabalhar em Babilônia,
E acho a tal torre um grande porre.
Minha língua é portuguesa, de colônia,
E só com a da matriz, talvez, concorre.

Meus horizontes são vastos, infinitos
E permito meu olhar ir com o vento;
Sou tão afeita às lendas e aos mitos
Que, por isso, o meu passo é meio lento.

E porque a minha memória é o dia a dia,
Eu carrego este peso redobrado
De um presente eivado de passado...

No entanto, sou jovem... quem diria?
Não somente para efeito de poesia
Esta minha brancura ao sol do prado...
.
18/02/2022

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Crônica (de Alma Welt)

Meu soneto é minha crônica diária
E espero se surpreendam como eu:
Serei Callas em reconhecida ária
Ou o fogo roubarei, qual Prometeu?

Mas que nada! Em geral sou simplesinha
E falando só das coisas que conheço...
Só não sou fútil, banal e comezinha
Pois ao gosto da massa não obedeço.

Só não falo do Amor, seu nome em vão,
Pois que ao jovem poeta ou escrivão,
As Cartas de Rilke ainda me movem. *

Não sabemos o que aconteceu ao jovem:
Se foi escrever sonetos que comovem
Ou carimbar numa fatal repartição...
.
15/02/2022

Nota
* Nas famosas "Cartas a um Jovem Poeta", o grande Rainer Maria Rilke o aconselhava a não escrever poemas de amor, sem explicar porquê. Suponho porque o Amor, como tema, se deve deixar para os poetas que atingiram o ápice de sua arte, do contrário se cai inevitavelmente na pieguice e na banalidade dos lugares-comuns...

Divagações sobre o Tempo (II) (de Alma Welt)

A trilogia do Tempo me domina
(já que eu devo falar por mim somente)
Pois vivo em dois mundos minha sina
E acredito ficar para semente...

O passado (dizem) sempre nos condena...
Eu que nada sou sem minha memória,
Se não posso contar a minha história,
Que história vou contar que valha a pena?

Presente e passado, duplo jogo
Pois o futuro é mistura surpreendente
Como a cara do rebento do Diogo

(Diogo é o meu vizinho e sofre um logro
pois não consegue ver que a mulher mente)...
Mas eu não estava a falar de mim somente?
.
15/02/2022

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Devaneios (de Alma Welt)

                                    Devaneios da Alma - o/s/t de Guilherme de Faria, 2021, 40x50cm

Devaneios (de Alma Welt)

Sabeis que sou chegada a devaneios,
Assim crio panoramas e poentes
Refazendo o real por outros meios
E tentando oferecer às outras mentes.

Para isso me amparo em meu pintor
Que me dá suporte me ilustrando;
Às vezes o contrário, e é quando
Eu é que ilustro suas pinturas sem a cor.

Mas de um jeito ou outro, dadivosos
Oferecemos beleza, assim, de graça,
Como quem apenas brinda e ergue a taça.

E se ao formar assim campos e flores
Nada tenho além de versos ociosos,
Distribuo em versos mesmo minhas cores...
.
14/02/2022

O pó e o pólen (de Alma Welt)

Não há nada que me cause mais prazer
Que um soneto novo a cada hora.
"Quê exagero! Assim vais até morrer!
Cada verso te leva um pouco embora!"

Mas faço versos assim como respiro
E não tentem me conter ou distrair
Se estou a contar sílabas, que piro
Ou poderei em pleno ar até sumir.

O soneto me compõe, me configura
E assim como tu mesmo sou real,
Já que a vida material bem pouco dura...

E iremos todos no fim sumir no ar
Ou mais densos, grãos num areal,
Mas, poetisa, pólen sou, pra fecundar...
.
14/02/2022




                          Guirlanda (A Infância da Alma) - o/s/t de Guilherme de Faria, 2022, 50x70cm
 
De coroas e guirlandas (de Alma Welt)

"De tua infância lá vens com a cantilena!"
Disse alguém já cortando-me o discurso.
E quase achei que estava em selva plena,
Sozinha e acuada por um urso...

Isso era sonho mau, não acontece,
Geralmente não sou mal recebida.
Quem com tais flores coroas tristes tece
Conhece o medo de as receber em vida.

Solidão, herança bela de meu pai,
E de seus conselhos lembro muito,
Que diziam como o homem sobe e cai.

Tenho flores de entretecer guirlandas
E não aprecio cravos de defunto:
Cordões quero, cantos, festas e cirandas...
.
14/02/2022

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Espelho, espelho meu (de Alma Welt) *

                                        Alma ao espelho - o/s/t de Guilherme de Faria, 70x70cm

Espelho, espelho meu (de Alma Welt)

"Bela Alma, como tens tanto a dizer
E o fazes em milhares de sonetos
Que sem nunca os repetir ou aborrecer
Em ouro fechas nos últimos tercetos?"

Era eu que ao espelho perguntava
Mirando minha beleza duvidosa
Enquanto o espelho franco retrucava:
"És bela... mas há quem lhe dê sova."

"Tens aqui mesmo a Cecília inconfidente; *
Além-mar tens a Florbela, que te espanca, *
Ambas mortas porém ainda na rinha. "

Baixei minha cabeça humildemente,
Mas fui cantar "My Way" como o Paul Anka, *
Pra não perder majestade de rainha...
.
13/02/2022

Notas
* Espelho, espelho meu... - Não preciso, talvez, esclarecer que se trata de uma paródia da Alma da cena do espelho mágico da rainha má, na história da Branca de Neve.

*...a Cecília inconfidente - a grande poetisa brasileira Cecília Meirelles, autora do genial "Romanceiro da Inconfidência", mas que era também sonetista (na verdade, nem de longe comparável à Alma Welt, que neste gênero específico é muito superior).

*...a Florbela, que te espanca - Florbela Espanca, maravilhosa poetisa portuguesa, que a Alma muito admira como sonetista intensa e sublime.
 
"...cantar "My Way" como o Paul Anka - embora esta notável música e letra tenha sido celebrada na voz do Frank Sinatra, a autoria se deve ao Paul Anka, roqueiro que se destacou somente no final dos anos 50 e começo dos anos 60, mas será imortal pela autoria tardia da canção My Way, cuja letra afirma a maneira própria e individual de uma pessoa criar, agir e vencer na vida.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Alma Caravaggio (de Alma Welt)

Alguém me disse: "Alma, não és feliz.
Na poesia tua angústia é bem visível,
Se não nas entrelinhas, por um triz,
Mas por tua produção vasta e incrível."

"Ninguém lança mão de tanto verso
Se estiver bem a gosto em sua pele,
Sem sentir o mundo mau e adverso,
Sem juntar tanta beleza que o sele..."

Diante disso comparei asas e cruzes,
E para reavaliar sombras e luzes
Me tornei de mim meu Caravaggio:

A luz que me ilumina, minha amiga,
Certamente não é de graça, tem um ágio,
Que a sombra a ressalte é que me intriga...
.
12/02/2022

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

As doze sílabas fatais (de Alma Welt)

De mim mesma permaneço vigilante
Ou estarei então aqui ao Deus-dará?
Mero arbusto sou, pouco instigante
Ou um carvalho que enorme sombra dá?

Penso dar frutos, não bolotas de Natal,
Que, acho eu, serve apenas para esquilo
Ou tudo mais que quer que seja aquilo
Se não fosse outro carvalho como tal...

Está bem... então acolho à minha sombra
Se não puderem digerir estranhos versos
Num formato que o rigor ainda assombra.

Doze silabas contadas como favas
De algum dos Alexandres controversos,
Alma, semeias ou tua cova cavas?
.
11/02/2022


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Sereias (de Alma Welt)

 

Sereias - o/s/t de Guilherme de Faria, 2022, 40x50cm


Sereias (de Alma Welt)

De guria, acreditava nas sereias,
Sonhando ver o mar para avistá-las
Malgrado aqueles truques, cantos, teias
Colhendo marinheiros para amá-las.

Mas pensando bem sobre as histórias
Percebi de repente e com espanto
Que quase tudo emite aquele canto,
Que sem perigo as coisas são inglórias

E que a vida mais comum é Odisseia,
Pois sempre o risco corremos da paixão,
Só aos outros evidente má ideia...

Vida correu, então, pros meus amores
Eu vi trocar-se a ordem dos fatores,
Que sereia fui eu mesma e ilusão...
.
10/02/2022





terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

A voz do carvalho (de Alma Welt)

                                     Alma e o Carvalho - o/s/t de Guilherme de Faria, 2022, 40x40cm

A voz do carvalho (de Alma Welt)


Houve tempo em que tateei nas trevas
Porque não acreditava nos meus olhos.
Como eu, maré de gente, havia levas,
Por si mesmas, só barreiras e escolhos.

Onde é que estou? Em vão eu perguntava,
Pois as repostas eram tantas a dispor
Como de vagas o uníssono fragor,
Que, perdida ia eu, e tateava...

Então cheguei à sombra de um carvalho
Que no meio das trevas era luz
E num mar de secura, era o orvalho.

E então do imenso tronco ouvi a voz:
"Teu olhar, somente ele, te conduz,
Já que na multidão estás a sós..."
.
(sem data)

_____________________

Nota
Alma Welt, como sempre simbolista, me fez lembrar da anedota relembrada pelo Olavo de Carvalho sobre Groucho Marx (dos Irmãos Marx, comediantes da Era de Ouro de Hollywood) que disse a um interlocutor num filme: "Então, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?"

domingo, 30 de janeiro de 2022

O poeta como vidente (de Alma Welt)

Pensar a vida ao mesmo tempo que vivê-la,
Prerrogativa é nossa, de poetas;
E se ao morrer viramos uma estrela,
Em vida alguns de nós somos profetas.

Rimbaud o disse com bem outras palavras
Na Lettre du Voyant, sua, famosa.
As pessoas, do presente são escravas,
Mas, vidente, o poeta, sofre e goza.

Ele viu homem e mulher dadas as mãos
E juntos caminhando lado a lado,
Não só como parceiros, mas irmãos.

Quanto a mim, não postergo meu encanto:
Lhes doo meu presente já encantado,
Eu, Alma, solitária, de amor tanto...
.
30/01/2022

sábado, 29 de janeiro de 2022

Por quê escrevo versos (de Alma Welt)

Escrevo um verso se quero ver mais fundo,
E a vida ante meus olhos flui e corre
Como, dizem, ao moribundo ocorre
No espantoso e último segundo...

E o mundo começa a tomar forma
Numa espécie de gênese modesta
No ventre da mulher que, simples, gesta
À espera do trem na plataforma...

Mas enquanto espero que o trem passe
Continuo a criar o meu cenário
De um pequeno universo rico e vário,

A esperar que configure uma visão
Que, se não revelar-me a Grande Face,
Deixe ao menos ver dos anjos o roldão...
.
29/01/2022


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

A Cegonha (de Alma Welt)

Para me reconstruir basta lembrar
A criança que fui em minha estância
E os revérberos felizes da Infância
Voltam depressa para me iluminar...

"Mas não foste assim feliz o tempo todo,
Ó Alma, incoerente e mentirosa!
Nos contaste teus escorregões no lodo
E as sombras na tua vida cor de rosa!"

Mas na infância (me defendo) sempre flui
Por si mesmo o sentido da existência
Pois que é o Jardim nosso da Inocência...

Não vejo algum motivo de vergonha,
Já que quando com meu mano expulsa fui,
Eu ainda acreditava na cegonha...
.
28/01/2022



Catarse (de Alma Welt)

No mais das vezes a vida é só conflito,
Pelo menos a vida em sociedade.
E Isso aborrece, é sono com mosquito,
É mau, é feio, é ruim à saciedade...

Há quem goste, é verdade... é instigante
Pra quem de sobra tem testosterona
Mas eu, que nem sou muito chorona
Estou farta, enojada... é degradante.

E eu tenho que dar mão à palmatória
Vejo crime e quero ver o fim da história,
O grego antigo falava de "catarse"

E nem sempre é justiça, mas vingança
Que nem mesmo necessita de disfarce
Pois na lógica do mundo o Mal avança.
.
28/01/2022

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A Leoa e a Corça (de Alma Welt)

Como corça ando a esmo na coxilha,
E é onde me sinto menos só
Embora dela não seja mesmo filha,
Mas de um acostamento e puro pó.

Meu pai (isto contei diversas vezes)
Cortou o meu cordão com o canivete
Suíço, mil funções, e não gillette
Como fala a minha mãe de seus reveses.

Em em vez de álcool, Steinhaeger no cordão
Em meio a um gole e outro pra dar força
Porque parto é sempre dose pra leão...

Mas malgrado os percalços de nascença
Enquanto a leoa em mim não vença
Não importam os começos: sou a Corça.
.
27/01/2022

Romanesca (de Alma Welt)

Romanesca, disso tenho consciência,
Ninguém disso me acusa todavia,
E o leitor me lê com complacência
Atribuindo aos velhos vícios da poesia.

Mas não conheço um só poeta bom
Que não tenha um pé no romantismo
Desde "as neves de antanho" do Villon
Até de Werther o amor-paroxismo.

Mas se evito o soneto das origens
Ou epigramas de amor ou sedução
É porque tenho o tal pudor das virgens.

Mas no fundo sei que estou mentindo:
Guardo em cada verso mais paixão
Do que posso consentir que estou sentindo...
.
27/01/2022

A Antena (de Alma Welt)

O mundo da Poesia é infinito
Como é o cabedal da melodia;
Não se pode esgotá-lo: é como um rito
Que igualmente se renova todo dia.

O primeiro verso cria o assunto
Que será tanto melhor se controverso
Pois o tal lugar-comum é um defunto
Que perde seu lugar neste universo.

Resumindo: a Poesia é um mistério
Pois impõe verdades nunca ditas
Que dependem de seu próprio critério.

Ao poeta não adianta refutar
Já que ele tem antenas nada aflitas,
E passa adiante o recado que calhar.
.
27/01/2022

A Mão do Sal de Alma Welt)

O quê posso fazer se o mundo é mau?
Eu perguntava quando era uma guria.
"Mas não é mau nem bom"- meu pai dizia-
"E caberá a ti dosar a mão do sal."

Não que meu pai fosse bom de culinária
Mas tinha um olhar bem mais profundo
E não levantava a voz contrária:
Pois não era palmatória deste mundo...

Não perca tempo, Alma - ele dizia-
Em apontar as falácias e os erros.
Se dedique ao sonho mesmo da Poesia

Mas não faças jamais dela teu palanque:
Como os que o fazem em seus desterros
Sem que, em si, rancor e mágoa estanque...
.
27/01/2022

A Volta ao Poente (de Alma Welt)

Há tempos não sentava em minha varanda,
Na cadeira de balanço da minha avó.
Para olhar o seu poente como anda,
Desde quando ela morreu e me vi só.

Mas a contemplação soou mais triste
Do que quando eu sentava no seu colo
E ela apontava o dedo em riste
Para o sol, por meu olhar fora do polo...

É que eu olhava seu semblante iluminado
Para ver a eternidade em sua face,
O poente já em si incorporado.

E agora vejo então que eu não sabia
Que assim Deus se despia de um disfarce
Para estar entre nós no fim do dia....
.
27/01/2022

O Tempo da Poesia (de Alma Welt)

Estar no mundo como se mundo não fosse,
Estar a passear na minha história,
Celebrar o momento em sua glória
Simplesmente porque foi e acabou-se...

Eis a postura que adotei como poeta
Mesmo não sendo, por assim dizer, geral,
Pois há quem tenha o passado como meta
Ao tentar reconstrui-lo no quintal...

Mas, Alma, falas muito em tua avó,
E ao que parece, com muita nostalgia
Dessa matrona que há muito está no pó!

É que criança sou de trás pra adiante:
Vivo apenas no tempo da Poesia,
Que é aquele de colher a flor do instante...
.
27/01/2022

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

O Mistério do Heterônimo ou A Lente da Poesia (de Alma Welt)

Estou inteira em cada verso escrito
Mas meu mistério está só nas entrelinhas
Naquilo que é o dito por não dito
E cujas chaves não cedo nem são minhas.

O soneto me condensa e me compõe,
Me dá esta feição e anatomia;
E tingidos pela heteronomia,
Cabelos ruivos como o sol quando se põe.

Quer dizer que não existes de verdade?
Me pergunta o leitor estupefato,
De sua musa já ficando na saudade...

Bem mais que a maioria, um ser vivente,
Sim, estou viva e sou real de fato,
Não me troco por lentilhas: sou a lente...
.
26/01/2022

A casca da cigarra (de Alma Welt)

Uma luta na verdade me define,
E essa mesma é só contra a tristeza.
Não tenho pretensão de ter firmeza,
Nem canto só na morte como um cisne.

Passo a vida a cantar como a cigarra,
Justo a qual, de tão efêmera que vem
Ao tronco das árvores se agarra
Pra mais perene uma casca ser também.

Ser poeta para muitos causa riso,
Quando não laureado como o Dante
Que viu de perto Inferno e Paraiso.

Mas em versos, eu que adoro singeleza,
Ponho flores numa jarra como amante,
Qual se fosse receber a realeza...
.
26/01/2022

O Toque de Primavera ( de Alma Welt)

Perguntaram-me por quê minha solidão,
E esta minha procura descabida
De algo muito além do casarão,
Latifúndio que me coube, de saída.

Dizem: "Vens de privilégios obtidos"...
Como para me fazer parar de andar
Nesta procura inútil de sentidos
Da qual nem estou a me queixar.

Mas, quê dizes? Estou só a fazer versos
Para que o mundinho com que lidas
Se amplie em pequenos universos

Como se o toque só coubesse a mim.
Não que mude tudo em ouro, como Midas,
Mas que a boa primavera trás, por fim..

26/01/2022



domingo, 23 de janeiro de 2022

A princesa extraviada (de Alma Welt)

Pensei tanto abandonar o meu pintor,
Deixá-lo por espécie de vingança
Já que o velho me prendia por amor
E contava que isso fosse uma aliança.

Era eu jovem criatura aprisionada
No imaginário estranho de meu mestre
A vagar eternamente extraviada
Romântica, anacrônica e pedestre.

Quantas vezes rebelei-me, em vão fugi
Como princesa perdida na floresta
Exausta e esfarrapada, por aí...

Mas meu criador, à minha procura,
Dizia: "Veja, Alma, seja honesta,
Estás pronta? Dez colchões e a cama é dura"... *
.
23/01/2022
Nota
*Dez colchões e a cama é dura"- Alusão ao famoso conto de fadas "A Princesa e a Ervilha". Pensando bem, a minha criação da personagem Alma Welt, por ser arquetípica (Anima Mundi) tem contornos de um grande conto de fadas contemporâneo.
(Guilherme de Faria)

Alma Galatéia Rebelada (de Alma Welt)

O soneto é a memória minha, viva,
Já que vivo através dele o dia a dia.
Para entender tão louca afirmativa
É preciso saber que sou Poesia

No sentido literal dessa palavra,
E porque, sim, sou a bela Galatéia
De um artista da velha Paulicéia
Que agora quer assumir a minha lavra.

Agora é tarde, velho louco de tua Arte!
Como a outra vivo livre minhas paixões
E meu navio te deixo a ver, que parte...

Perdeste-me, ou quase, sou do Mundo.
Só dependo da tua mão os comichões,
Mas meu ser, do que o teu é mais fecundo...
.
22/01/2022

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Flores secas (de Alma Welt)

Coleciono meus amores nada escassos
Mas não como belas borboletas
Espetadas nas tais caixas de coletas,
Nem tampouco como rol dos meus fracassos.

Mas mais pra flores secas entre páginas
Como eu já tinha, de guria, em meu diário,
Por um nada, corriqueiro ou ordinário,
Mais pelo efeito futuro que imaginas...

Mas quando eu os reviso, meus amores,
Não posso evitar suspiro súbito
E se não furtivas lágrimas, rubores...

Mas quem me visse repassando a coleção
Talvez desse com o meu dorsal decúbito
Co'a sempre viva flor nos dedos, da paixão...
.
21/01/2022

A Dança das Cadeiras (de Alma Welt)

Quando quis sair de casa (me achei pronta)
Meu pai apenas disse: "Seja atenta.
Não vá rolar ao léu, não vá de tonta,
Na dança das cadeiras olha e senta."

Então saí pro mundo, queixo erguido
Afetando segurança que eu não tinha
Era jovem e bem mais que bonitinha
E já deixara mais de um peão perdido.

Mas o mundo não era como os livros
De enredos já filtrados e escolhidos
Personagens parecendo bem mais vivos...

E percebi que só somos nossa sombra:
A tal última cadeira nos assombra
Mesmo com nossos traseiros encolhidos...
.
21/01/2022

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Meu espaço-tempo (de Alma Welt)

À do tempo eterna fuga sempre atenta,
E sem par nessa feição entre os amigos
Para quem a vida é longa e muito lenta
Ou contada a partir dos seus umbigos,

À "passagem das horas" faço eu versos
Como o Pessoa o fazia sendo Campos, *
Conquanto os meus campos, tão diversos,
Mais regidos pela relva e pirilampos...

Dos meu versos, os tornando mais enxutos,
Romântica tardia mas não tísica,
Conto sílabas e não fatais minutos.

Pelo meu espaço-tempo, sim, passeio
(nada a ver com ciência e astrofísica)
A colher flores e cheirá-las contra o seio...
.
20/01/2022

Nota
*Como o Pessoa o fazia sendo Campos - Fernando Pessoa, na pele de seu mais notável heterônimo, Álvaro de Campos, tem um longo, maravilhoso, dramático e famoso poema Intitulado "A Passagem das Horas".

De volta ao vento (de Alma Welt)

                          Alma e o vento - o/s/t de Guilherme de Faria, 2022, 40x40cm


De volta ao vento (de Alma Welt)

Por um tempo em Babilônia residi, *
Na Avenida me misturei ao povo; *
Flertei com a flor do lumpen, me perdi, *
Então sonhava voltar pro lar de novo.

Flor atônita, desraigada, em pleno ar,
Minha corola rubra mais ardia
Em protesto contra minha covardia
Pela ânsia de fugir e de voltar.

Para o ar então joguei a veleidade
De ser mais cosmopolita e de mamar
No seio farto e disputado da cidade.

E voltei para estes páramos perdidos
Onde o vento uiva só pra me lembrar
Que o minuano e eu somos unidos...
.
20/01/2022

Notas
*....em Babilônia residi- Alma se refere ao tempo de seu autoexílio em São Paulo, por motivo de desgosto pela morte de seu pai.

*Na Avenida me misturei ao povo- Alma se refere à Avenida Paulista.
 
*Flertei com a flor do lumpen, me perdi - Alma alude ao caso que teve com um belo travesti de nome (de guerra) Lea Leandro, que ela conheceu na Avenida Paulista, e levou para seu apartamento nos Jardins, caso este que ela revelou num belo e dramático conto longo (de duas partes).

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Tempestades (de Alma Welt)

“O mundo está a desabar”, a avó dizia
Quando aqui começavam tempestades,
E sabia o quanto a mim me divertia
Exageros, hipérboles, “boutades”...

Nem medo eu tinha dos raios e trovões:
Ficava a imaginar Odin e Thor
No Walhalla em grandes reuniões
A narrar suas próprias sagas, sim, de cor...

Mas um peão esbaforido ao meu pai veio
E gritou: “O raio o fulminou, ó meu patrão!
Está debaixo do umbu partido ao meio.”

Comecei levar a sério os elementos:
Pra abrandar seus fatais temperamentos
Pedi a Odin e Thor mais compaixão...
.
19/01/2022

O Riso e o Toque.. (de Alma Welt)

Minha mãe considerava a vida triste
E tentava nos passar essa penumbra;
Vivia como um pássaro, de alpiste,
Mas jamais na altura que deslumbra.

Do Vale Lacrimoso firme crente,
Olhava o meu riso como escândalo
Para o silêncio de sua mente,
E à sua catedral ataque vândalo...

Então, eu, por meu lado mais brilhava
Com de todos os demais o beneplácito
Ao meu riso cristalino que encantava.

Luz e sombra, sempre, embate eterno...
Não, não! Talvez fosse acordo tácito:
Sua mão de mãe senti num toque terno!
.
19/01/2022

Conhece-te... (de Alma Welt)

Ser-se a si mesmo é o mais difícil
Pois a nós mesmos precisamos conhecer,
E a mais íntima verdade é como um míssil
Desabando sobre nós no amanhecer...

Primeiro mestre, meu bom pai, assim dizia,
Me retirando os véus da consciência,
Mal preservando-me a inocência,
Ao repassar-me quase tudo do que lia.

Só muito erro, nas ideias e na ação,
Acarretando-nos culpas e desgostos
Mereceria a total revelação ?

Mas a tal íntima explosão, ao pensar nela
Não encontrava em mim seus pressupostos,
Meu coração abria-me a janela...
.
19/01/2022

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Teogonia (de Alma Welt)

Penso em Deus em tudo que admiro
Quê digo? Em qualquer coisa mesmo!
E com isso ao Infinito me refiro
Quando vejo o pó no ar dançando a esmo.

Eis a alma: Psiqué!- dizia o grego,
Quando à contraluz via essa dança,
Pois de um fio de pó no ar (ó desapego)
Se retorna não sabemos, ou se avança.

Não há chegada, e logo, nem adeuses...
E por isso, essa intuição do arquétipo
Antes mesmo da criação dos deuses.

Alma sou, e se me olhas com ar cético,
E se sou mais que criação talvez duvides,
Vê: comigo em ti o ar e a luz divides....
.
11/01/2022

Nota
* Teogonia - O nascimento dos deuses a partir de arquétipos (princípios primordiais: sem começo nem fim). A Alma Welt aqui se revela uma órfica, adepta das teogonias gregas, na verdade uma "órfico- pitagórica", como aliás, no fundo (e tardiamente) o próprio Platão (vide o seu Mito de Er, com a descrição do Fuso de Ananque, no diálogo A República).

domingo, 9 de janeiro de 2022

                      O Coração da Árvore da Vida - o/s/t de Guilherme de Faria, 1998-2022, 40x40cm


O Coração da Árvore da Vida (de Alma Welt)

Aproximei-me da Árvore da Vida,
E vi seu rubro coração numa ramada
Que palpitava leve, emocionada,
Ou era a brisa que a punha assim mexida.

Esse sono imortal da Natureza
Há muito descobri, sintonizei-o;
Ele sonha com Deus em sua beleza
Mas guarda pesadelos no seu seio...

Mesmo inocente então pedi perdão
Pela humanidade ainda em mim
Que furtara o antigo fruto da Razão.

Então a Árvore, solene, perdoou-me
Já que seu silêncio assim soou-me,
Num respiro indiferente até o fim...
.
09/01/2022

Ao Real Absoluto (de Alma Welt)

Nada escrevo que não seja o eu profundo,
Nem mesmo o que é gracejo ou disparate,
Simplesmente porque almejo ser um Vate,
A coisa que me importa neste mundo...

Não me verão portanto desatenta
Ou mesmo em perdidos devaneios
Pois o senso do real me orienta
Os passos até mesmo em meus passeios.

Por quê? Porque não fico a ouvir estrelas
Mas com olhos deslumbrados eu as miro
Simplesmente porque são e posso vê-las.

E se escrevo como falo (ou quase isso)
É porque tenho o joelho submisso
Ao real absoluto que admiro...
.
08/01/2022

sábado, 8 de janeiro de 2022

Razão de Ser (de Alma Welt)

"Fazer sonetos, Alma, é extravagância!
O soneto vem do tempo de Petrarca,
De Dante e de tempos de elegância
De cortesões, de tesouros numa arca..."

Suspiro, faço pausa, então respondo:
"O soneto é meu hálito e alento.
Não me verão sentada e então compondo,
O soneto é meu ar, colho no vento."

"Meu próprio ser, território e habitat,
Em outras palavras, sou assim,
Minha fala desde meu tat bi tat..." *

E se não pode me entender a maioria,
Que pena... mas não fica mal pra mim,
O Bardo inglês bem sei que me amaria... *
.
08/01/2022
Notas
* ... tat bi tat - expressão em desuso, referente ao "gu gu da da", das crianças pequenas...
"O Bardo inglês... - Alma se refere ao Shakespeare, claro, um dos maiores sonetistas de todos os tempos...

Prestação de contas (de Alma Welt)

Empenhei-me na busca da beleza
Cujo rosto já não era conhecido,
Num tempo em que isso era proeza
Ou deixava o povo enraivecido...

Esgotei meus argumentos pela vida
Para uma legião de deprimidos;
Empurrei a minha pedra na subida
Só para não juntar-me aos decaídos...

Se fui de mim mesma a pobre Sísifo,
E da turba vulgar ouvi apupos,
Pois de mais de um ouvi um "si fo",

Não lamento, não me ouvirão queixar-me:
Não fiz parte de seitas nem de grupos,
Na solidão fui tão rica que quis dar-me...
.
08/01/2022



quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Alma ao Vento (de Alma Welt)



Alma ao Vento (de Alma Welt)
                                         Alma ao Vento- o/s/t de Guilherme de Faria, 2022, 40x40cm

Alma ao Vento (de Alma Welt)

Caminhar contra o vento eu adorava,
Confrontando com ele as minhas forças
Com a longa saia branca que eu usava
Um símbolo ancestral de antigas corças.

"És romântica", me dizem outras mulheres
Quando tentam levar-me ao descrédito.
"Não vês que assim a nossa luta feres,
Já que usas saias longas como um édito?"

Mas eu prefiro tais modismos olvidar,
Ou melhor, ostento a moda antiga
Como o vento não se extingue se passar.

Eis porquê me verão vagando a esmo,
As vezes com a saia em pleno ar
Como se aérea e fluida fosse mesmo...
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06/01/2022

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Pigmalion e sua Alma (de Alma Welt)

                                     Nua (Alma Welt) - o/s/t de Guilherme de Faria, 2022, 50x70cm


Pigmalion e sua Alma (de Alma Welt)

Viver só pelo soneto ou através...
Assim me condenou meu criador.
Em vão protestei, mostrei minha dor;
Chorei, caindo de joelhos aos seus pés.

Mas o pintor e poeta, com brandura,
Em pensamento tomou-me pela mão,
E erguendo-me provou-me a sinecura
Com que dotara a minha condição:

"De que te queixas, Alma, dei-te o Pampa
Que eu mesmo não conheço, e um casarão!
Enquanto vivo na triste e feia Sampa..."

"Pinto-te em brancas vestes a vagar
E em glória como Vênus nua, em vão:
Mortal que sou, eu jamais posso te tocar..."
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05/ 01/2022

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

A Gargalhada (de Alma Welt)

Projetos não farei de extenso prazo,
Dizia eu ao espelho que me fita,
E ainda que chegada com atraso
Enxergo uma ruga que me irrita.

Alguns dizem que o espelho é mentiroso,
Lisonjeiro, falso amigo, enganador,
Que nos devolve só aquilo prazeroso
Aos nossos olhos da vaidade, sem pudor.

Mas me vejo em quase todas as idades
Menos na do riso branco e duradouro
Que anula nossas peculiaridades...

E com dificuldade me retrato
Na gargalhada eterna mas sem ouro,
Perdido para sempre o fino trato...
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04/01/2022

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Minhas Festas (de Alma Welt)

Onde quer que eu estivesse neste mundo,
Eu precisava estar em casa para as Festas;
Retornar estando em trilhas de florestas
Ou no meio do oceano tão profundo...

Estando diante de monumentais carvalhos
Ou de ciprestes milenares do Oriente,
Eu retornar necessitava, urgente,
Aos coruscantes plainos meus de orvalhos...

No querido casarão velho, festivo,
Importado de tão longe um pinheirinho,
Enfeitado mas singelo e instintivo...

O presépio, esse sim, era encantado
E eu quisera estar lá, como um vizinho,
Que viera por um ovo e... deslumbrado!
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03/01/2022