segunda-feira, 1 de novembro de 2021

O Sono da Alma (de Alma Welt)


                                   O Sono da Alma Welt -o/s/t de Guilherme de Faria, 2021, 30x40cm
 
O Sono da Alma (de Alma Welt)

Sonhei-me um sono em berço conturbado
Em um bote pequeno e à deriva,
Pelas vagas ferozes embalado
Sobre rochas, em dormência permissiva.

Que sono calmo, que sonhos de delícias,
Em meio ao fragor dos elementos
Que me eram assim como carícias
Nesse mais puro, talvez, dos meus momentos.

Mas desperta não me contem de procelas,
Das tais vagas espumantes de maldade,
Que esqueci de içar as minhas velas...

Assim é a inocência neste mundo:
Nada pode abala-la na verdade,
Já que é sono náufrago e profundo...


01/11/2021

sábado, 28 de agosto de 2021

                          Nua no Ateliê (Alma Welt) -o/s/t de Guilherme de Faria, 2021, 150x150cm




Nua no Ateliê (de Alma Welt)

Meu bom pintor me dispôs nua num divã
Sob, imensa ao cavalete, uma pintura
Que ostentando pré-pintura bela e vã,
Prometia condensar minha figura.

"Desse caos brotará a tua beleza",
Ele disse como um deus ou simples mago.
Plasmar tua visão que em mim já trago
Será fácil para mim, será moleza.

Mas debaixo do telão, acachapada,
E digamos, um pouco amedrontada...
Me vi desconfiada, suspeitosa.

"Coisas de ateliê", hoje sei disso,
Pois logo sucumbi ante o feitiço
De minha nudez pintada e gloriosa.

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28/08/2021

sexta-feira, 27 de agosto de 2021


               Nu ( Alma Welt) e a Floreira de Vidro -o/s/t de Guilherme de Faria, 2021, 100x150cm

O Nu e a floreira (de Alma Welt)

Numa sala de meu pai floreira havia
De vidro, copiosa cornucópia
Que cobria a indiscreta nudez fria
Que da minha própria era uma cópia.

Era um quadro pendurado na parede
Que escandalizava a pobre Mutti
Que percebia no nu o sonho e a sede
De uma Venus sem a concha, mar e "putti".*

Pois que era eu minha mãe sabia bem
Que meu pai pintara com talento
E que eu posara assim, sem nada além...

Que  assim 
jazia largada e sem flor
Qual Ofélia sem lago e sem tormento,
E real ruiva oferecendo a mesma cor...

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27/08/2021

Notas
* putti - (ital. plural de "putto"), é como a partir da Renascença, os italianos designam aqueles "anjinhos" ou cupidos crianças que apareciam nas telas que representavam Vênus, ou mesmo madonas.
 
*"E real ruiva oferecendo a mesma cor"- Para quem não entendeu este verso: as ruivas verdadeiras possuem os pelos púbicos da mesma cor dos cabelos...

sábado, 22 de maio de 2021

Maternidades (de Alma Welt)


                                         Maternidade- o/s/t de Guilherme de Faria, 1991-2021, 80x63,05cm 

Maternidades (de Alma Welt)

Numa bela tela do pintor me vejo
Amamentando o filho que não tive,
E perdoo a ele a dor que não contive,
Ao perceber-lhe a sugestão e o ensejo. 

Não, não fui mãe, faltou-me a completude
Que tentei suprir com meus sonetos
E textos que são filhos que pude
E que, pela falsa rima, não dão netos.

Resta-me então o soberano orgulho
Da artista prolífica e fecunda
A semear a solidão, tão mais profunda.

E a tantas como eu, consolo ou não,
Um empurrãozinho pro mergulho
Nas ricas águas do próprio coração...
.
22/05/2021

sexta-feira, 12 de março de 2021

A Barca na Praia (de Alma Welt)

                               A barca na areia - o/s/t de Guilherme de Faria, 2021

A Barca na Praia (de Alma Welt)


Encalhada na areia me fascina
A barca decadente abandonada
(eu mesma ao fim de minha jornada)
Silenciosa aceitando a triste sina...

Como, Alma, te conformas facilmente?
Tu brilhaste nos salões, quando os havia
Ou existiam ainda em tua mente
Cujo brilho a alguns esclarecia...

Báh! Volúpia do fracasso, orgulho mór,
Muito pouco compreensível, reconheço,
Aos que preferem dos barcos o começo:

Lançadas n'água as proas atrevidas
Com suas rotas duvidosas pois de cór,
No oceano pessoal de nossas vidas...
.
12/03/2021

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Coração Nativo (de Alma Welt)

Minha alma abrange o pampa e o sertão,
Como por certo algum campo gelado.
Tudo o que é rude e desolado,
Me atrai por bom contraste o coração...

Bah! Nostalgia de tempos e memórias
Em que presentes sinto os ancestrais
Ainda que em florestas hiperbóreas
Combatendo as legiões imperiais... *

Minha alma é antiga até a tampa
(meu avô qual Siegfried entrou em cena) *
E pareço deslocada neste pampa...

Mas na voz de um bom soprano de salão
Ao ouvir do nosso Villa a "Cantilena",
Sinto nativo o saudoso coração...
.
04/02/2021

Notas

*Ainda que em florestas hiperbóreas
Combatendo as legiões imperiais... -
Alma se refere aos "bárbaros" germânicos combatendo nas florestas geladas da antiga Germânia, as legiões do Império Romano dos césares...

*Siegfried -é um herói germânico emblemático, cuja saga foi celebrada numa grande ópera de Wagner.

"...do nosso Vila a "Cantilena" - Alma se refere à maravilhosa e nostálgica "Cantilena" da Bachiana nº 5 de Heitor Vila-Lobos, que todas as grandes sopranos mundiais fizeram questão de cantar depois de consagrada pela nossa grande Bidú Sayão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Un souvenir d'enfance (de Alma Welt)

Ainda guria comecei a poetar,
Com versos formei minha consciência.
A poesia é uma forma de pensar
E por isso não quer condescendência.

Não gostava que minha mãe me instasse
A declamar seus maus versos pras visitas,
E o fazia de tal modo e com vistas
A que a pobre plateia se chocasse.

Fui acusada de infantil provocação
"Épater les bourgeois", dizem os francos...
Mais tarde conheci essa expressão.

Mas, pobre de mim, me debatendo
Acuada, e agredida pelos flancos,
Defendi a inocência, mas perdendo....
.
03/02/2021

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O Náufrago (de Alma Welt)

                                            Naufrágio - o/s/t de Guilherme de Faria, 2021, 50x40cm


O Náufrago (de Alma Welt)

Eu que vivo tão distante de algum mar,
Com naufrágios tenho sonhos amiúde,
E suponho que eles querem evocar
Apenas tudo aquilo que eu não pude.

Desilusões e fracassos, essas tralhas
A que preciso dar um tom menos banal
E do desastre transformá-las em batalhas
Belas, perdidas, mas honrosas afinal...

Eterno náufrago, assim é o poeta
Na ilha de si mesmo um Crusoé
Refazendo o mundo, nada asceta,

Através de engenhosas gambiarras
Recriando seus requintes mesmo, até,
E desatando, por fim, suas amarras...
.
02/02/2021

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

"A classe operária vai ao paraíso" * ( de Alma Welt)

Não têm solução, meu pai dizia,
Ou por si bem se resolvem, na verdade,
A respeito dos problemas que havia
E que eram de toda a humanidade...

A pobreza é o maior, e invencível.
Jesus mesmo nem tentou erradicá-la
E jogou a solução pra outro nível
E deu a Cesar, que já ocupava a sala.

Classe obreira, sei que vais ao paraíso
Mas sabes que não é desta gestão,
Por enquanto é só pôr no gato um guizo... *

Denomines o Mal quanto o quiseres,
Se isto ao menos ao teu ódio dá vazão,
Mas deste mundo mesmo pouco esperes...
.
01/02/2021
Notas
*"A classe operária vai ao paraíso" - título do filme de 1971 do diretor italiano Elio Petri, protagonizado pelo grande ator Gian Maria Volonté, sobre uma greve operária. Tema análogo ao da peça brasileira "Eles não usam black-tie", de Gianfrancesco Guarnieri.
*Por enquanto é só pôr no gato um guiso - Alusão à famosa fábula de Esopo "A Assembleia dos ratos".

domingo, 31 de janeiro de 2021

Velhos deuses (de Alma Welt)

Sonho, às vezes, cultuar os velhos deuses,
Aqueles todos, de que Zeus era o maior
Da turma toda cujos nomes sei de cór,
E os mistérios órficos de Elêusis...

Por quê, Alma, tal afronta... Apostasia?
Logo tu que parecias tão temente
A Deus, embora um tanto inconsequente
Ao questioná-lO para efeito de Poesia...

Mas Deus, que os aturou por tantos séculos
Por conta da beleza que engendravam,
Uns deuses Dele mesmo só espéculos,

Sabe bem que na verdade eu sempre soube
Que era ELE que os gregos veneravam,
Com terrores que a ELE sempre coube...
.
31/01/2021

sábado, 30 de janeiro de 2021

O Sonho da Natureza (de Alma Welt)

Era guria e perguntei onde está Deus
Ao meu pai que ficou sério num instante.
Parecia meditar, meio distante,
Mesmo enquanto olhava fundo os olhos meus.

Então puxou-me pela mão me conduzindo
Para fora para andarmos na coxilha
Descortinando toda aquela maravilha
Enquanto o Sol moroso ia caindo...

E não sei se pela hora ou coincidência,
Ou então pela nobreza do momento
Fez-se um silencio doce e sonolento,

Pois seu dedo no meu lábio fez represa:
"Sssscccchhhhh... Respeite a santa sonolência,
Enquanto sonha com Deus a Natureza..."
.
30/01/2021

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Paganini (de Alma Welt)

Todos querem a beleza de algum modo,
Cobiçá-la é diferente de cuidá-la
Mas, se a roseira, cuidadosa podo
É pra participar, e não calá-la.

Mas criar beleza, assim, do nada,
Ainda que isso seja duvidoso,
Só se for por Deus encomendada
Do contrário estás de parte c’o Tinhoso.

Paganini disso mesmo se jactava
(ou deixava que a plateia assim pensasse)
E disso prestar contas não contava...

Pois no seu leito de morte, não ao Demo,
Ao bom Deus só implorou facilitasse
Seu derradeiro arpejo belo e extremo...
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29/01/2021

As Antenas do Poeta ( de Alma Welt)

Dei-me conta das antenas do poeta
Celebradas num poema conhecido
E em mim, porque fácil me tem sido
O soneto, minha forma predileta.

Mas não pensem que o fácil é um inimigo.
De um mestre zen, me lembro, ouvi
Que o arqueiro “pensa aqui” (no seu umbigo)
A flecha parte e a ave cai em si...

Como a flecha certeira de um arqueiro
Conduzida por um gesto corriqueiro,
Assim também o poema alça voo

E revela a alma plena do conjunto:
O poeta, o poema e algo novo
Que se cria sem que se saiba muito...
.
29/01/2021

Amor e Arte (de Alma Welt)

Vê: são a mesma coisa Arte e Amor,
E não serão, pois, jamais coisas à parte.
Então ama, estás em arte, és um autor
De uma obra impossível de descarte.

O teu amor pintará o teu desvelo
Independente do modelo à tua frente,
E por isso não descartes concorrente
Que bem pode arrebatar o teu modelo.

Sei que podes sofrer, o artista sofre,
Mas lembra-te: o importante era o amor...
Ou preferias guardá-lo no teu cofre?

Quando a tela é pequenina e muito cara *
Assim o faz um rico e tolo comprador,
Ocultando o que já era coisa rara...
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29/01/2021
Nota
*Quando a tela é pequenina e muito cara -
No final do século XIX e começo do século XX , muitos ricos colecionadores encomendavam telas bem pequenas (em geral pintadas em madeira nobre maciça, como as tampas de caixas de charuto) para os grandes mestres pintores valorizados do momento e de quem esperavam valorização maior como ações da Bolsa. As pequenas dimensões eram para poder guardá-las no cofre (!!!).

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O Grande Pé de Cachimbo (de Alma Welt)

Domingo longo vivemos, inclemente, *
O touro é forte e já bateu na gente
Que caiu no buraco e este é fundo,
Alguns dizem que já acabou o mundo...*

Só plantar "pé de cachimbo" me restou
Aqui na estância em honra de me pai
Que bem prudente e sábio me avisou,
Dizendo apenas: "Filha, assim não vai."

Mas eu não quis ouvir, deu no que deu,
E todo aquele meu esforço não valeu
Pois ao auto-engano eu dera margem...

Plantara versos no solo do deserto,
Corri para o meu lago, cheguei perto,
Tudo se desvaneceu... era miragem...
.
28/01/2021

Notas
*Domingo longo vivemos, inclemente/
Alguns dizem que já acabou o mundo - 
Alma parece estar se referindo à longa quarentena e à pandemia que está assolando o mundo.

*Pé de Cachimbo -
Os leitores da minha geração certamente lembram dos versinhos de nossa infância:
"Hoje é domingo
pede cachimbo
o cachimbo é de barro
bate no jarro
o jarro é de ouro
bate no touro
o touro é valente
bate na gente
a gente é fraco
cai no buraco
o buraco é fundo
acabou-se o mundo."

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

A Beleza, a Verdade (de Alma Welt)

A Verdade é a Beleza e vice-versa,
Disse o poeta inglês John Keats *
Sobre o que o saber humano versa,
E quanto à beleza estamos quites...

Sim, pois dediquei minha vida toda
À beleza da poesia, por paixão,
E com ela celebrei a minha boda
Prometendo ser fiel até o caixão.

Não tive pois que procurar outro critério
Mas flertando com o real a cada verso *
Estou longe de estar em adultério...

Bah! Sei que alguns me julgam alienada
Pois que vivendo num mundo tão perverso,
Saciada de Beleza, não fiz nada...
.
27/01/2021

Notas

*O grande poeta romântico inglês John Keats (1795-1821 ), nos dois últimos versos de sua célebre "Ode a uma Urna Grega" escreveu os celebrados versos: "A Beleza é a Verdade, a Verdade a Beleza / Isto é tudo o que há para saber."
*Pois flertando com o real a cada verso - Alma aqui alude ao famoso axioma de Novalis: "A Poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético mais verdadeiro."

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

As mãos da avó Frida (de Alma Welt)

Minha avó Frida cultivava seu jardim
Pois que já tinha a própria vida em ordem.
Mas sabemos que a ordem não é assim
Se os remorsos, não raros, nos remordem.

Mas a velha que vivera guerras, duas,
Tinha o peso e a leveza do momento,
Manuseando as rosas de mãos nuas,
Pois de tudo tirara ensinamento...

E eu olhava suas hábeis mãos calosas
(que a mim pareciam um pouco garras)
A lutar com o humor de suas rosas.

E se algo um destino humano sela,
Essas mãos desataram minhas amarras
Para me soltar no mundo longe dela...
.
26/01/2021

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

O Perfume do Logos (de Alma Welt)

Por uns instantes voltar a ser guria
E regressar ao meu mundo encantado,
O que parece um tanto inusitado
É da alçada simples da Poesia.

Vou e volto quando quero, até o Natal...
E não confundam com "imaginação";
Novalis disse: "o autêntico real
Absoluto é a Poesia"... o resto não.

Meu mundo, que exponho a cada dia,
Só tem realidade e a valia
Por manter a natureza que o gerou

Que é a mesma do Logos Criador,
Que Deus lançou no ar, nos respingou,
E do perfume ainda resta algum vapor...
.
25/01/2021

O real (de Alma Welt)

"No mundo real mora a Poesia,
A fantasia não é senão floreios;
Criar mundos irreais e utopias
É querer destruição por outros meios." 

Assim dizia meu pai filosofando
No meio de seus livros no escritório,
Sabendo-me poeta, me alertando
Contra todo inútil palavrório...

E eu que aprendi na sua cartilha,
Devo a ele meu senso do real
Que revela do mundo a maravilha...

E se aqui de um paradoxo lanço mão
Não é só contradição, não leve a mal:
Encantar é realizar o coração...
.
25/01/2021

domingo, 24 de janeiro de 2021

A Torre ( de Alma Welt)

Esta minha alta torre do soneto
Em que sempre caberá mais um tijolo,
É uma torre de ouro, que prometo
Que nunca terá sido "ouro de tolo"...

Nenhum poeta jamais se arrependeu
De uma torre que também assim ergueu.
Nem Bocage, que os pecados d'uma vida
Redimiu em nova torre reerguida...

Quanto a mim, a construí de coração
Pela mesma razão da de Babel,
Que no fundo era de culto e devoção...

Mas se a torre é só miragem no deserto,
Senhor, não nos deixastes chegar perto,
E só queríamos chegar ao Vosso céu...

.
24/01/2021

sábado, 23 de janeiro de 2021

Olhai (de Alma Welt)

De correr pelas campinas fui guria
Mas não de pés descalços, farroupilha,
Mas com meu sapatinho que luzia
Muito preto, de verniz, só pr'uma milha.

Do casarão fui a prenda, a patroínha
C'o respeito dos peões ante meus cachos,
Que tiravam seus chapéus de barbicachos,
Fosse eu uma princesa, uma rainha... 

Ora, Alma, isso foi, não tens mais nada!
Sonhos tua mente ainda permeiam,
Esse teu conto é só conto de fada...

Mas olhai! Ainda corro como os rios,
Os campos do Senhor ainda têm lírios,
E as aves do céu não os semeiam...
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23/01/2021

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Mais sobre a poesia (de Alma Welt)

A poesia tem sua cota de nonsense
E até quem veja nisso sua razão.
Rever, julgar, ditar, não lhe pertence,
Não esperem da poesia explicação,

Pelo menos no que é a sua essência
Que a faz independente dos conceitos
Que porventura emita, e tão aceitos
Que iludam quanto à sua permanência.

Mas ah! Ser só canção, se for possível,
E ter o puro tom de ingenuidade
Que atrai a poesia pro seu nível...

E no entanto essa é a mais difícil meta,
Qual viver como se nada for maldade
E só pudermos fazer a coisa certa...
.
22/01/2021

A Hiperbórea (de Alma Welt)

Quanto aperta a solidão da minha poesia,
Eu cubro a cabeça com a coberta,
Um recurso que parece a coisa certa,
Mas o qual, em criança eu não fazia...

Então logo conclamo as minhas forças
Pra cumprir este meu estranho ofício
De escolher as palavras como corças
À beira de um gelado precipício...

Por isso amo o orvalho na coxilha
Com a promessa de gelo que contém
Mesmo quando se desfaz na minha trilha.

Pois ainda que às vezes se rebele,
Hiperbórea minha alma se mantém
E ainda as neves cobrem minha pele...
.
22/01/2021

Ainda sobre a Poesia (de Alma Welt)

Nada pode abalar a minha crença
No sentido puro e pleno da Poesia.
Ela é bem mais que versos, de nascença,
É um timbre, uma cor, uma energia...

Ora, Alma- direis- não vem com essa.
Isso é papo de hippie ou "natureba".
Energia, sim, mas só quando se meça,
E se constate em números numa ameba. 

Assim reagem meus irônicos amigos,
Aumentando a opressiva solidão
Que é o grande legado dos mendigos...

Mas não os ouço, minha língua é diferente,
E a Poesia nunca estende sua mão
A mendigar a caridade de outra mente...
.
22/01/2021

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

O Espelho ( de Alma Welt)

Como todas, preciso olhar no espelho,
Só que o faço relendo os meus poemas;
Quanto a isto estou sempre no vermelho,
Mas devendo algo a mim, e apenas...

Pois só me reconstruo verso a verso
Com tijolos de uma íntima Babel,
Que somente no pó não os disperso
Uma vez que os preservara no papel...

E olhando meu perfil assim gravado
Percebo uma imagem tão complexa
Que, por simples, algo foi prejudicado...

Da pele viva, a beleza como tal,
Que, tola, eu tomava como pecha,
Me faz saudosa do espelho de cristal...
.
20/01/2021



terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Tremeluzente (de Alma Welt)

Eis-me a pensar o mundo aqui e agora.
Quê mais podeis querer desta donzela?
Às vezes penso só em ir-me embora
Levando acesa, comigo, minha vela...

Ora, Alma- direis- és pretenciosa!
Quanto pode até um candelabro?
Nem mesmo os de Pessoa, aqueles, "glabros", *
Acompanham a fama que ele goza...

Sei que um poeta só não faz verão,
E não pode clarear tempos de trevas.
É necessário enorme batalhão...

Mas faísca ou pavio tremeluzente,
Se contigo a escuridão não levas,
Um passo te permite, e só pra frente...
.
19/01/2021

Nota
*Nem mesmo os de Pessoa, aqueles, "glabros"- 
No Poema A Hora Absurda, de Fernando Pessoa tem um curioso verso:
"A doida partiu todos os candelabros glabros"... 
"Glabros" significa "sem pelos", um toque surrealista criado pela tentação da rima rara, e copiado (como menção) pelo nosso grande Jorge de Lima.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Anti-provérbios (de Alma Welt)

Se vale mesmo mais um pássaro na mão,
Mal acompanhado é andar sozinho.
Se criam monstros os tais sonhos da razão, *
Nossa jornada é puro descaminho...

Sempre andei só em pradarias infinitas
Olhando as aves a voar soltas no céu; *
Lírios do campo não têm sequer um véu *
Nem precisam de vestes nem de fitas...

Mas meus sonhos da razão são devaneios
E volto sempre a mim logo em seguida
E por certo busco o bem por outros meios...

Se preciso de conselho vou às rosas, *
Flor tão sábia que se cala se arguida,
Mas seu perfume tem fontes mais honrosas...*
.
18/01/2021

Notas
* criam monstros os tais sonhos da razão- Alusão à famosa legenda de uma gravura da série Caprichos de Goya : "El sueño de la razón produces monstruos".
*Olhando as aves a voar soltas no céu;
Lírios do campo não têm sequer um véu - alusão às palavras de Jesus (em Mateus 6:25-34) : Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
Olhai as aves do céu, elas não semeiam nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.
* Se preciso de conselho vou às rosas,
Flor tão sábia que se cala se arguida,
Mas seu perfume tem fontes mais honrosas... -
alusão aos famosos versos do samba As rosas não falam, do grande sambista Cartola:
"Queixo-me às rosas / mas que bobagem/ as rosas não falam/ simplesmente as rosas exalam/ o perfume que roubam de ti...
.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Confissões (de Alma Welt)

Àqueles que me cobram amor somente,
Como sendo do soneto a vocação,
Respondo que Amor é a semente
De mais estranha e variada floração.

Amor, reparem, está em quase tudo,
No vitalismo e no culto da amizade,
Tópicos que abordo à saciedade,
Que em prosa é preferível deixar mudo.

"E por quê calar na prosa temas tais?"
Insistem (e da razão tendo uma réstia),
Respondo: a prosa me é pessoal demais... 

O soneto é voz comum, universal,
E se passo por ser tão confessional
É para o efeito reverso da modéstia...
.
16/01/2021

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A jornada na neblina (de Alma Welt)

A nossa é uma jornada na floresta,
A visão curta, sem sintonia fina.
Muito mais enxergamos pela fresta
Do que caminhando na neblina...

O futuro é um permanente nascituro,
O tomamos como se fosse presente,
Com os sorrisos de pós-parturiente
Que jamais no pós-parto avista o muro.

"O futuro a Deus pertence", diz o vulgo,
Mas se já foi criado ninguém sabe.
Deus disse: "Eu sei e não divulgo";

"Deixo às cartas da cigana e ao poeta
Especularem o arbítrio que a Mim cabe,
Deixei livre Minha parcela predileta..."
.
15/01/2021

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

A Revolta do Heterônimo (de Alma Welt)

Quisera ser somente uma gravura,
Ou esboço, um desenho, uma pintura.
E não me desses uma voz, biografia,
E o dom belo e doloroso da poesia.

Mas, hábil, tu, velho pintor, meu criador,
Tinhas por certo que abusar do teu poder
Dando-me vida com felicidade e dor
E ao meu próprio ajuntando o teu saber...

Bem sei que pagarás tanta heresia
Pelo poder de vida que usurpaste
Com o pretexto da heteronomia.

Alienando sutilmente o teu talento,
Vais pagar perante Deus o que causaste
Sem pensar quanto da Arte é sofrimento...
.
14/01/2021

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

A princesa das marés (de Alma Welt)

Como tantos heróis venero a vida
E a amo também como os covardes.
O crepúsculo me põe entristecida,
Mas tenho o gosto do cair das tardes...

Melancolia, ó mãe do meu fracasso!
Como te amo também, a meu despeito,
Sim, de outras ânsias do meu peito,
De sucesso cujos planos também traço...

Bipolar, eu sei, me tachas, me carimbas
E desejas que eu dance tua salsa
Enquanto sacodes tuas marimbas...

Bah! Permita-me cair com meu poente,
Sou romântica tardia, decadente,
Como às marés a lua é que me alça...
.
13/01/2021

A corda e a caçamba (de Alma Welt)

Gosto pouco de sonhar adormecida,
Prefiro a boa cisma e o devaneio
Que pertencem a este plano e esta vida,
Neles posso escolher o tom e o meio.

Se me perguntas por que temo meus sonhos,
Se minha inconsciência anda pesada,
Se são sobras dos meus planos bisonhos,
Se minhas altas metas deram em nada,

Se subi numa boleia confiante
E sem rédeas dei com os burros n'água,
Ou se andei na cristaleira de elefante...

Eu te direi que me conheces pra caramba,
Entretanto afirmarei: não guardo mágoa,
Ainda tenho a corda e a caçamba...
.
13/01/2021

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Como a hera (de Alma Welt)

Uma longa vida de experiência,
É tudo que peço ao Bom Senhor.
E que Ele me poupe da demência
Quando o momento da Boa Morte for...

Ora, Alma, por quê logo não dizes
Que tens pavor da Morte, como todos?
Tua fé é como o voo das perdizes,
Mais alto voes para escapar dos lodos...

Mas se à vida me agarro como a hera
Pelas paredes deste velho casarão,
Faria o mesmo se fosse uma tapera. 

Sim, tenho imenso apego a este plano,
Amo demais, Senhor, a vossa Criação,
E por ela peço sempre mais um ano...
.
11/01/2021

domingo, 10 de janeiro de 2021

As Matrizes de Pedra (de Alma Welt)

Com a memória o dobro a vida dura.
Paralelas, se espelham ao infinito.
Já não sei qual é pedra e qual é lito
A matriz se confunde com a gravura...

Pergunto ao meu amigo gravador
Como pode a matriz ele apagar
(já que a imagem tem duplo teor)
Sem que se esvaneça em pleno ar?

Mas ele disse só: "Alma és poeta
E bem sabes: no que tange à impressão
Nosso meio se confunde com a meta.

Também em ti a impressão divulgas
De algumas pedras da matriz do coração,
Que viram versos mais densos do que julgas..."
.
10/01/2021

sábado, 9 de janeiro de 2021

A memória tecelã ( de Alma Welt)

Conquanto eu ainda seja jovem
As memórias de infância me povoam,
E certos lances voltam e me comovem
Pois que somente as novas horas voam...

E repasso, revivo as brincadeiras
E algumas aventuras de coragem
Que hoje minha prudência nem dá margem,
Mais medrosa (só palavras verdadeiras)...

A criança que já fui é um outro ser.
Assim somos todos, me parece...
Perdão, não costumo me exceder.

Generalizações... é um mau costume,
Uma rainha deixa seus pontos que tece,
Mas destece se com outros se reúne...
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09/01/2021

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O primeiro casarão (de Alma Welt)

Congelado no tempo, em pleno ar
Assim o vejo e ainda o purgo,
De meu primeiro tempo de sonhar,
O velho casarão de Novo Hamburgo...

Não aquele, depois, dos oito em diante
De mim guria nas estância dos avós
De que já contei, creio, bastante,
Mas do barro de origem, de outros pós.

Ali na casa que ocupava o quarteirão
Vivi o ingênuo amor por meu irmão,
O pequeno aventureiro de quintal,

Mas sem ter a desculpa de mais tarde,
Ao saber outra sua estirpe original...
E que Deus seja louvado e nos aguarde.
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07/01/2021
Nota
A paixão da Alma, a vida inteira por seu irmão Rodo, bela e dramaticamente contada em crônicas, no seu romance a Herança, e nos espantosos sonetos de pocker do blog "Sonetos do Rodo", e que ela mesma pensava de ser de caráter incestuoso (o que a fazia sofrer) foi absolvida de culpa, quando soube que Rodo era filho de ex-namorada com outro homem, mas assumido e criado junto com ela e as irmãs, por seu pai que escondeu esse segredo de sua família. A personalidade aventureira, destemida, de Rodo, que se tornou um jogador profissional de pocker, correndo em carros esporte pelo mundo e assumindo desabridamente grandes riscos, fascinava a poetisa, mais introspectiva e sonhadora...
Do período do casarão de Novo Hamburgo recomendo o belíssimo conto " "Nosso muro proibido", do blog "A Prosa de Alma Welt"
.

Tempos difíceis (de Alma Welt)

Difíceis estão os tempos, todos acham...
Mas quando eles não foram na verdade?
Realidade e Mito não se encaixam,
Talvez por culpa da tal "modernidade".

Não podemos reclamar o Paraíso,
Utopias não passaram de miragens;
Ouvir vozes do além é pura esquizo
E em geral vêm recheadas de bobagens.

Que saudades dos deuses de um Olimpo,
Que se não nos passavam a vida a limpo
Nos deixavam ser como eles, delinquentes...

E o Hades, então? Uns fogos brandos
Comparados aos do Inferno, bem mais quentes
Para fritar pecadilhos e desmandos...
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06/01/2021

Hors d'oeuvre (de Alma Welt)

Individualidade prezo muito,
E em nome de todos nunca eu falo;
Meus sonhos todos foram pelo ralo,
Sobrou só algum menor, raro, fortuito. 

Entretanto lanço mão do universal
Que existe na linguagem da poesia
Que faz de qualquer um meu comensal
Num "hors d'oeuvre" que sirvo todo dia...

Não molotovs coquetéis de duras lavras,
Meu soneto é um regalo de palavras
Para quem saboreia o idioma..
.
Meu manjar é o que minha alma almeja,
Eu que me retirei da minha redoma,
Pra ser a todos servida de bandeja...
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06/01/2021

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

A passagem (de Alma Welt)

Na passagem de ano havia a festa
Inesquecível, na casa de meu pai,
Que de seu brilho agora pouco resta,
Algo se foi, morreu, e ainda se esvai.

Repeti-las, sem ele em vão tentamos,
Às nossas festas falta o estilo e a fatura.
Não se deve copiar o que amamos,
Quase sempre isso dá caricatura...

E quando ergui meu brinde de champanhe
Na despedida de um trem que ninguém vê,
Saudando o ano e convidando à nova vida,

Meu choro que se espera que o acompanhe,
Foi pelo erro cometido no guichê,
Que eu comprara passagem só de ida...
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05/01/2021

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Amor Galante (de Alma Welt)

Só por meio de palavras encantadas
Eu poderia então dizer o meu amor.
O coração trabalha por pancadas,
E esta tarefa requer certo pudor...

Se preciso, recorrer a antigos termos
Dos tempos idos do tal "amor galante",
De "senhor" e "senhora" a todo instante,
Dos passeios a passo em prados ermos.

Ora, Alma, és romântica tardia...
Ninguém tem tempo agora para tal.
Passe logo um whatsapp, sua vadia!

Assim são os tempos... bah! que pena!
Acordei num mundo estranho e digital,
Quando ia numa ponte sobre o Sena...
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04/01/2021

Meus fantasmas (de Alma Welt)

Por meus fantasmas tenho até carinho
Mesmo se me assombram nas caladas,
Como Anita Garibaldi nas baladas,
Noite adentro no meu leito em desalinho.

"És doida, és antiga, és delirante",
Diz uma amiga minha a todo instante,
Mórbida me achando, na verdade,
Tão distante da tal "modernidade"...

"Mas como? Tua Anita é "farroupilha" *,
Não aceitava sequer Pedro Segundo,
Não vês nisso um equívoco profundo?"

Bah! O engodo do "moderno" já saquei,
Amo Anita, mas do eterno enquanto filha,
Sob o "direito divino" de meu rei...
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03/01/2021

Romanesca (de Alma Welt)

 Jovem embora seja, amo o passado
Que me trouxe até aqui, eu sinto,
Com este ar romanesco renovado
Mas da velha castidade nem o cinto...


Sou libertária, livre, muito nua
Na alma e nos momentos indevidos;
E se amo tanto o sol, venero a lua,
E me dou demais aos meus queridos.


Por isso me expulsaram do meu pampa,
Pois das prendas* não perdoam nem os puns,
E quiseram me fazer descer a rampa...


E se fui à capital, depois ao mundo,
Voltei com este estro mais fecundo,
Abrindo a alma para escândalo de alguns...
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03/01/2021



Notas
*prendas - assim são chamadas as moças solteiras, no pampa gaúcho.
Para melhor entendimento deste soneto, recomendo aos novos admiradores da Alma Welt, que leiam o incrível capítulo do "Julgamento da Alma" no seu romance autobiográfico A Herança ( vide em e. book da Amazon, ou no blog Romances de Alma Welt )

sábado, 2 de janeiro de 2021

A volta ao Jardim (XXIII) (de Alma Welt)

Quero voltar ao jardim da minha avó,
Este ano é tudo o que mais quero,
Mas neste corpo e não em alma só,
Pra colher rosas do que não mais espero.

Foram-se os sonhos, restam as memórias...
Bah! verso banal... não acredito!
"Queres viver pra sempre?" como o dito
Do pistoleiro de filme em más histórias...

Sim, sim! Desejo só a eternidade,
Nem que seja para só repetição
Do mesmo gesto puro, sem maldade...

Eu com minha avó a colher flores,
Eu feliz (percebo agora que ela não)
Também ela a recordar velhos amores...
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02/01/2021

A Encomenda renovada (de Alma Welt)

A cada novo ano em mim confio
Para nova empreitada de encomenda,
Mas num mesmo renovado desafio:
Serei feliz mantendo a minha lenda?

A solidão que isso implica já me pesa.
É duro carregar minhas costelas
Com mais uma de herança, como Eva,
Sem Adão, que seria a fonte delas...

A poetisa em mim, é, sim, uma vestal
Oficiando os ritos puros da Poesia,
Conquanto às vezes lúbrica e fatal...

Bah! Tudo isso é mito, Alma, bem o sabes.
Teu dom é descobrir a alegoria
No comum e banal, antes que acabes.
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02/01/2021

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

O Misterioso Mundo (de Alma Welt)

Não fosse o nosso mundo misterioso,
Eu nem viver sequer nele quisera,
Suas névoas são prelúdio do meu gozo
Tanto quanto uma manhã de primavera.

Respostas não são o que me instiga,
Que estas menos sábias me parecem
Que as perguntas das crianças quando crescem
E seu ingênuo teor que nos intriga...

Mas não faço apologia da cegueira:
Antes o olhar do lince e da coruja
Do que o fuçar rasteiro da toupeira.

Mas como é belo o mundo sem desvelo,
Enquanto a fera ruge e o cervo fuja
Por amor ao seu próprio e frágil pelo...
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01/01/2021

Revelações (de Alma Welt)

A que comparo o soneto a que me entrego,
A uma lira ou à flauta de um pastor?
Talvez pastor, mas o cão guia de cego,
O soneto é que me leva aonde eu for.

Meu soneto faz perguntas que não tenho
E dá respostas ao que nunca procurei;
É mais sábio, mais curioso, e franze o cenho
Para aquilo que imagino que já sei...

Também por isso não começo o meu dia
Sem um verso que antes não havia,
Absurdo que pareça num relance...

É que a névoa da manhã se abre aos poucos,
E se o primeiro não for sensato lance,
Faço coro com os raros e os loucos...
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01/01/2021

A Grande Ilusão (de Alma Welt)

O mundo é aparência, ilusão mera,
Ainda estamos nos costados do Dragão?
O mundo será Gaia ou Besta Fera?
Qual a face verdadeira da ilusão?

Deus nos entregou à sua Serpente
Já que fomos estragados, corrompidos,
Ou o Senhor quis passar um fino pente
E somente havia dois, nem escolhidos?

Essas perguntas no inconsciente levas
Mas já foram respostas que nos demos
Quando cegos tateávamos nas trevas...

Mas agora inventamos novas lendas,
Novas sagas a supor de onde viemos,
Quando ainda nem tiramos nossas vendas...
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01/01/2021

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

A dubiedade da vida (de Alma Welt)

A vida é corriqueira- disse alguém.
Não! Não" É aventura! - outro afirmou.
E eu, no meio, tinha opinião também,
Que ficava entre os dois, com um "e/ou".

Tudo na vida é uma e outra coisa,
E para evitar um certo acúmulo
Escrevemos nos dois lados da lousa,
Que esta servirá ao mesmo túmulo.

"Era um bom homem", diz um lado.
"Aqui jaz um pecador empedernido",
Estava escrito também, mas apagado.

E num mundo regido pelo dúbio
Agora temos um defunto reunido
Consigo mesmo num mais feliz conúbio...
.
31/12/2020

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A bela Morte (de Alma Welt)

Se contra o teu Destino nada podes,
Faça-te ao menos desejável como poucos.
Diante do inevitável te acomodes,
Que os outros se comportem como loucos...

Morrer como os antigos cavaleiros
Declarando sua lealdade ao rei,
Ou talvez à sua dama dos salgueiros...
Como eram belas essas mortes que sonhei!

Morrer assim, em honra e em beleza,
Como queria o homem de armadura
Nesses tempos heroicos da  nobreza...

Que o poeta em ti também o queira,
Porque como Percival tens a alma pura
E o Graal procuraste a vida inteira...
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30/12/2020

Resposta ao Mensageiro (de Alma Welt)

Rumo ao silêncio, devagar, solene,
A caminhada é uma marcha de agonias.
Já vai longe a grande fé em utopias,
Sob o peso do Nada, o mundo geme... 

"Em vão acalentaste um paraíso,
Nos teus versos, canções, polifonias,
Restaurando-o, ingênua, nos teus dias
Como tela no instante do teu riso..."

O que resumes, Mensageiro, não sou eu...
Não me diz respeito... quero o Eterno!
A minha prole verdadeira é um Museu.

Reconstruí a vida em Arte, passo a passo,
Não sou ursa de mim, jamais hiberno,
Uma vida, pro artista, é tempo escasso...
.
30/12/2020

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

O Grande Jogo (de Alma Welt)

Entre lutar na vida e observar
Eu fiquei sempre no alto da colina,
A cavalo em mim, assim, de cima,
Generalíssima de mim por comandar...

Mas não foi preciso estardalhaço,
A batalha final por mim perdida
Só se passou no silencioso espaço
Onde a alma vive e luta a sua vida.

No cenário de guerra, o campo aberto,
Tabuleiro de xadrez transfigurado,
As peças traçam seu destino certo...

Ainda que meus lances sempre eu cante,
Nosso jogo se faz de trás p
ra diante,
Porquanto o cheque-mate já foi dado...
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27/12/2020

O Enigma (de Alma Welt)

Persisto em decifrar a minha vida,
Essa esfinge pessoal que em mim vislumbro
E que ameaça fazer de mim comida:
Alquimia de virar o ouro em chumbo...

O enigma que rege o meu destino,
Na verdade não é nada pessoal,
Pertence a todos o dobrar final do sino *
(continente ou uma ilha colossal?) *

Todavia posso só falar por mim
(o mistério do todo em cada um),
Eu que sempre achei mais verde o meu jardim..

Quê imensa solidão clica o Destino,
Enquadrando com a sua lente zum
O que em nós ainda é só o menino!...
.
28/12/2020

Nota
*Pertence a todos o dobrar final do sino *
(continente ou uma ilha colossal?) -
Nestes dois versos Alma faz alusão ao famoso poema de John Donne, poeta inglês elisabetano (século XVI) celebrado pelo verso "Nenhum homem é uma ilha" ( todos fazemos parte do Continente) e que termina com os célebres versos finais: "Por isso não pergunte por quem os signos dobram/ eles dobram por ti.

sábado, 26 de dezembro de 2020

O rastro luminoso (de Alma Welt)

O soneto me acompanha a vida inteira
Como sombra luminosa (se é possível),
Ou de uma barca a clara esteira,
Rastro da lua no plancto visível...

Sim, deixo a trilha de onde passo
Liberada para aqueles que rastreiam
Batedores, que atentos, me campeiam
Os vestígios luminosos do que caço...

Mas cá estou a falar de sutilezas,
Filigranas da psique ou só firulas
Inúteis ao meu palco de incertezas...

Porque caço ou pesco coisas que não sei,
E quando as tenho nas mãos, às vezes, fulas
Voltam às águas de onde as mal tirei...
.
26/12/2020

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Natal Gaúcho (de Alma Welt)

Tenho saudades do Natal da minha infância
No casarão paterno, na estância,
Com a chaleira assoviando no fogão
E a família reunida em chimarrão.

Lá fora os peões churrasqueando
E trazendo lascas gordas e pingando,
O tilintar de esporas no assoalho,
Que jamais afiveladas pro trabalho... *

Ataviados os gaúchos, de alto a baixo,
O chapéu de aba dobrada e barbicacho,
Punhal de prata na faixa das cinturas.

Sua bombacha de Natal, bordada,
E de bolas, boleadeiras muito duras,
Graças a mim, só pendentes, pra mais nada...*
24/12/2020

Nota
* * Alma Welt, protetora dos animais da estância, ainda guria "exigiu" que seu pai proibisse o tradicional uso gaúcho de esporas e boleadeiras...

Os Signos (de Alma Welt)

Interpretar a vida é bem possível,
Metáfora que ela é, mesma, de si.
Seu signos até são reconhecíveis
Como o da velha Morte... e esta ri.

Mas os símbolos da Vida, mais dispersos,
Raramente são risonhos ou amenos.
A criança que sorri desperta versos
Com menos frequência, muito menos... 

Mas os signos de luta e de potência,
Sobretudo o da antiga Rebelião,
Quando não os de cólera e demência,

Estes assombram mesmo a alma pura
Quais fantasmas que habitam o coração
E não o deixam descansar na noite escura...
.
24/12/2020

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Teoria da Conspiração (de Alma Welt)

Que surpresa será sempre outro soneto!
Piso na lua antes de meu sol se por,
Aventura, passo grande que cometo,
Se pequeno para a humanidade for...

Astronauta do papel ou do teclado,
Me aventuro no cosmos da poesia
Com meu velho escafandro remendado
Tantas vezes à beira da anoxía.

Lançar um verso a esmo, que ousadia!
Não sabes nunca de antemão onde vai dar,
E vão de ti em preto e branco duvidar...

Se escreves porventura uma besteira
Darás margem pr'aquele que avalia
Que essa tua lua é bem rasteira...
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23/12/2020

As rosas da aventura (de Alma Welt)

A aventura diária continua
A nossa vida inteira até o fim.
Se a velhice não nos pegar na rua,
Aventureiros, pois, sejamos de jardim.

Como assim? Tu perguntas intrigado...
E respondo que a Frida, minha avó
Que fez de suas roseiras seu legado
Floriu o mundo antes de voltar ao pó.

"Mas isso é pouco!" Insistes, queres mais.
E eu afirmo que uma alma desabrida
Reviverá as aventuras nos quintais...

Minha avó liderava os nossos passos
Com hábeis mãos, se talvez olhos escassos,
Nestas rosas que espelham nossa vida...
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23/12/2020

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A Caçadora (de Alma Welt)

Caçadora de poesia, me embrenhei
Nas florestas da vida verdadeira,
Aquelas que só existem na moleira,
Como dizia alguém que já nem sei.

Não que fique à espreita com meu arco,
Mas captando tudo ao meu redor
Pois a poesia não é um grande marco,
Ou a praia de coqueiros no outdoor ...

No dia a dia e no instante comezinho
Encontrei-a até na porta do vizinho
Ao sair para jogar o lixo fora...

A criança que doou-me o seu sorriso
Sentadinha na soleira, aqui e agora
Me deu um verso ao menos, sem aviso...
.
22/12/2020

Coragem e Prudência (de Alma Welt)

Um mundo de perigos me espreitava,
Assim dizia minha mãe sobre o meu berço,
Depois continuou contando o terço,
Pois com minha coragem não contava...

"Vai em frente!" Por meu pai era incitada
Quando afoita e inocente eu corria
Em direção aos potros e a manada
Que abúlica ou terna me acolhia. 

Entre o medo e a coragem fui criada,
Que pelo menos o mistério me legou
Entre o acolhimento e a cilada...

A prudência não é filha da fraqueza.
O covarde um jogo seu jamais ganhou
Com receio de deitar cartas na mesa...
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22/12/2020

domingo, 20 de dezembro de 2020

Realidade e Verdade (de Alma Welt)

Se a Realidade é controversa
Contar ainda podemos co'a Verdade,
Esta nunca transige ou tergiversa
E abrange tudo em Unidade.

Mas se a Verdade é uma só, o quê fazer
Destes nossos infinitos desacordos,
Se sua visão podemos mesmo distorcer,
Como iremos distinguir pardais e tordos?

"O que é a Verdade?" - indaga o Poncio
Àquele justo em sua frente tão sereno,
Que de seu sangue nas mãos estava cônscio...

Mas o Homem que assim foi indagado
Manteve um silencio concentrado,
A Verdade era só dele e era seu Reino...
.
20/12/2020

sábado, 19 de dezembro de 2020

Nós e o Labirinto (de Alma Welt)

O que nos poupará de grandes dores?
A mente humana é posta a andar à tonta,
Mas assim que de si mesma se dá conta
Por um fio retornará dos corredores...

No centro está, claro, o Minotauro;
Já terás tido como ele uns tête-à-têtes.
Mas como isso é passível de restauro,
É melhor que atravessar o rio Letes.

A vida humana é saga mitológica...
Acaso pensas que vieste a passeio?
O labirinto é real, fruto da lógica,

Se a entrada é a saída, tem o meio.
Quem não quiser seu próprio touro tourear,
Irá com brancas velas falsas navegar...
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19/12/2020

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Como me livrei do "mal do mundo" (de Alma Welt)

Houve tempo em que achei o mundo horrível,
De não mais querer sequer nele viver.
Entretanto meu cenário era aprazível
E eu ainda tinha flores pra colher...

Então me apercebi contaminada
Pelo mesmo "mal do mundo" incipiente
Que moldou a Criatura revoltada
Contra o Criador e sua semente...

Então num auto-exorcismo até banal
(pois excluía o restante ritual),
"Vade retro!" exclamei, exagerada...

E acreditem, fiquei leve de repente:
Não mais tinha a companhia da Serpente,
Não queria um "mundo novo" pra mais nada...
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18/12/2020


Nota
Para quem não entendeu o subtexto deste soneto, eu explico: a poetisa Alma, com a expressão "mundo novo" está veladamente se referindo à falaciosa promessa do socialismo/comunismo, de um mundo ideal, que costuma contaminar os jovens idealistas, secretamente chamados de "idiotas úteis" pelos próprios comunistas (a "Serpente")...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O odor deletério (de Alma Welt)

O penoso encontro com a Verdade
E que se dá em meio à fantasia,
Me lembro, tive eu em tenra idade
Ao velar o cadáver de uma tia.

Nossa triste condição se apresentou
Aos meus olhos muito abertos, de menina,
E mais, à outra brecha que encontrou
E que foi, infelizmente, minha narina...

O odor deletério (eu percebia)
Se insinuava no velório e na casa
E eu senti que do cadáver ele saía.

E eu quis perguntar para um adulto:
"Senhor, a alma cheira quando vasa?"
Mas por sorte percebi ser um insulto...
.
17/12/2020

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

A flor nos lábios (de Alma Welt)

O que estou a pensar? Não, não te direi.
Este soneto é tão só pra disfarçar.
Há coisas que dizer não poderei,
E escritas outras somente pra rimar...

Desde guria conservei o meu mistério
Até perante meus irmãos e os peões
Que diziam, garanto, com ar sério:
"Esta prenda abalará os corações..."

"Esta princesa nasceu para rainha.
Vê, gaudério, o fogo em seu cabelo!
Resta saber se será a tua e a minha."

E eu passava, disfarçando meu sorriso,
Num pudor inexistente, mas que viso,
Com uma flor nos lábios, como selo...
.
16/12/2020

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

"No popular" (de Alma Welt)

Repartir meu sonho e meus desejos
Nem que seja numa fila de sopão
Ou em leito de palha e percevejos.
Se me faltar não os sonhos, mas o pão...

O "Por quê eu? Por quê eu?" Jamais pergunto,
Já que nunca troquei lebre por gato,
E se trocar por mortadela meu presunto
Se o fizer não cuspirei depois no prato. 

Se nasci e fui posta em manjedoura
E se esta a minha pele já não doura,
Fiquei branca numa torre de marfim...

Princesa não de estirpe e sim de porte
(não que na verdade isso importe),
Mas porque desde guria eu sei de mim...
.
15/12/2020

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

O Duo (de Alma Welt)

Já não sei o que pensar, se me perguntas.
Está tudo tão incerto... mais confuso....
Se mentiras e verdades andam juntas,
Há muito já entrei em parafuso...

Chegou o Tempo da "final tribulação"
E já não há tempo hábil pra mais nada,
É o que dizem os profetas de plantão,
E apenas somos parte da manada... 

Não, eu me recuso! Sou Alma, sei quem sou!
Há muito solitária e deambulo
Jamais despercebida aonde eu vou...

Sou um triunfo vivo do "Individuo",
E de máscara qualquer jamais circulo,
Só co'a Verdade a Beleza faz um duo...
.
14/12/2020

domingo, 13 de dezembro de 2020

Ainda a Teia (de Alma Welt)

Lutar contra a tristeza, única luta
Que engloba as outras na incerteza.
Ela, a insidiosa, a vã tristeza,
A nos envenenar como a cicuta.

Bem cedo a conheci, estranha luta,
Coroando momentos de alegria
Como se premio fosse na disputa
Entre a depressão e a euforia...

"Ora, Alma, és "bipolar", já o confessas...
Então não falas de algo universal,
Cala-te pois, que nos estás fazendo mal."

Mas se falo só de mim, de minha aldeia,
E desfaço meus pontos, não me impeças
Pois refaço o mundo inteiro em minha teia...
.
11/12/2020 
Nota
Como podem notar, a "Teia de Penélope" é recorrente na obra da poetisa gaúcha, como sua metáfora predileta...


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A "Comédia" (de Alma Welt)

(para uma amiga em depressão)

Penetrar da alma a "noite escura"...
A todos chega um dia este momento.
Não poderás fugir ao teu tormento
Mas enfrentá-lo a seco é tua cura.

Não te enganes, não existe "cervejinha"
Que o "inho" e a "inha", retrocesso,
São muletas, o atalho que encaminha
Só para a inicial porta de acesso...

Para saíres do Inferno que te coube,
Você tem que olhar pra frente e caminhar
Para que a ti mesma a luz não roube...

"Então vamos!", disse Dante, para o guia
"Já passamos" -disse este, e por magia
Já estavam sob estrelas, e ao luar...
.
11/12/2020

A procura (de Alma Welt)

Procurar? Pra mim só se for "o não sei quê".
A poesia nasce dessa pré-loucura
Que começa, desenvolve e não tem cura
E contamina também quem muito a lê...

"Ora, Alma, bem precisas de leitores,
Não os afaste com tiradas alarmantes.
Querias ser solitária como antes,
Quando não repartias riso e dores?"

Compartilho agora mais que dúvida,
A volúpia da procura em estado puro
Faz a ponte com o que restou do muro...

E se não posso esclarecer o obscuro,
Posso ao menos entreter alguma vida,
Como eu, ávida assim, assim perdida...
.
11/12/2020

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A Salamandra (de Alma Welt)

A solidão para todos nós aumenta,
E nada pode revertê-la, não adianta...
No entanto ela os sonhos nos fomenta
E começámos a sonhar depois da janta.

Serões... Báh! Não mais existem os serões
Com o pai e a família reunida
A lembrar jogadas de peões
No tabuleiro imaginário que é a vida...

Como Cellini a salamandra eu vi *
Pequeno lagarto sobre a chama
Na lareira, e depois na minha cama...

Mas foi a do Jarau, que me encantou,
E os tesouros do tal Cerro revivi,
Que esta noite minha alma os visitou...

.
10/12/2020

Notas
*Como Cellini a salamandra eu vi-
Na sua célebre autobiografia, o escultor ourives e escritor florentino renascentista, Benvenuto Cellini (Florença, 3 de novembro de 1500 – Florença, 13 de fevereiro de 1571), começa contando como num serão silencioso, após a ceia, seu pai, de repente aponta a lareira acesa e exclama: "Olhe! Olhe, meu filho!" Cellini, menino, olhou e viu nas na lareira um pequeno lagarto de aspecto vítreo, brincando nas chamas. Seu pai então disse: "Olhe bem, meu filho, essa é a Salamandra! A poucos homens é dado ver isto..."

*Mas foi a do Jarau, que me encantou,
E os tesouros do tal Cerro revivi -
Alma se refere à famosa lenda A Salamanca (salamandra) do Jarau . O Cerro do Jarau fica no extremo sul do pampa gaúcho riograndense. Esta lenda popular gaúcha ficou célebre na versão escrita por Simões Lopes Neto (1865 – 1916).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Pequena fábula de areias (de Alma Welt)


Ilustração de Gustave Doré 
para o episódio da areia movediça, 
das Aventuras do Barão de Munchausen.

Pequena fábula de areias (de Alma Welt)

Era uma vez... me vi desesperada,
Sem esperança, mesmo, ao pé da letra,
Desolada, lamentosa, derrotada,
Sem mais poder reagir a qualquer treta...

Então me lembrei da aventura
De um certo barão da velha Prússia
Que alçou-se de uma sua desventura
Com seu cavalo e tudo, por astúcia...

Sim, ele ergueu-se por seu punho
Puxando-se pelo seu próprio chinó,
Que dos velhos guerreiros tinha o cunho.

Quanto a mim, para evitar a paranoia
Comecei a desfazer meu próprio nó,
Até eu mesma voltar de minha Tróia...
.
09/12/2020

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Ao Senhor dos Realejos (de Alma Welt)

Que o meu medo do mundo não me tolha
De bondade um impulso eventual,
A Bondade que atua contra o Mal
E é de sua botelha única rolha...

Que a caixinha de Pandora não me caiba
Pois sem ela já saí do Reino Escuro
E não quero pra ninguém mesmo (qu' eu saiba)
Os tormentos que provei atrás do Muro. 

Que da alma ou coração as duras penas
Não corroam minha face de candura
Nem branqueiem cedo as minhas melenas.

Eis, Senhor, a minha prece de desejos
Que vos dirijo assim, na caradura
Mas tão grata, meu Senhor dos Realejos...
.
07/12/2020
Nota
*Senhor dos Realejos -
Quero esclarecer ao leitor que a poetisa não está sendo blasfema, ao invocar Deus com esse original epiteto. Com essa "licença poética" Alma está ironizando os desejos como os com os quais ingenuamente consultamos os realejos de periquito. Alma, simbolista como sempre, critica veladamente e com humor, as "preces de desejo", que estão no fundo de todas as orações, ao contrário das de pura louvação e agradecimento preconizadas pela verdadeira Fé...

domingo, 6 de dezembro de 2020

O coração faminto (de Alma Welt)

Ó meus amores, em mim adormecidos...
Mais uma vez a vós dirijo a minha voz,
Que estais, eu sei, em mim entorpecidos
No berço mago de uma tal casca de noz.

Os meus amores em mim permaneceram
Distantes de suas vidas verdadeiras
Que há muito tempo livres das coleiras
Dos meus sonhos e anseios, mais prosperam.

Pouco sei de vossas vidas, quase nada,
Mas compraz-me essa dupla natureza
Que vos atribuí, como uma fada...

E não podeis cobrar-me a usurpação,
O que me destes, agora é minha presa:
Só devolvo ao meu faminto coração...
.
06/12/2020

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A Faroleira do Fim do Mundo (de Alma Welt)

Só sei da minha vida, e mal e mal...
Não me perguntem sobre astros e futuro.
Direi que a Deus pertence e coisa e tal,
Não esperem da repórter nenhum furo.

Sou aquela que observa a coisa toda
E a cada dia menos sei, nem adivinho,
Como se penetra fosse numa boda
Contando com mudança d'água em vinho...

Mas se queres narrativa iluminada
Pela forma que clareia o conteúdo,
Nesse caso sou farol: não cobro nada.

Faroleira do farol do fim do mundo,
Ilumino tudo aquilo que não mudo,
E fico a ver navios que vão ao fundo...
.
04/12/2020


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O Enigma (de Alma Welt)

Meu tempo não é este, e com orgulho
Há alguns séculos me vejo claramente
Destinada a outro tempo, pra semente,
Este tempo em que perplexa mergulho. 

Mas comigo trago o tempo das donzelas,
Também dos cavaleiros que as amavam,
Que a elas suas lanças destinavam
Adornando-as de fitas amarelas...

"Ora, Alma"- direis vós- "não exageres!
De donzela só tens o olhar de corça,
Sei bem que és guerreira quando queres."

Como o favo na caveira do leão
(belo enigma proposto por Sansão)
Então conto que a doçura é minha força...
.
03/12/2020

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A Poesia (de Alma Welt)

"Se me falta o poema, ai de mim,
Como posso enfrentar o dia a dia?
Tudo é... digamos, tão chimfrim
Se não troco por um pouco de poesia..."

Assim dizia minha amiga, uma Maria
Se esforçando para ser interessante,
Quando a rebati no mesmo instante:
"A poesia não é mais que o dia a dia."

"Não precisamos descartá-lo", disse eu.
"Coisas simples o homem sempre amou
Já o dizia, na Odisseia, o Odisseu..."

Sob a capa da grandeza de seu feito
Está o mendigo que pra casa retornou
Menos por tronos que pelo oculto leito...
.
02/12/2020

Nota
*Menos por tronos que pelo oculto leito - Na Odisseia de Homero, Odisseu após vinte anos de aventuras retorna ao seu palácio camuflado de mendigo com um manto com capuz para no momento certo massacrar os pretendentes de Penélope, sua esposa, e recuperar o seu trono e o dela.
Entretanto ele ainda deveria passar pela prova de descrever o leito oculto do casal, que era um segredo íntimo deles...

sábado, 28 de novembro de 2020

O espírito da vulgaridade (de Alma Welt)

Nele está contido o Mal do mundo
E embora alguns não vejam por descaso,
Risonha displicência de igual fundo,
Disfarçada de humor de curto prazo...

Matraquear de cacatua é o seu riso,
Às vezes risinho de uma hiena
Mas os ditos e arremates em voz plena
É que me fazem ver aonde eu piso...

Malícia é o seu dom perturbador,
Desconcertante já que passa por valor,
Amiúde por risível sutileza...

Só não vemos atuar na tenra idade,
Por imune que esta é à impureza
Do espírito da tal Vulgaridade...
.
28/11/2020

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Perguntas que não me querem calar (de Alma Welt)

E se o fruto não era o da Razão
E estávamos perdidos no pomar?
E se o sacrifício foi em vão,
A quem então devemos reclamar?

E se a rota estava errada desde o porto
E fomos dar além da Taprobana
Se devíamos ainda estar no Horto
Vivendo da dieta de banana?

E se ainda não estamos prontos,
Por quê estamos a pagar o mico
Do vexame de sermos só uns tontos?

Se tomamos da História o bonde errado
E não tínhamos culpa nem um tico
Se o endereço certo era ao lado?


25/11/2020

Pequena Fábula (de Alma Welt)

"Fazer algum sentido, isto é tudo
O que a vida necessita normalmente.
Mas que não requeira muito estudo,
Para ser acessível a toda gente..."

Ponderava Deus, assim, com seu Ministro
Que, sabemos, era o arcanjo Gabriel,
Pois ainda não havia Jesus Cristo,
Ou não tinha este aceito esse papel. 

Então um, apelidado "Grande Irmão"
Pelos próximos, Lúcifer chamado,
Intrometeu-se e deu uma sugestão:

"Senhor, faça da Vida uma Xarada
Para que fique o Homem interessado
E me consulte em meio da jornada"...
.
19/11/2020

sábado, 14 de novembro de 2020

A Ordem e o Caos (de Alma Welt)

"Manter-te íntegra num mundo em confusão,
Será o que te espera em desafio..."
Disse meu pai, me lembro, num serão,
Num momento em que eu só sentia frio.

Mas, pai (eu disse), que confusão é essa?
Será acaso este minuano frio?
Tenho o pala que me deste. É quente à beça.
Vou buscá-lo e não mais darei um pio. 

Meu pai olhou-me e sugou o chimarrão,
E disse: "Alma, vejo em ti a ordem pura,
Que do caos é a verdadeira salvação... "

"Quem como tu conserva essa candura,
Sem deixar de ser, também, inteligente,
Está salva, e segura, certamente..."
.
14/11/2020

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Beleza e Amor (de Alma Welt)

"Alma, és um enigma"- disse alguém.
E eu me fiz um ar dúbio de mistério
Com um vago sorriso meio sério,
Assim, entre o deleite e o desdém...

Mas, é claro, pouco tempo suportei,
O riso transformou-se em gargalhada.
Sou assim: não levo a sério quase nada
Para além da voz poética que herdei.

"Da visão que sem querer, Alma, nos legas,
A Beleza só em parte te pertence
E por certo é um fardo que carregas..."

Olhei então a raiz da minha tristeza:
Se a solidão do belo só Amor vence,
Meu Amor se confundira co'a Beleza...
.
13/11/2020

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Alma no balanço (de Alma Welt)

                                  Alma no balanço - o/s/t de Guilherme de Faria, 2018, 100x100cm

Alma no Balanço (de Alma Welt)

Armo com cordas um balanço em meu pomar
Na mesma árvore que viu a minha queda
Quando guria, que inocente quis me dar
Só ao ser que meu senso ainda seda.

E me ponho a balançar quando estou só
O que me faz lembrar e ver mais claro
Que ao desfazer da memória um certo nó
Me sobe na garganta, engulo e paro...

Mas minha árvore do fruto da razão
Não logra me dar conta de um pecado
Que de mim já nasceu com meu perdão

E me vejo cada vez mais inocente,
Retornando ao paraíso de repente
No embalo do meu balanço alado...
.
12/11/2020

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Espelho meu (de Alma Welt)

Jurei jamais cobrir meu belo rosto
Sequer pra mero efeito de disfarce,
Pois com máscaras não me sinto a gosto
E nunca trairia a minha face. 

Hoje de manhã me olhei no espelho
E há tempos, acreditem, o não fazia.
Vi que o branco rosto meu sobressaía
Na moldura natural de tom vermelho. 

E perguntei, pois gaiata, não me manco:
"Espelho, espelho meu, seja bem franco,
Não me mintas jamais pra me agradar..."

E o espelho respondeu, pra meu espanto:
"Alma, um dia certamente vou trincar,
Até lá garantirei o meu encanto..."
.
11/11/2020

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

A Caverna dos Gigantes (de Alma Welt)

Acordando de mim mesma parti cedo,
Levando meu caderno de poesias
Como mapa do tesouro, mas sem medo
Das minhas próprias e intrincadas trilhas.

Logo encontrei a Caverna do Soneto
Coruscante de pepitas e diamantes
Mas vi que era um pátio de gigantes
E com eles, por certo, não me meto. 

Gravado estava o nome de Petrarca
Também o de Shakespeare estava à vista
Onde Dante deixara a sua marca.

Luzindo, o nome de Camões eu deparei, *
O Polifemo que encabeçava a lista
Com Florbela e Pessoa... e acordei.
.
09/11/2020

Notas
*Luzindo, o nome de Camões eu deparei -
Trocadilho com a palavra luso (português)...
 
*O Polifemo que encabeçava a lista -
Alma designa Camões, que era caolho (perdeu um olho em batalha em Ceuta) com o nome do gigante (Titã) de um olho só, da Odisseia de Homero, que morava numa caverna que Odisseu e seus homens invadiram.


domingo, 8 de novembro de 2020

O Eterno Retorno (VII) (de Alma Welt)

Uma vida bem vivida é uma epopeia,
Mas me refiro mesmo às bem modestas,
Até aquelas de fogão ou de boleia,
Não dos que se esgueiram pelas frestas.

O desastrado, o perdedor e o canhestro,
Esses ocupam a base de amplo rol
Junto ao pobre sonetista com seu estro,
Que mal desfruta o seu lugar ao sol.

Mas de perto, todos eles, todos nós
Estamos numa nave entre perigos
Para voltar e refazer nossos umbigos.

Chegar à nossa casa, nosso porto
Edificado pelos nossos pais e avós
E fruir a maçã do antigo horto...
.
08/11/2020

Aos meus antigos amores (de Alma Welt)

Meus amores, quanta pena tenho
Não de nosso leito o desempenho,
Mas do quanto empenhei de amor e arte,
De vós distante, de nós, em outra parte...

Alguns, desdenháveis do meu verso,
Do meu suposto "vício" da poesia,
Me pondo no minúsculo universo
De cama e mesa, depois louça na pia...

Mas eu vos canto, sim, pra compensar.
Éreis todos belos, ternos, imaturos,
E mesmo hoje gozo só de vos lembrar.

Creio tendes me esquecido porventura
Aqueles dentre vós que eram mais puros,
Porque nos outros, eu sei, não tenho cura...
.
08/11/2020

As Origens do Mal (de Alma Welt)

Cedo apreendi o que era o Mal, apenas
Ao ver braços estendidos às centenas
De homens de uniformes, "di profilo",
E perguntei ao pai o que era aquilo...

E o velho desfiou teia de horrores
Que ele viu de perto na Alemanha
De sua juventude a mim estranha,
Eu mestiça de Germânia e de Açores.

E disse que o embrião veio da Itália
Dos romanos de uma era imperial
Que conquistaram a pobre velha Gália...

Mas na mordida da maçã em vez do figo,
Que começou bem ali no meu quintal,
Percebi um Mal, então, bem mais antigo...
.
08/11/2020

sábado, 7 de novembro de 2020

Vingança Sutil (de Alma Welt)

Construir meu mundo foi preciso
Depois que fui flagrada no jardim,
Embora original não seja isso,
Que a todos cabe e não somente a mim.

Viver é recompor-se após o trauma
Da expulsão brutal de um paraíso.
Uns ficam aleijados em sua alma,
À espera só do Dia do Juízo...

Então consultei minha rebeldia
E cheguei rapidamente à conclusão
De uma vingança sutil em alegria...

E o consigo a ponto de girar,
Num frenesi de amor feliz e solidão
Com os braços abertos para o ar...
.
.
07/11/2020

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Celebração (de Alma Welt)

Se celebro a cada dia minha vida,
Com um verso, um soneto, uma canção,
Esperando de mim mesma a acolhida,
Não façam ao Narciso uma alusão...

Me mantenho assim jovem e bonita
E não só para sair-me bem na fita
Mas por pura gratidão ao meu destino,
Que também Eco não sou, mas violino.

A beleza me impuseram como pecha
Para não reconhecerem-me outros dons,
Ocultando o arco hábil desta flecha... 

Mas não quero me queixar, fruir apenas,
Essa tão lenta mutação sutil de tons
A alvejar-me o ruivo das melenas...
.
06/11/2020

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O livro proibido (de Alma Welt)

Nenhum livro nosso pai nos proibia
Dentre aqueles milhares das estantes
Que os olhos percorriam, hesitantes,
Até que um dedo afinal os escolhia. 

Mas leria eu a todos, eu sabia...
Eram questão de tempo e tão somente,
Pois cada livro deixava uma semente
Que no volume seguinte cresceria..

Mas, meu pai um dia um livro proibiu
Tirando da minha mão que mal o abrira,
Conquanto o único interdito entre mil.

Mas qual foi, lhe prometi não revelar
Pois há árvores que não devo plantar,
Que a roubada Razão nossa nos retira...
.
05/11/2020

Infinitos jardins (de Alma Welt)

Sei que posso governar o mundo em mim,
Mas somente dentro em mim, ó meu amigo.
Minha alma é pois, sabeis, o meu jardim,
E os espinhos, os tolero e não persigo...

Mas pulgões e ervas daninhas não suporto,
E há tempos já me pus em pé de guerra;
Por isso, às vezes, este meu olhar entorto:
É que aqui dentro ocorre a luta pela terra. 

Cada um tem seu jardim, ao infinito,
Embora muitos queiram o contrário,
E o livre arbítrio nulo ou interdito...

Mas se Deus nos permitiu a liberdade
E não nos castigou pondo no armário,
Nos perdoou, Suas crianças, na verdade...
.
05/11/2020


quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Extremo Sul (de Alma Welt)

Eu vi chegar o peão cambaleando
Montado em sua sela meio troncho
Com uma mancha rubra no seu poncho
E foi logo em meus braços desabando.

Fomos ao chão: era pesado o infeliz,
E antes mesmo que a relva nos colhesse
Na pobre testa o sinal da cruz lhe fiz
E era como se já o conhecesse... 

De sua boca aproximei o meu ouvido
E suas palavras derradeiras escutei
Com um espanto que eu nunca tinha tido:

"Morro, Alma, nos teus braços, não no chão,
Pois direto para o Inferno enviei
O maldito que te nomeava em vão..."
.
04/11/2020

Far South (by Alma Welt)

I saw the cowboy stagger
Mounted half crooked in his saddle
With a red spot on the poncho
And soon he was collapsing in my arms.
We went to the ground: the unfortunate was heavy,
And before the grass even caught us
On his poor forehead I made the sign of the cross
And it was as if I already knew him ..
I brought my ear close to his mouth
And his final words I heard
With a wonder I never had:
"I die, Alma, in your arms, not on the ground,
Because I sent straight to hell
The bastard who named you in vain ...
_______________________________

Free transliteration with rymes:

Far South (by Alma Welt)

I saw the cowboy stagger maddle
Mounted half crooked in the saddle
With a red spot on his darms
And soon he was collapsing in my arms.
We went to the ground: was heavy, the unfortunate
And before we lay down on the moss
On his poor forehead I made the sign of the cross
And it was as if I already knew him for a long date
I brought my ear close to his mouth
And his final words went to my brain
With a surprise I never had eard about:
"I die, Alma, in your arms, not on the ground,
Because I sent him straight to hell, like a mad hound,
The bastard that called you names in vain

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O Aceno (de Alma Welt)

Eis-me como quase em selva escura
Quando penso meu jardim ter alcançado.
Mal avisto de meu lar a forma pura
Da casa e sua varanda de sobrado...

Mal enxergo no jardim minha avó Frida
A conversar com seus botões perfeitos,
Como também de meus cães a acolhida
De seu amor tão cego aos meus defeitos.

Um silencio de uma paz de quarentena
Paira denso a começar pela varanda
Em que meu próprio vulto ainda acena.

Então ocorre, a mim, que esteja pronta,
E ao imortal coração que me comanda,
De que morri faz tempo e não dei conta...
.
02/11/2020

sábado, 31 de outubro de 2020

Vã Filosofia (de Alma Welt)

Da Ignorância, sob o signo,
Não sabemos a que veio tudo isto.
Alguns de nós fechados com Mefisto,
Nosso papel é triste e pouco digno.

Não saber sequer nosso destino...
O ser em penumbra e vacilante,
Lá fora o escaldante sol a pino
Somos cegos em torno do elefante.

Entre o céu e a terra tudo é vão,
Disse um bardo irônico e sagaz
Que sabia todavia um pouco mais.

Lembre: o anjo enxotou-nos do Jardim
Pela nossa incoercível inclinação
Para os meios, desconhecendo o fim...
.
31/10/2020
Notas
Alguns de nós fechados com Mefisto -
alusão ao pacto de Fausto com o Diabo encarnado no personagem Mefistófeles (ou Mefisto) , no célebre drama "Fausto", de Goethe.
*Somos cegos em torno do elefante -
Alusão à famosa parábola indiana dos sete cegos e o elefante.
*Entre o céu e a terra tudo é vão- alusão à famosa frase do Hamlet (de Shakespeare): "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia".
_____________________________________

Para que os amigos de língua inglesa:

Vain Philosophy (by Alma Welt)

Of Ignorance, under the sign,

We don't know what all this came to.
Some of us closed with Mephisto,
Our role is sad and unworthy.
Not even knowing our destiny ...
The shady and wavering being,
Outside the scorching sun
We are blind around the elephant.
Between heaven and earth everything is vain,
Said an ironic and canny bard
Who knew a little more, though.
Remember: the angel chased us out of the Garden
For our unavoidable inclination
For the media, not knowing the end ...
------------------------------------
*Some of us closed with Mephisto -
an allusion to Faust's pact with the Devil embodied in the character Mephistopheles (or Mephisto), in Goethe's famous drama "Faust".
* We are blind around the elephant -
Allusion to the famous Iindian parable of the seven blind and the elephant.
* Between heaven and earth everything is in vain - allusion to Hamlet's famous phrase (by Shakespeare): "There is more between heaven and earth than our vain philosophy dreams about".
_______________________________

And now a free translitration with rymes:
 
Vain Philosophy (by Alma Welt)

Of Ignorance, under the sign,

we don't know what all this came to.
Some of us closed with Mephisto,
our unworthy role is not fine.
Not knowing our destination is not fun,
of dark beings we are a kind.
Under the scorching sun,
around the elephant we are blind.
Between heaven and earth everything is vain,
said an ironic and cunning bard,
although knowing a little more is hard
Remember: in the garden the angel still stands
and it's blocking our curious brain
not for the media, but for the ends...
__________________________________

Que, por sua vez, traduzida fica assim:

Vã Filosofia (por Alma Welt)

Da Ignorância, sob o signo,
não sabemos a que veio tudo isso.
Alguns de nós fecharam com Mephisto, *
nosso papel indigno não está bem
Não saber o nosso destino não é divertido,
de seres escuros, somos uma espécie.
Sob o sol escaldante,
em torno do elefante somos cegos.
Entre o céu e a terra tudo é vão,
disse um bardo irônico e astuto,
embora saber um pouco mais seja difícil
Lembre-se: no jardim, o anjo ainda está de pé
e está bloqueando nosso cérebro curioso
não para os meios, mas para os fins...