segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Não Quero (de Alma Welt)

Às vezes fico triste de verdade,
Quase morro, e não de deprimida
Mas só de pensar em outra vida
Não na minha terra e esta herdade.

Não, não quero ir pro céu, que Deus me guarde.
Não que eu tenha algo contra os anjos,
Que tocam harpas pra não fazer alarde.
Já pensou se fossem pífaros e banjos?

Pro Inferno também não, nem Purgatório,
Que me lembra um remédio pra criança
Cujo nome é por si um vomitório.

Deixai-me Deus ficar aqui quietinha
No meu pampa e nesta velha estância.
Nunca quis nada além do que eu já tinha...

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10/08/2020

sábado, 8 de agosto de 2020

A maçã do amor (de Alma Welt)

Não se dissiparam as minhas dúvidas,
Aquelas desde o início, em tenra idade,
Pois que na verdade, nada estúpidas,
São legítimas da nossa humanidade.

Por quê a morte existe, exatamente?
Por quê a espantosa fedentina?
Por quê nos transformamos na vermina,
Depois pálido espantalho sorridente?

Por que parir em dor como o castigo
Por um pequeno roubo? Faz favor!
Meu vizinho não fez isso comigo.

Era pequena e invadi o seu pomar
E lhe roubei o que chamei "maçã do amor",
E ele, rindo, convidou-me pra lanchar...

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08/08/2020

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A Jovem Pária (de Alma Welt)

Nesta minha vidinha solitária,
Despercebida dos grandes desta terra,
Escrevo meus sonetos como pária
Ou como quem a si mesma se desterra.

Pois tenho sim algo em mim da hindu jovem
De uma ária de Delibes que em mim resta
Com aquelas campainhas que comovem
Para afastar meu próprio tigre na floresta...

Eis um aspecto simbólico flagrante,
No operístico resumo que me ocorre,
Se tal comparação não for pedante...

Mas que posso dizer mais de mim mesma
Se afasto da fera a abantesma
Com sininhos de meus versos, e ela corre?

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07/08/2020

https://youtu.be/gMO0KFL3E58

Ou va la jeune Indoue, Filles des Parias, Quand la lune se joue, Dans le grand mimosas? Elle court sur la mousse Et ne se souvient pas Que partout on repousse L'enfant des parias; Le long des lauriers roses, Revant de douce choses, Ah! Elle passe sans bruit Et riant a la nuit. Labas dans la foret plus sombre, Quel est ce voyageur perdu? Autour de lui Des yeux brillent dans l'ombre, Il marche encore au hasard, e perdu! Les fauves rugissent de joie, Ils vont se jeter sur leur proie, Le jeune fille accourt Et brave leur fureurs: Elle a dans sa main la baguette ou tinte la clochette des charmeurs L'etranger la regarde, Elle reste eblouie. Il est plus beau que les Rajahs! Il rougira, s'il sait qu'il doit La vie a la fille des Parias. Mais lui, l'endormant dans un reve, Jusque dans le ciel il l'enleve, En lui disant: 'ta place et la!' C'etait Vishnu, fils de Brahma! Depuis ce jour au fond de bois, Le voyageur entend parfois Le bruit leger de la baguette Ou tinte la clochette des charmeurs!


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Nevermore * (de Alma Welt)

Nunca mais! disse o corvo, também digo.
Nunca mais! (repetirei a cada erro).
A própria vida consiste no perigo,
Vivemos num primordial desterro.

Há um lado sinistro incontornável
No nosso dia a dia pouco justo,
Sobrevivendo de modo confortável
Enquanto pousa o corvo em nosso busto.

Bah! Já estás desconsolada outra vez!
Apaga tudo, acorda! É um novo ano!
Estás só: não há corvo nenhum...

Mas repito: Nunca mais! (a cada mês)
Pois este é o fatal destino humano:
Repetir nossos pecados um por um...

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06/08/2020


Nota
*Nevermore - respondia o corvo do poema The Raven, de Edgar Allan Poe, pousado num busto de Palas Atena.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Ariadne em Naxos (de Alma Welt)

Quantas vezes só em mim mesma me perco
E me vejo em labirintos sem respostas
Prevendo o Minotauro pelo esterco
Quer dizer, francamente: pelas bostas...

Báh! Psique de poeta em quarentena
Frágil como se cortado o esperto fio *
Como a doce Ariadne, tão serena,
Abandonada no leito já vazio. *

Esperando a Alegria que vier *
Nem que seja com os truques do improviso
Para aquele vão consolo que se quer, *

Na Naxos sem nexo em que me encontro
Meu herói de mim partiu sem dar aviso, *
E ele mesmo era meu temido monstro...

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05/08/2020


Notas
*Frágil como se cortado o esperto fio -
referencia ao truque do fio de Ariadne princesa filha do rei MInos, que atando a ponta do novelo na cintura do herói ateniense Teseu, por quem se apaixonou, pode este entrar até o centro do Labirinto de Creta e matar o Minotauro, livrando assim Atenas do tributo anual a Creta dos catorze jovens (sete moças e sete rapazes virgens) para serem entregues ao monstro para serem devorados. Esse tributo era cobrado pelo rei Minos de Creta a Atenas porque seu filho, grande atleta, tendo vencido a Olimpíada causara inveja aos atletas atenienses que o assassinaram. O rei Minos para se vingar, então declarou guerra a Atenas e tendo vencido, para não destruí-la cobrava esse cruel tributo anual havia décadas. Até que o príncipe Teseu filho do rei Egeu, de Atenas, se dispôs a ir com a nova remessa de jovens ateniense afim de tentar matar o monstro de Creta e libertar seu povo daquele tributo.

*Abandonada no leito já vazio -
Após Teseu ter matado o Minotauro e conseguido dair do labirinto graças ao estratagena do fio de Ariadne, eles fugiram juntos de Creta e no caminha aportaram na Ila de Naxos uma Ilha anódina onde nada acontecia. Ali Teseu teve afinal tempo de possuir Aradne engravidando-a. No dia seguinte, despertando, Teseu reuniu seus homens e partiu. Quando já estava em alto mar percebeu que esquecera de Ariadne que deixara dormindo (!!!). Quis voltar mas as velas da naus gregas tinham velas quadradas e só se deslocavam a favor do vento, e portanto não podendo voltar abandonou Ariadne em Naxos e prosseguiu de volta para Atenas. Com esse percalço se esqueceu de trocar a vela negra da nave por branca como combinado com seu se pai se saísse vencedor. O rei Egeu que ficava no alto do promontório olhando o mar esperando por seu filho, avistou ao longe a vela negra e pensando seu filho morto atirou-se ao mar, que então recebeu o seu nome: Mar Egeu.

*Esperando a Alegria que vier -
O verso faz alusão à vinda de Dioniso, o deus do vinho, do riso e da alegria, que peregrinando à toa chegou na Ilha de Naxos e não sendo muito chegado em mulheres tinha inventado um falo de madeira, depois chamado de "consolo" com que possuiu a Ariadne (para deixá-a mais alegrinha?) ou o foi o contrário que aconteceu e foi a Ariadne que o possuiu?

Por incrível que pareça os gregos puseram mesmo tais coisas no Mito original, o que fez com que os psicólogos da Mito-análise junguiana no século XX, se empenhassem em analisar os conteúdos psico-sexuais desses estranhos detalhes (!!!)
Quanto ao soneto da Alma Welt, percebe-se que ela incorporou o Mito do Labirinto, do Minotauro e do Herói interno atrapalhado e esquivo, como forma de expressar com certo humor os seus próprios conflitos de um momento de quarentena interiorizada.
(Guilherme de Faria)

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Alma gaúcha (de Alma Welt)

Como escabreio ante às tristezas
Como a novilha num laço de peão
Em meu esforço de manter o coração
No verde lado do pasto das certezas...

Não suporto viver em seco pasto
E vivo só em tempo de invernada
Neste meu pampa solitário e vasto
Peregrinando em mim e sem manada.

Tão gaúcha que dá nojo hoje acordei
E quisera ser a prenda de outra era
Quando a lei da bombacha é que era lei.

E passe a cuia, guri, na mesma bomba
Deste chimarrão que ainda espera
Meu sorvo como arrulho de uma pomba...

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04/08/2020

Volto ao Jardim (de Alma Welt)

Como era belo o meu velho jardim
Naquele tempo da minha avó Frida...
Eu a vejo ainda dentro em mim
Enquanto com a roseira a gente lida.

Ninguém está ao léu solto no vento
Pois carregamos os vetustos ancestrais
Que nos ancoram bem firmes no Tempo
Na sua baixa maré do Nunca Mais...

Agora o meu jardim está capenga
E por certo não possui o mesmo viço
E as rosas até fazem lenga-lenga,

Tão mudas quanto as rosas do Cartola,
Mas, roubado, o perfume deu sumiço,
E nos olhos meu sorriso pede esmola...

.
04/08/2020

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Poeta como Vidente* ( Alma Welt)O

Cumpro o meu triste destino de pensar
Muito mais do que viver a vida ativa,
Olhando o povo vivo se agitar
Na casual coreografia de quem viva.

Mas por que precisaria eu reviver
A experiência de escalar uma montanha
Ou num abismo por um fio louco descer
Ou num ring aprender como se apanha?

Assim persisto nesta minha lassidão
De poeta com este meu atroz talento
De antever o exato fim de toda ação...


Mas me diz uma voz n'algum momento:
Tens o falso pensamento dos covardes
Se aches que a Morte assim retardes...

.
03/08/2020
Nota
*O Poeta como Vidente - o titulo certamente alude ao famoso texto de Arthur Rimbaud, conhecido como a " Lettre du Voyant" (Carta do Vidente).

domingo, 2 de agosto de 2020

Soneto de Quarentena (de Alma Welt)

Pra navegar neste mar de incertezas
É preciso confiar em portulanos
Ou seguindo as antigas correntezas
Apostar nas velhas lendas e arcanos.

E no auge do torpor das calmarias
Até contar com canto de sereias
Como alívio para o tédio destes dias
Em que sequer calçamos nossas meias...

Quarenta dias no Dilúvio vai a Arca,
Quarenta anos os hebreus peregrinaram,
Quarentena nos persegue e é a marca.

Ó Senhor, dai-me fé ou mais constância
Porque a vida nada é que me contaram
E não flui como lembro em minha infância...

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02/08/2020

Para a Última Dança (de Alma Welt)

Entre encanto e horror o olhar balança
E com ele meu coração confuso
Com dois passos diversos de uma dança
Como roca a rodar um duplo fuso.

Tudo tem seu contrário ou desmentido:
Descompasso de São Guido* e uma valsa 
(que ao fazer girar as almas já as alça),
E uma dança grotesca sem sentido.

Mas devo confessar o meu fascínio
Pelo timbre picaresco que permeia
Toda história humana desde o início.

Pro gran finale como quem se esmera
Já preparo meus ossos, volta e meia,
Para a Dança Macabra que me espera...

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02/08/2020

Nota
*Descompasso de São Guido - na Idade Média as convulsões espasmódicas da epilepsia eram chamadas de "Dança de São Guido".

A Fonte (de Alma Welt)

O Sol é a fonte universal do Amor
Por Deus escolhido entre as estrelas,
E seu carinho é tanto, que ao se por
À noite, insones, nos permite vê-las.

Essa era toda ciência que eu sabia,
Cedo apreendida no colo do meu pai
(talvez com leve toque de poesia)
Que então disse: "É tudo. Agora vai!"

E eu então saí correndo pro quintal
Com aquela sensação de saber tudo
Sobre o Conhecimento Universal...

Uma vida desde então se me passou,
E depois de labor e muito estudo
Eis a ciência que em meu coração ficou...

.
02/08/2020

sábado, 1 de agosto de 2020

As perguntas que não querem calar (de Alma Welt)

E se o fruto não era o da Razão
E estávamos perdidos no Pomar?
E se o nosso exílio foi em vão
A que bispo devemos reclamar?

E se a rota era errada desde o porto
E fomos dar além da Taprobana?
E se devíamos ainda estar no Horto
Vivendo da dieta de banana?

E se ainda não estamos prontos,
Por que estamos a pagar o mico
Do vexame de sermos só uns tontos?

Se tomamos da História o bonde errado
E não tínhamos culpa nem um tico
E o endereço apenas era ao lado?

.
01/08/2020

sexta-feira, 31 de julho de 2020

* "Uma temporada no Inferno" (de Alma Welt)

O que vejo é Tristeza ao meu redor
E tenho que criar minha alegria
Com um canto baixinho em tom menor
Pra com a dor não entrar em sintonia.

Sim, recuso a tristeza desta vida
Porque nunca achei justo o tal Juízo
De exilados à priori, de saída,
Já que postos pra correr do Paraíso...

Entretanto a sintonia que procuro
É fina demais, de furo a furo,
No "dial" da alma inconformada.

Mas quando "pego" as músicas dos anjos,
Tão raras como as harpas entre banjos,
Aceito deste inferno a temporada...

.
31/07/2020

Nota
*"Uma temporada no Inferno" - titulo emprestado de um famoso ciclo de poemas em prosa de Arthur Rimbaud.

Agora uma transliteração (versão livre rimada) para o francês, também de minha autoria

Une saison en enfer" (par Alma Welt)

Ce que je vois, c'est de la tristesse autour de moi
Et je dois créer ma propre joie
Avec un chant mineur sur un ton bas
Arretant la douleur par ne la connecter pas.

Oui, je refuse la tristesse de cette vie
Parce que je pense que le jugement manquait d'art
D'exilés que sommes nous a priori, de départ,
Puisque nous etions prêt à fuir le paradis.

Cependant l'accordage que j'ai toujours cherchée
C'est trop mince, trou par trou, au coeur
Dans le "cadran" de l'âme non conformée.

Mais quand je "ramasse" les chants des anges,
Aussi rare que les harpes d'acordes étranges
J'accepte par instant la saison de cet enfer ...

quinta-feira, 30 de julho de 2020

The last time I saw Paris (by Alma Welt)

(Versão livre para o inglês, mas com rimas, do soneto da Alma Welt "A última vez que vi Paris" (veja postagem anterior)
* A última vez que vi Paris - este título é evidentemente uma citação do título do filme The last time I saw Paris de Hollywood de 1954 passado em Paris, com Elizabeth Taylor e Van Johnson. O filme não é muto bom apesar de ser baseado num conto de Francis Scott Fitzgerald, "Babylon Revisited", mas o título sugestivo inspirou a Alma para criar este soneto, em que ela manifesta a sua paixão histórica e literária pela cidade de Paris, e jamais turística..

The last time I saw Paris (by Alma Welt)

The last time I saw Paris, I remember,
The hunchback took the great bell like a boat;
Of the miraculous courtyard I was a member
And the gypsy's partner was a goat.


Suddenly, I saw a king without a wig
Not in a carriage, but almost on a trek
And he was not going to the farm like a pig
But for caresses on the back of his neck.

Carrying torn remains of a young man
I soon saw Valjean, in the sewers of bathtubs
Saving youth narrowly since then

After these leaps of a few centuries,
Rimbaud was already writing in pubs
That was indeed the last time I saw Paris ..
.
30/07/2020

(O soneto original):

*A última vez que vi Paris (de Alma Welt)

A última vez que vi Paris, me lembro,
O corcunda cavalgava o grande sino;
Do Pátio milagroso eu era membro
E o parceiro da cigana era um caprino.

De repente vi um rei já sem peruca
Não de carruagem, mas carroça,
E não estava indo para a roça
Mas para um cafuné na sua nuca.

Mas logo vi o Valjean, pelos esgotos
Carregando despojos meio rotos,
Salvando a juventude por um triz.

Depois desses saltos de alguns séculos,
Rimbaud já escrevia nos botecos,
Essa sim, última vez que vi Paris...
.
30/07/2020

La dernière fois que j'ai vu Paris (par Alma Welt)

(Versão livre, com rimas, para o francês, do soneto " A última vez que vi Paris" da Alma Welt . (Vide o soneto original abaixo (as versões também são minhas)

La dernière fois que j'ai vu Paris (par Alma Welt)

La dernière fois que j'ai vu Paris, je me souviens
Le bossu a grimpé la grande cloche dans la fièvre.*
Dans la cour miraculeuse où la raison revient *
L 'amie de la gitane était une chèvre.

Soudain, j'ai vu un roi sans perruque *
Pas dans une voiture, ni dans une charrette*,
Et il n'allais pas pour traiter la tète
Mais pour une dernière caresse à la nuque.

Soulevant un corps déchiré presque nu
J'ai vu Valjean, travers les égouts du Lis
Pour sauver le jeune homme qui a été abattu

Depuis tant de siécles de visions si belles
Rimbaud écritait dans un Café les voyelles
Et c'est la dernière fois que j'ai vu Paris ...
.
30/07/2020

Notas
*Na "versão livre", chamada de "transliteração" pelos irmãos Campos, Augusto e Haroldo) o tradutor toma a liberdade de criar algumas imagens novas, mantendo o espírito do poema original, para criar rimas, já que as rimas originais se perdem numa tradição fiel ou literal.

*Le bossu a grimpé la grande cloche dans la fièvre.- depois de salvar a cigana Esmeralda, sequestrando-a o corcunda Quasimodo se exibe para ela cavalgando febrilmente o maior dos sinos da torre (ele era surdo por ser o sineiro dos poderosos sinos da catedral de Notre Dame.

*.la cour miraculeuse - O "Pátio dos Milagres", criação magistral de Victor Hugo no romance Notre Dame de Paris (abaixo da praça em frente a Catedral de Notre Dame, os subterrâneos, com um imenso salão como sala do trono que tinha seu próprio rei mendigo, e onde à noite os falsos cegos de Paris enxergavam, os aleijados dançavam sem suas muletas e o vinho e a orgia corriam soltos...

*L'amie de la gitane était une chèvre. - No romance Notre Dame de Paris, a cigana Esmeralda tinha uma cabrinha adestrada que a acompanhava nas suas danças na ruas. Por isso foi acusada de feitiçaria pelo cobiçoso padre da Catedral.

*Soudain, j'ai vu un roi sans perruque .( De súbito eu vi um reis sem peruca - o verso faz a alusão ao rei Luiz XVI, sem sua peruca real sendo levado não numa carruagem mas numa carroça tosca para o patíbulo para ser guilhotinado:

*Et il n'allais pas pour traiter la tète
Mas pour une dernière caresse à la nuque.- Ele não estava indo para tratar a cabeça, mas para uma última carícia na nuca (para ser guilhotinado).

Soulevant un corps déchiré presque nu
J'ai vu Valjean, travers les égouts du lis
Pour sauver le jeune homme qui a été abattu -
Este terceto descreve Jean Valjean, o grande personagem de Os Miseráveis, de Victor Hugo, carregando o corpo ferido na barricada, do namorado de sua filha, seu futuro genro, pelos esgotos de Paris, aqui ironicamente chamados de "esgotos do Lírio" (o Lírio é o símbolo da realeza francesa).

*Rimbaud écritait dans un Café les voyelles -
Alma alude ao poema Les Coulleurs des Voyelles, escrito no Album Zutique por Rimbaud. No Café Zutique que Rimbaud frequentava o dono mantinha um álbum para que os clientes poetas escrevessem versos para registrar sua passagem ou assídua frequência. No chamado Álbum Zutique foram encontrados inúmeros pequenos poemas inéditos de Arthur Rimbaud, como o curioso e experimental Les Couleurs des Voyelles (As Cores das Vogais).
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(O soneto original):

A última vez que vi Paris (de Alma Welt)

A última vez que vi Paris, me lembro,
O corcunda cavalgava o grande sino;
No Pátio milagroso era Dezembro
E o parceiro da cigana era um caprino.

De repente vi um rei já sem peruca
Não de carruagem, mas carroça,
E não estava indo para a roça
Mas para um cafuné na sua nuca.

Mas logo vi o Valjean, pelos esgotos
Carregando despojos meio rotos,
Salvando a juventude por um triz.

Depois desses saltos de alguns séculos,
Rimbaud já escrevia nos botecos,
Essa sim, última vez que vi Paris...
.
30/07/2020

A última vez que vi Paris (de Alma Welt)

A última vez que vi Paris, me lembro,
O corcunda cavalgava o grande sino;
Do Pátio milagroso eu era membro
E o parceiro da cigana era um caprino.

De repente vi um rei já sem peruca
Não de carruagem, mas carroça,
E não estava indo para a roça
Mas para um cafuné na sua nuca.

Mas logo vi o Valjean, pelos esgotos
Carregando despojos meio rotos,
Salvando a juventude por um triz.

Depois desses saltos de alguns séculos,
Rimbaud já escrevia nos botecos,
Essa sim, última vez que vi Paris...

.
30/07/2020

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Demasiado conceitual (de Alma Welt)

Sobre a Terra o esfalfar do homem
Compensa quando tem alguma Arte.
A boa notícia é que quase tudo tem,
Sem ela não se vai a qualquer parte.

Por isso dou valor a um qualquer
Que exerça o seu ofício com desvelo
Porque Arte é o capricho onde estiver
E apenas não tolera desmazelo.

Entretanto até aqui não há Poesia,
Que comecei em modo paralelo
Pois está conceitual em demasia...

Não como "aquela" pedra: dói nos rins, *
Não há tempo para encontrar o belo
Que só quer os meios, não os fins...

.
29/07/2020
Nota
*Não como "aquela" pedra: dói nos rins -
Nota-se que a Alma alude à pedra nada conceitual do famoso poema de Carlos Drummond de Andrade ("No meio do caminho tinha uma pedra"...) Ao contrário, a que estava se formando neste soneto, segundo a Alma, é pedra nos rins....

Nós e o anjo escuro (de Alma Welt)

Como é bela a face humana quando é bela
E iguala o coração ao exterior...
Dos olhos a alma pura na janela,
Umas feições de anjo do Senhor...

Mas como é feio este ser quando se afasta
Da natureza angélica de origem
E revela dos anjos a outra casta,
Daqueles que amiúde nos dirigem.

A Guerra Arcaica dos Anjos prosseguiu
Desde o aparte das Trevas e da Luz
E pôs Lúcifer com a vela sem pavio.

Mas que poder tem ainda o anjo escuro
Com nome de que a chama ainda conduz... *
Porque Deus não o enterra num monturo?
.
29/07/2020

Nota
*Com nome de que a chama ainda conduz - Lembrando que o nome "Lúcifer" significa "portador da luz"...

Nuvens (de Alma Welt)

Sempre gostei de olhar as nuvens
Pela pura beleza que elas têm.
Não por sonho, devaneios de ir além
Ou só para prever quando tu vens...

As nuvens, caprichosas quanto sejam,
São linguagem de Deus (eu não duvido)
E não grudo na Porta o meu ouvido
Para ouvir o que dizem ou ensejam.

Nem sequer prevejo chuvas ou bonanças
E deixo que ocorram de surpresa
Mesmo surpreendida em minhas andanças.

Somos formigas, e não por nossa falhas
Olhadas lá do alto de uma mesa
A colher no chão as sobras e migalhas...

.
29/07/2020.

Dos que só falam mal do mundo (de Alma Welt)

Não suporto quem só fale mal do mundo,
Isso o faz perder qualquer valor
Pois já não tem como ir mais fundo
Em defesa de um gosto ou um pendor.

A negação do bem e da virtude
Nivela nosso mundo de contrastes
A um salar sem sal nem altitude,
Um plaino sujo juncado só de trastes.

Me lembro do relato da Anaïs .*
Que entre o pornógrafo brilhante
Do Miller e um Arthaud tão infeliz,*

Escolheu a amizade mais nutriz
Daquele pândego de riso constante,
Embora dela tão diverso de raiz....
.
29/07/2020
Nota
* Anaïs Nin - no seu famoso Diário, a escritora narra um período em que sua casa nos arredores de Paris era frequentada tanto pelo brilhante e debochado escritor outsider americano Henry Miller quanto pelo poeta e teórico de dramaturgia francês Antonin Arthaud, este amargo e neurótico ao extremo. Muito delicada mas amiga de ambos, fica no entanto claro quem ela preferiu para uma amizade de toda uma vida...

terça-feira, 28 de julho de 2020

O Turbilhão (de Alma Welt)

A vida em si mesma é sem sentido
Pois cabe só a nós atribuí-lo.
O comerciante a julga a metro e a kilo
Já o médico... o cadáver invertido.

Tudo é sem razão, tolo ou nonsense
Se não lhe emprestamos um valor
Conforme o que a alma um dia pense
Num dia ameno, de frio ou de calor...

Talvez se os poemas não houvessem
E as tramas do destino nos limitem
Sem o próprio tear em que se tecem

Nosso amor não teria testemunho
Que faz com que outros o imitem,
Num turbilhão de amor em redemunho...

.
28/07/2020

Nota
*Num turbilhão de amor em redemunho -
Nota-se que a Alma com este verso alude à imagem magistral do Segundo Círculo do Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri, de Paolo e Francesca Da Rimini no turbilhão dos amantes clandestinos, abraçados, sem pouso, infinitamente...

De trovadores e sonetistas (de Alma Welt)

Um poeta trovador jamais serei,
Daqueles andarilhos das aldeias,
Na estrada esfarrapando suas meias,
Mesmo assim convidados pelo rei.

Mas bem que o quisera em regressão
Pois destino melhor não imagino,
Já que não concebo uma invenção
Superior ao catavento, o pé e o sino...

Mas, pensando bem, sou sonetista,
O que é ser um menestrel atemporal
Ou uma espécie solitária de jogral,

Um coringa sem guizos e chocalhos
Apenas pra não dar tanto na vista
Como os que me encantam nos baralhos...

.
28/07/2020

A Síntese dos Poetas (de Alma Welt)

Conheci um ser que nada faz
E se recusa a qualquer atividade,
Apenas senta, levanta, leva e traz
As suas mãos vazias de saudade;

Só escuta o fluir do tempo mudo,
E se come é por necessidade
Para poder permanecer na vacuidade
De uma vida perfeita e sem estudo.

Perguntei-lhe de imediato: "Quem sois vós?
Como podeis viver sem fazer nada?
Sois uma alma viva ou só penada?"

E ele respondeu: "Sou um poeta,
Não qualquer, sou a síntese sem voz
Do que querias ser, ó Alma inquieta!"
.
28/07/2020

A Morte do Comendador (de Alma Welt)

Vi o Comendador curvo pra frente
Sobre a mesa de trabalho acumulado.
Logo afasta a fronte de repente,
Retira os óculos e os pousa com cuidado.

Depois retorce o corpo e se abaixa
À direita e abre uma gaveta
De onde recolheu a estranha caixa
E dela retirou uma escopeta.

Não soubemos nem no fim da história
Se o homem caiu de sua graça,
Sem escolha entre falência e moratória.

Já na boca o duplo cano (lembro a cena)
Apontando para um céu de altura escassa
Destampou a sua abóboda terrena...

.
28/07/2020

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Reino da Incerteza (de Alma Welt)

Entre os controversos sim e não,
No eterno Reino da Incerteza
Vamos nós ao sabor da correnteza
Enquanto outros vão na contramão.

Não há clamor unânime ou consenso
E quando há é tachado de burrice;
Não sinto mais firmeza no que penso
De mim mesma no governo sou o vice.

Como viver às cegas tateando
Se enxergo os dois lados sem escolha
Pois a mão que ponho está queimando?

Selastes os meus lábios, Meu Senhor,
E minh'alma, de forma com que tolha
A Verdade que estaria ao meu dispor...

.
01/05/2020

sábado, 25 de abril de 2020

Como minha saga começou (de Alma Welt)

Uma oportunidade a cada dia...
Eu diria, muito mais: revelação!
Eis o segredo com fundo de poesia,
A nós dado no momento da expulsão.

Vão pro mundo!"- O Anjo então diria...
"Mimados pelo Pai em demasia,
Agora quero vê-los ir à luta.
A Terra está a premio, e em disputa!"

Assim a saga começou num sonho meu,
Quando tive que lutar pelo meu chão,
Lembrando do que o Anjo prometeu.

E de simples costelinha sem juízo,
Transformada quase em fúria de vulcão,
Fui então reconquistar meu paraíso...


quinta-feira, 23 de abril de 2020

A beleza da Vida (de Alma Welt)

A beleza da Vida é inegável
Malgrado seu teor de crueldade.
O Ser que nos criou é Inefável,
Qualquer crítica é tola veleidade...

Entretanto Ele sorri pela manhã,
Quase sempre com sorriso luminoso
Como que passando mel em sua maçã,
Disfarçando o Seu fruto venenoso.

Como bondoso se diverte o nosso Deus!
Afirmo isso com o maior respeito,
Longe de mim ironia e desrespeito...

Pois Nosso Pai não cessa de enviar
Bebês fofos, tão lindos, pra ocupar
Vagas abertas pelo último adeus...

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23/04/2020

O Segredo da Alma (de Alma Welt)

O mundo é misterioso por demais...
Me refiro ao mundo humano, mais que tudo.
Certas ruínas só nos falam por sinais,
Como se fossem um defunto surdo-mudo.

Muito pouco sabemos de nós mesmos
Mas eu conto tudinho, mais e mais,
Exceto, claro, se como com torresmos,
Já que sou do Sul, não das Gerais...

Perdão, quero dizer, o meu mistério
É justamente abrir o peito como poucas,
Pois brincando em serviço falo sério.

Meu segredo? Anima Mundi, assim com i
Sou mais você e eu, todas as loucas,
E até um poeta, com quem me confundi...

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23/04/2020

O fio da salvação (de Alma Welt)

Meus amigos, se não fora sua presença
Em meus dias ricos e fecundos,
Seriam eles, em completa diferença,
Um deserto e o mais triste dos mundos...

"Queres nos subornar... é tudo fake!"
E eu replico: Quem ousa dizer isso?
"Sou um rio pro meu povo!"- grita o sheik *
Como eu, com o mesmo compromisso.

Nada peço, nem sequer passo o chapéu!
Se sonetos dou até em profusão,
São camelos pela agulha, em tropel...

Eis minha missão, embora estranha,
E pra mim é aquele fio da salvação *
Que era tão somente um fio de aranha...

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23/04/2020

Notas
* "Sou um rio para o meu povo!" - alusão à bela fala do sheik, aclamado pelo seu povo nômade em frente à sua tenda, interpretado por Antony Quinn no grandioso filme "Laurence da Arábia".

*... aquele fio da salvação- alusão ao maravilhoso conto "O Fio da Salvação", do livro Contos e Lendas do Deserto, de Malba Tahan, cujo sentido tem tudo a ver com este soneto da Alma.

Outra oração da Alma (de Alma Welt)

Quanto me destes, Senhor, de ter saudades...
Quase tudo eu gostaria de rever.
Menos, claro, umas pequenas, sim, maldades
Das quais muitas me envergonho, de doer.

Conheceis-me, Senhor, má eu não era
E sabeis que tenho puro o coração
Com manchinhas que saem com sabão,
Com muita esperança e pouca espera...

Sim, sou jovem, meu Senhor, mas mal o sinto
Com esta nostalgia de Infinito
Que com meus parcos anos não condiz.

E meus olhos, que me dais, azuis celestes,
Não se ajustam a este voo de perdiz
Para o tanto de céu que já me destes...

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23/04/2020

Arcobaleno (de Alma Welt)

Persisto na jornada toda em versos
Quatorze cada vez e aos pulinhos
Rimando dois a dois pouco dispersos
Ou logo em seguida, mais juntinhos...

Bah! Se fosse assim tão fácil, só de regras...
É necessário muito ter o que dizer,
E se com o dizer tu não te alegras
E bem melhor tu te calares ou morrer.

Tudo consiste numa espécie de prazer
Que move o poeta, quase um vício
Prazeroso, que não poupa sacrifício.

Mas que delícia, que veneno, é um tesouro
No final do "arcobaleno", pra valer,
Numa chave de rima e puro ouro...

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23/04/2020

Mão pro sal (de Alma Welt)

Deus me deu a mão para o soneto
E muitas vezes não paro de pari-los
A ponto (já que não me submeto)
Quererem-me abatida, sim, a tiros.

Mas que posso eu fazer? É mão pro sal
Se eu fosse dessas boas cozinheiras
Que, loucas, na cozinha, em frigideiras
Fazem quitutes pra recruta e marechal.

Depois, quem vai calar um estro desse?
Não devo nada a não ser ao Pai do Logos,
Que, se não me aplaude e solta fogos

Também não empata os meus sonetos
E nem disse, a quem cozinho, que comesse,
Deixando-me ao sabor dos meu galetos...

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23/04/2020

O toque divino ( de Alma Welt)

Cada um sabe de si, e Deus por todos...
Não aconselhe, vê, brioche não é pão.
Se fores dar severo toque ou empurrão,
Se não puder cercar, evite os lodos...

Cá estou eu de novo a aconselhar...
Se nem para terapeuta tenho jeito,
Nunca tive qualquer coisa a declarar
Mas declaro mais a torto que a direito.

"Cala-te boca!" amiúde me repito...
Ah! Se eu tivesse um coração mais sábio
Talvez se calasse ao próprio pito.

Preciso me lembrar da depressão
Deste toque divino sobre o lábio
Para calar o homem, embora em vão...

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23/04/2020


Nota
*Deste toque divino sobre o lábio -
Conforme uma "anedota" ou adendo ao episódio do Genesis
da Bíblia, mas contada no Talmude, Deus moldou o homem no barro e inspirou-lhe no rosto o sopro divino. Então meditando que isso faria o homem ter o domínio verbal do Logos, para limitar sua palavra já que a argila ainda estava mole pressionou seu lábio superior com o polegar produzindo esta pequena depressão vertical sob o nosso nariz, para selar nossos lábios quanto à Verdade que compartilhamos sem poder expressar...
O próprio Cristo, feito homem tinha essa marca sobre os lábios e como tal se calou ante a pergunta de Poncius Pilatus: "O que é a Verdade?"



O segredo do hospício (de Alma Welt)

Sei que a nós foi permitido retornar
À infância, nosso estado original
Antes do anjo-segurança expulsar
Por mal comportamento o tal casal.

Na verdade ninguém retorna adulto,
Pois por dentro somos todos só infante.
Quem chegar adulto perde o indulto,
E vai parar no Inferno como Dante.

Assim é o Paraíso... até naïf
Com perdão do galicismo, mero vício
De quem como outros gringos come beef.

Se me ponho a divagar como uma louca
É pra passar o segredo deste hospício:
Ninguém sai daqui com a mesma roupa...

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23/04/2020

Razões do Claustro (de AlmaWelt)

Deus recomendou-nos este claustro
Não foi o Mefistófeles, podes crer,
Pois este induzia um certo Fausto
À esbornia, ao delito e ao prazer.

E se te desagrada a quarentena
É porque nunca tu paraste pra pensar.
Se bem que pensar só concatena
Com quem já tem bife pro jantar....

Então voltamos ao estado original:
Se sais da toca e vais caçar talvez te salves.
Sempre um leão por dia ou um chacal...

A vida é luta, já dizia o índio velho
No Y-Juca-Pirama do Gonçalves. *
Tanta sabedoria, e mal me espelho...

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23/04/2020

Nota
*Y-Juca-Pirama do Gonçalves-
No outrora famoso poema Y-Juca-Pirama, de 1851, do poeta romântico indianista Gonçalves Dias, o velho cacique diz:


Não chores, meu filho
que a vida
é luta renhida
viver é lutar.

A vida é combate
que aos fracos abate
E aos fortes,
aos bravos,
só pode exaltar.

O Trem mambembe (de Alma Welt)

O Trem mambembe (de Alma Welt)

Neste mambembe trem de nossa vida
(para alguns poucos o trem é luxuoso)
A passagem não é graça, é só de ida,
E o bilheteiro tem um porte insultuoso:

Sorri o tempo todo o bilheteiro...
Alguns acham-no um tanto descarnado
E até se incomodam com seu cheiro,
Pobre ser subalterno e humilhado...

Tenha ou não o bilhete-moratória,
A Companhia o paga só pra retirar
Os passageiros de maneira aleatória.

Mesmo assim aproveitamos a viagem,
Nas janelas olhando a vã paisagem.
Como é belo o nosso triste viajar!...

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23/04/2020

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Cheiro de Mãe (de Alma Welt)

Cheiro de Mãe (de Alma Welt)

Viemos desarmados para a vida,
Sem garras, sem um dente e sem chifrinho
(alguns os desenvolvem de saída),
Dependentes... fora tetas, leite Ninho.

Mas como alto berramos, exigentes,
Mini-déspotas que somos ao nascer,
Sugando as energias e as mentes
Daquelas nossas pobres mães até morrer.

Mas como, de repente, com um cheiro
O senso se refaz, tudo é perfeito,
E o milagre se apresenta corriqueiro...

São essas madelaines da memória *
Em que o cheiro de mãe, o de seu peito,
Transforma o mal do mundo em pura glória.

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21/04/2020
Nota
*São essas madelaines da memória - Alusão ao célebre episódio das "madelaines" (um tipo francês de pãozinho doce) do primeiro volume de "A la Recherche du Temps Perdu" (obra-prima de Marcel Proust) em que o personagem narrador, adulto, refaz de súbito uma memória de infância, por um cheiro familiar.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Manhãs ensolaradas (de Alma Welt)

Manhãs ensolaradas (de Alma Welt)

Só preciso de manhãs ensolaradas
Pra delicada minha alma florescer,
Ainda que o chão brilhe de geadas
E pouco a terra tenha a oferecer.

Só não me dês, Senhor, névoas sombrias
Que me façam recordar a dor de ser
Ou viver como culpada, sem saber,
Por um fruto de promessas tão vazias.

Nem que isso soe mal, como descrença,
Senhor, minha alma é pura, eu reivindico
Pureza e inocência de nascença

Mesmo sabendo que hei de parir com dor
Sem que a terra tenha o meu próprio suor,
Vede com quão pouco alegre eu fico...

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21/04/2020

A vida é sonho dúbio (de Alma Welt)


A vida é sonho dúbio (de Alma Welt)

"A vida é sonho dúbio, meu amigo,
Às vezes cruza a linha, é pesadelo,
E se tens um ideal, um sonho antigo,
Francamente, bem farias em não tê-lo.

"Assim se expressava um meu colega
Lá na Universidade de Munique
Antes da ascensão da massa cega... "
E eu guria, escutava achando chic

As memórias de meu pai, de um outro mundo,
Que sendo eu tão apenas meninota
Queria mais ouvir, e ir mais fundo.

Mas pálido como quem de si desbota
Então dizia: "Vai correr pela coxilha!
Tens essa amplidão toda, vai, minha filha..." *

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21/04/2020

Nota
*Tens essa amplidão toda, vai, minha filha...  - O pai da Alma, Werner Friedrich Welt, que ela e seus irmão chamavam de Vati ( pr. Fáti = papai em alemão) estudou medicina na Universidade de Munique pouco antes da ascensão do nazismo, do qual fugiu, ao que tudo indica não sem antes de experimentar um período de cadeia. Por isso empalidecia quando começava a narrar suas memórias à sua filha predileta, que ele incentiva a desfrutar a amplidão de espaço da estância de seu pai, o avô da Alma, vinhateiro no pampa gaúcho.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Pequena paz no caos do mundo (de Alma Welt)

                                      Pequena paz no caos do mundo - ost de Guilherme de Faria, 2017, 30x40cm

Pequena paz no caos do mundo (de Alma Welt)

Fui lenta a perceber o caos do mundo
Pois na infância eu vivia em paraíso
Que é sempre a superfície nunca o fundo
E a verdade sempre chega sem aviso.

Mas eis que eu me defronto com a Morte
Quando ainda era uma guria
De pé diante de um rosto outrora forte
Então transfigurado em cera fria.

Mas foi preciso conhecer a outra face
Que é aquela da boca retorcida *
Onde chega toda a trama num impasse.

E entre as duas máscaras extremas *
Num processo lento e sem sistemas
Minha pequena paz foi a escolhida...

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20/04/2020

Notas


*Mas foi preciso conhecer a outra face
Que é aquela da boca retorcida

Onde chega toda a trama num impasse
(Alma se refere à máscara grega da tragédia,que na verdade é a verdadeira face do mundo.)

*E entre as duas máscaras extremas
Num processo lento e sem sistemas
Minha pequena paz foi a escolhida.
(Com este terceto a Alma está dizendo que entre as máscaras da tragédia e da comédia, ela encontrou uma intermediária a que se chega sem um sistema, mas por pura escolha, que é a máscara da "pequena paz...")

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Sonetinho de Natal (de Alma Welt)

Com Jesus estou acostumada
Desde guria com a sua cruz,
Mas que Madalena era sua amada
Confesso que até eu também supus.

Só não venham com falsas novidades
De atividade duvidosa descoberta,
De politicagens e "verdades"
Como coisa lógica e até certa...

Pra mim ele deu um salto imenso
Do Jesus Cristinho de Belém
Como nele em geral ainda penso.

Por isso amo muito seu Natal
Pois para o coração ele é neném
Com burrinho, manjedoura e coisa e tal...

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25/12/2018

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Eu, heterônimo I ( de Alma Welt)

Confesso, sonhei grande, tola eu era,
Fui em busca do meu sonho de guria,
Tão ingênua a perseguir uma quimera
Ser poeta e viver da minha poesia...

Mais tarde descobri que ser poeta
É o mais miserável dos amores,
E a triste razão de tão seleta
É que a fome é o premio dos melhores.

E claro, existem os poetas diplomatas
Que, pobres funcionários de escritório,
Não passam de modestos burocratas.

Mas na dimensão poética, só, viver
Para mim se tornou obrigatório,
Um caminho bem mais digno do ser...

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15/02/2018

domingo, 9 de setembro de 2018

O Último Soneto (de Alma Welt)

Eis-me fiel de mim, depois de tudo,
De todos os percalços desta vida,
Amando o amor claro e desnudo
Mesmo quando ao abismo me convida.

Acusada de tardio romantismo,
Submissa me mantenho ao coração
Numa era de feroz pragmatismo
Ou de escolha da política paixão...

"Volta, Alma, à tua Vinha decadente
E limita-te às sagas do teu vinho",
Dizem eles (que não na minha frente).

Se a beleza não conseguem enfrentar,
Como podem barrar o meu caminho?
Minha poesia caminha em pleno ar...

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09//09/2018

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Mudar a vida (de Alma Welt )

Quantas vezes pensei no abandono,
Não de mim, mas da Poesia, esta miragem
Que vem como o sonho dos sem sono
Ou dos que muito sonham e pouco agem.

Vontade de mudar somente a vida
(não o mundo, que este não tem jeito),
Uma mudança completa, comovida,
Como alento derradeiro do meu peito...

De que estás a falar, ó Alma Insana?
Por acaso esqueceste o Criador,
Acaso crês que está ao teu dispor?

Báh! Sei que a cauda o cão jamais abana,
E nem pretendo correr como uma lesma:
Senhor, quero mudar só a mim mesma...

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03/08/2018

domingo, 22 de julho de 2018

A melhor rosa (de Alma Welt)

Estamos vivendo a Kali Yuga,
Um velho indiano o disse a mim.
Eis que hoje a Razão está em fuga
E no princípio estamos, mas do Fim.

Visto isso, fiz as malas, fui de volta
Ao pampa e ao meu velho casarão
Onde caminho alegre e sem escolta
Ao compasso de meu próprio coração.

Quantas vezes o mundo se acabou
E renasceu de suas cinzas fumegantes
Como a Fênix que o grego imaginou...

Então voltei ao jardim da avó Frida,
Colhi a melhor rosa, como antes,
E meu mundo reiterou sua acolhida...

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22/07/2018

Nota
Tanto Oswald Spengler (1880 – 1936) em "A Decadência do Ocidente", quanto o filósofo italiano setecentista Giambattista Vico (1668 — 1744) , em "La Scienza Nuova", expuseram um ciclo da História em quatro fases (Teocracia, Aristocracia, Democracia, Caos). O ciclo quadripartido de Spengler é derivado de Goethe, como o de James Joyce provém de Vico. Tanto Goethe como Vico desenvolveram a ideia a partir da sequência das quatro Idades da mitologia grega (Idade de Ouro, de Prata, de Bronze , de Ferro), que por sua vez é a contraparte do Círculo hindu dos Quatro Yugas (Krita, Treta, Dvapara, Kali),
(Augusto e Haroldo de Campos em Panaroma do Finnegans Wake, Editora Perspectiva, 1971)

Historicamente estaríamos vivendo a Kali Yuga, ou o Caos.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Viver bem (de Alma Welt)

Viver bem é difícil, é complicado,
Mas viver mal qualquer um pode viver.
Assim, a maioria aceita o fado,
De quem não planta pra colher.

De biquinho aberto só esperando
Que a mamãe-estado traga o lanche
E já de bucho cheio protestando,
Querendo decolar baixando o manche.

Sem liberdade não há nenhuma vida,
Só um arremedo de existência,
Tampouco se terá casa e comida.

Eis tudo o que meu pai, por experiência,
Me dizia: Jamais creia nos vermelhos.
São vampiros, nem refletem nos espelhos...

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20/07/2018

Estou triste (de Alma Welt)

Estou triste, meu amor, eu sinto tanto
Não poder ostentar o meu sorriso...
Tudo vai mal no meu país e não diviso
Uma luz, nem a saída por encanto.

"Tudo vai ficar bem", repete o gringo
À exaustão em seus filmes idiotas
Tentando impingir suas lorotas
Em que não acredito nem um pingo...

Eles estão esperando ainda o Elvis
Com seu tradicional jogo de pelvis,
E os Ets, de preferência maus e feios.

Quanto a mim, espero Mozart, Beethoven
E Chopin... E de dentro dos meus seios
Um Van Gogh que agora todos louvem.

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20/07/2018

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Labirinto (de Alma Welt)

No labirinto do mundo das idéias
Transcorre nossa vida atarantada,
Tateando as paredes e as teias
Buscando uma saída ou escapada.

Olhar pra cima é preciso, no entanto:
A tenda azul sobre nós se estende
E nos dá asas para fuga, por encanto,
De penas que com cera a gente emende.

Sem olhar para o céu não há saída
Aprendamos a fluência com as nuvens
Que em chuva transformam sua descida.

Que o orgulho nossas asas não dissolva,
Ó Sol, que a nós, só por clemência vens
Mas não toleras o falso que te louva...

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19/07/2018

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Era uma vez (de Alma Welt)

Meus amores, quanto amor fico devendo
Neste meu egotismo empedernido,
Voltada para mim, eu mesma sendo
O centro de todo o meu sentido...

Mas que posso eu fazer, me perseguindo
Cada dia para mais me conhecer
Se me creio ao mundo todo pertencer
E estar tudo, com todos, compartindo?

Era uma vez uma pequena ninfa ruiva
Deslumbrada pelo senso de beleza
Que via ao seu redor, na natureza...

Mas Narciso com tal ninfa se encanta
E nela coube ou entrou como uma luva
E olhando pra si mesmo, o mundo canta...

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18/07/2018

terça-feira, 17 de julho de 2018

O Portal do poeta (de Alma Welt)

Viver no limiar de alguma porta,
Uma iluminação ou um portal,
A revelação que mais importa,
Como a ideal extinção de todo mal...

Eis o timbre ou tom de minha vida
Conquanto só pareça presunção
Já que sou pequena e atrevida,
Muito mais teoria e sonho, pouca ação...

Mas a Poesia é isso, reino à parte,
Onde pode o poeta quase tudo
Desde que, hábil, domine sua arte

Com o direito de chorar, também sagrado,
Nem que seja aquele pranto mudo
Que perpassa o bom poema, disfarçado...

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17/07/2018

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Esperando a Boda (de Alma Welt)

Uns querem construir uma casinha
E outros tantos uma torre de Babel.
A humanidade não quer estar sozinha *
Sendo só sete bilhões, aí ao léu...

Queremos nosso Cosmos povoado
Tão absurda é a nossa solidão,
Mas não da nossa espécie, o mesmo quadro,
Já que mal suportamos nosso irmão.

A vida é um Teatro do Absurdo,
Certo estava Ionesco ao encená-lo,
Nesta Tróia estamos todos no cavalo. *

Não adianta MacDonald ou MacMurdo, *
Acabaremos explodindo a coisa toda
Quando de Urânio chegar a nossa Boda...*

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16/07/2018
Notas
*A humanidade não quer estar sozinha - Alma se refere ao fato de não querermos estar "sozinhos" (!!!) no Universo, esperando a vinda dos ETs, esquecendo que somos sete bilhões de humanos e um sem número de espécies de animais sobre a nossa Terra...

*A vida é um Teatro do Absurdo/
Certo estava Ionesco ao encená-lo - Alma se refere ao dramaturgo franco-romeno Eugene Ionesco, que criou o Teatro do Absurdo, com peças como "Os Rinocerontes", "A Cantora Careca" e outras, que enfatizam a falta de sentido intrínseco da vida humana, isto é, o absurdo cotidiano que vivemos sem perceber...

*Nesta Tróia estamos todos no cavalo - com este engenhoso verso, Alma sugere que Tróia é o nosso planeta sitiado, e nós, humanidade, estamos dentro do traiçoeiro cavalo de madeira que o destruirá por dentro.

* MacMurdo
Early Origins of the McMurdo family
The ancient Dalriadan kingdom consisted of the Hebrides islands, and the rugged mountains of Scotland west coast. The name McMurdo began in this region; it was a nickname for a seagoing warrior. The Gaelic form of the name is Mac Mhurchaidh, which means son of the sea warrior.
The surname McMurdo was first found in Argyllshire (Gaelic erra Ghaidheal), the region of western Scotland corresponding roughly with the ancient Kingdom of Dál Riata, in the Strathclyde region of Scotland, now part of the Council Area of Argyll and Bute, where they held a family seat from early times and their first records appeared on the early census rolls taken by the early Kings of Britain to determine the rate of taxation of their subjects.

* Na verdade o nome deste clã escocês está no soneto da Alma somente para rimar com "absurdo" e enfatizá-lo. Já o MacDonald sugere a globalização que popularizou o nome de um clã escocês através de uma rede mundial de fastfood, o que por si só é também absurdo... rrrrrrsss

*Quando de Urânio chegar a nossa Boda - Alma, com este verso, dado que existem as bodas de prata, ouro, diamante, etc, sugere que quando passar um determinado tempo do nosso casamento com a bomba atômica, isto é, da nossa convivência pacífica com ela adormecida após Hiroshima, nós a explodiremos fatal e comemorativamente.

Meditação sobre o Fruto (de Alma Welt)

Um direito foi dado à Adão e Eva:
Da Vida um comodato ou usufruto
Desde aquela manhã triste e primeva
Pois o Senhor não recobrou o Fruto.

Já o tínhamos digerido mal e mal
(a bronca nos deu certa indigestão)
Mas jamais achamos que é normal
Tanta ira, desatino e confusão.

Senhor, que Ciência é essa, Bem e Mal,
Se escolher bem ainda não sabemos,
Já que não nos vem com o manual?

Mas agradeço eu, por minha conta,
O agridoce ainda que mal dele lembremos,
Pois nossa Arte a tal sabor remonta...

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16/07/2018

Jonas, Jó e eu (de Alma Welt)

Um retorno é o que busquei na minha vida.
Não à simples infância de inocência
Mas à felicidade plena, concebida
Em momentos puros de existência

Que ainda são a base do meu canto:
Flores colhidas no jardim de minha avó
Escutando com delícia e espanto
Incríveis fábulas de Jonas e de Jó.

Nada mais apreendi, vida ou ciência,
Que não se referisse àqueles mitos
Fundadores de moral e consciência.

Não vi o ventre da baleia como Jonas,
Nem como Jó vivi no Vale dos Aflitos,
Mas meus próprios caminhos foram Romas...

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16/07/2018

domingo, 15 de julho de 2018

Aferição (depoimento) (de Alma Welt)

Quantos erros cometi na juventude!
Quantas dores inúteis, mágoas, quanta...
Causadas pela mera incompletude,
Solidão essa que a gente mesma planta.

Nasci velha e pra ser jovem demorei;
Sofria a dor da morte antecipada,
Que no pacote parecia vir, que herdei,
Meras lousas na colina, hoje nada.

Um dia afinal olhei no espelho
E vi a minha face destinada,
Além do meu cabelo tão vermelho,..

E então iria aferir, dia por dia,
Se não o sentido da jornada,
Beleza que nos passos se escondia...

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15/07/2018

sábado, 14 de julho de 2018

O ovo do poeta (de Alma Welt)

Ser poeta é pensar tudo de novo,
A história do mundo a cada verso,
É refazer o sentido do universo,
Como quem bota de pé um novo ovo.

É preciso que inventes novas flores
E até máquinas se isso, a ti, te apraz,
Mas que, inúteis, produzam novas cores
Não metáforas de guerra, mas de paz.

Como um lavrador em suas lavras
Mas no âmbito infinito das palavras
Não como faz-de-conta ou um bem-me-quer.

Pois tudo nasce primeiro de um projeto
Que vê num ovo o ser puro e completo
Acalentado num ventre de mulher...

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14/07/2018

A espada louca (de Alma Welt)

De estar no mundo, a dor imensa
Que a muitos não ocorre como a mim
Tornou a minha vida muito densa
Como se cada instante fosse o fim.

Bem, Alma... isso cheira à lenda
De Damocles, o daquela espada louca.
Mas se não tens nos olhos uma venda
Também não dormes como ele, nem de touca.

Vida e Poesia para ti é uma mistura
E já não manténs nítida a fronteira,
Estás mesmo a um passo da loucura.

E há pessoas que pensam que os versos,
No mais ingênuo e feliz dos universos
São pura e inocente brincadeira...

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14/07/2018

Sob a lua e as estrelas (de Alma Welt)

Eu vivo sob a égide da lua
Mas também das estrelas imortais,
No compasso de uma dança lenta e nua,
Ao som do coração e nada mais...

"Ora, Alma, és uma delirante antiga,
Estás fora de moda e não atinas.
Não pareces jovem, minha amiga,
Tens as maneiras demasiado finas."

E eu, poeta, eterna deslocada
Mas semi-consciente do ridículo
De me querer a sério ser levada,

Quisera andar de novo sob estrelas
Qual piá, mantendo o mesmo vínculo,
Do jeitinho que eu costumava vê-las...

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14/07/2018

Entre o amor e a ciência (de Alma Welt)

"O futuro é projeção de nossa mente,
Mero fruto da imaginação nossa,
Que modificamos lentamente
Ou nos obsessiona até a fossa..."

Assim dizia a analista, minha doutora,
Olhando o seu pulso com olhos bravos
Como quem meu tempo monitora
Em tempo real e de centavos.

"Está à tua espera um grande amor",
Dizia minha cigana impagável
Que belamente me mentia sem pudor...

E entre uma e outra eu alternava,
Já que o destino era mutável,
E eu amava tudo... e nada amava.

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14/07/2018

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Inferno, Purgatório, Paraíso (de Alma Welt)

"Inferno, Purgatório e Paraíso,
Alguns sabem: são aqui mesmo na Terra."
Assim dizia minha avó em bom juízo
E acho que a Verdade isto encerra...

O Inferno é muito fácil de encontrar,
Tanto que podemos nós mesmos fazê-lo:
Basta somente não saíres do lugar
Assistindo o injusto, ou mesmo sê-lo...

De imensas manadas território,
O Purgatório é ainda mais comum,
O encontras no lar e no escritório.

Já o Paraíso, quer pouco das retinas
Mas demanda de tua alma o modo zum
Para o veres nas coisas pequeninas...

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13/07/2018

sábado, 7 de julho de 2018

Resumo da Ópera (de Alma Welt)

Caminhar como se houvesse rota,
Uma trilha aprazível na floresta,
Eis aí o bom recurso que nos resta
Ante os males que formam nossa quota.

Boa providência é não queixar-se
Dos destinos mais duros entre nós.
Mas é comum ao homem lamentar-se
Ou rebelar-se em versos logo após...

Se tudo é em vão e a Morte é certa,
A nós cabe viver como imortais
Tal é o sonho que a vida nos desperta.

A vida é no Eterno um só mergulho
Mas que nos leva a perpetuar os ais
De nossas dores, nos versos, com orgulho...

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07/07/2018

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O Mundo da Alma (de Alma Welt)

"Alma, não sejas, do mundo palmatória..."
(me lembro de meu pai me aconselhar)
"Afasta-te do maus e toda escória,
E não fica a lhes morder o calcanhar."

"Em polêmicas também tempo não percas.
A vida é curta para discussões mesquinhas
Mas cuida teus mourões, linhas e cercas;
Pelo cercado também zela... das galinhas."

Mas eu achava até aquilo deprimente...
Que me importava do mundo a mesquinhez,
Quem ligava pra lentilhas, se era lente?

Em disputas eu jamais iria entrar. *
A emenda de um soneto... sim, talvez,
Isso era tudo o que eu iria reformar...

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05/07/2018

Nota
Na verdade, Alma iria se meter numa imensa disputa com sua irmã mais velha Solange, pela herança de seu pai, isto é, a estância, o vinhedo e o casarão. Este é o tema do grande romance da Alma Welt intitulado A Herança, uma verdadeira saga de família, que aconselho os amigos a lerem. Está publicado em e book pela Amazon e está inteiro num dos blogs da Alma. (vide Google: romance A Herança, de Alma Welt).

terça-feira, 3 de julho de 2018

Ressurreição (de Alma Welt)

Não tinha mais por quê e nem por onde,
Não sabia mais o quando e o como,
Sem atinar por trás o que se esconde,
Enfiava a carapuça, o gorro e o domo.

As perguntas terminavam sem respostas,
E via tudo se acabar antes do fim;
Meus navios naufragavam em minhas costas,
Não encontrava mais despojos nem de mim...

Então puxei-me pela ruiva cabeleira
Como aquele barão mestre das mentiras,
Alçando-me da movediça areia.

Como milagre tudo então se refazia:
Eu que estava com o coração em tiras,
Eis que amava como quando era guria...

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03/07/2018

segunda-feira, 2 de julho de 2018

O Mistério de Caim (de Alma Welt)

Abel era pastor, Caim plantava;
Deus acolheu o sangue de um cordeiro
Mas não o que os ares perfumava:
Boas ervas e o trigo do celeiro.

Ninguém perguntou a razão disso
Já que Deus não tem o comum senso,
Co'a lógica nunca teve compromisso,
Pairando bem acima, vago, imenso...

Mas meditando encontrei a solução:
O Senhor nunca vê o ato em si,
E enxerga o profundo coração.

Deus é um cozinheiro da pesada:
A inveja de Caim, eu compreendi,
Junto com suas ervas foi plantada...

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02/07/2018

sábado, 30 de junho de 2018

Frios de Julho (de Alma Welt)

Frios antigos, de Julho, tão amados
Malgrado o meu severo minuano,
Que desde o território castelhano
Sempre vinha por aqui dar os costados...

Eu amava caminhar pelo vinhedo
Envolta no meu pala, e com luvas,
Quando eu acordava muito cedo,
Meu vaporoso hálito entre as uvas...

E emanando de uma densa cerração,
Silêncio plano, pleno, inigualável,
Com um dedo a fazer ssshhh ao coração.

Mas de repente um grito de rapina
Muito agudo, rascante e implacável,
Abrindo no meu sonho uma ravina...

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30/06/2018

sexta-feira, 29 de junho de 2018

A verdadeira vida (de Alma Welt)

Belas manhãs de inverno em nossa estância
Quando todos levantávamos cedinho
Para olhar a geada no caminho
Da escola rural da nossa infância...

Foi tantas vezes esta rota percorrida
Que, como era sempre a mesma,
Eu então me perguntava se minha vida
Deixaria só o rastro de uma lesma...

Sim, o Tempo era lento e arrastado
Pois numa esteira rolante eu me sentia
Tendo atrás cenário belo, mas pintado.

Mas ah! quando um livro eu abria
O mundo era bem mais movimentado
E a verdadeira vida aparecia...

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29/06/2018

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Cantos de amor (de Alma Welt)

"Como posso o meu amor cantar
Se tantos já o cantaram bem melhor?
Se os mais sublimes saberei de cór
Ou de imediato deles vou me apropriar?

Assim dizia por candura a minha amiga
Que pensava ao Amor algo dever
Enquanto eu a afagava sem intriga,
Pois ela já o cantava sem saber...

O coração se abre, não apreende.
Seu erro é inocente o mais das vezes,
E um tanto de beleza sempre rende.

Que mudo seja não conheço amor:
Seu canto ainda dura muitos meses
Depois que as cinzas perderem seu calor...

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28/06/208




Love Songs (by Alma Welt)
(transliteration by Lucia Welt)

"How can I my love sing smart
If so many have sung it much better?
If the most sublime I will know by heart
Or will I immediately read the letter... "

So said by candor my friend
Considering she was in debt to the love
While I stroked him without lend
Because she already sang it like a dove.

The heart opens, does not apprehend.
His mistake is innocent most of the time,
And some beauty always stand...

I do not know a love that can not sing
His singing still lasts in ryme
After the ashes lose their heating ...

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06/28/208

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Os risos perdidos (de Alma Welt)

"Os poetas são tristonhos, Deus me livre!"
Assim se expressou a minha irmã
Quando eu era pequena, uma manhã,
E foi como um choque que então tive...

Não! Meus dias seriam muito alegres,
Escreveria uma Ode à Alegria
E gatos pretos não daria, mas só lebres,
"Não serei uma chorona", eu disse... e ria.

O tempo passou, vieram os mortos
Então voei, viajei para outros portos
E levei comigo sua lembrança...

Então voltei e me olhei no espelho,
Meu cabelo ainda era vermelho,
Mas meu riso não era o da criança...

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27/06/2018

A eterna rebelião (de Alma Welt)

Vão-se as horas e os dias como folhas
Levadas por imponderável vento,
Tornando inúteis e falsas as escolhas
Ou reduzidas a inerte pensamento.

"Tudo é inútil"... me diz a consciência,
Mas meu coração é posto em brios
Pela vaidade resistente, em calafrios
Sacudindo-me na minha desistência.

Tão desqualificado orgulho humano!
Como se erguem os fracos e vencidos
Para um novo levante ou novo engano...

Senhor, se não queríeis rebelião
Por que nos poupastes, presumidos
E tão vaidosos da Arte e da Razão?

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27/06/2018

Anti-poesia (de Alma Welt)

Minha prudente ex babá, a Matilde
Temia que eu ficasse pra titia
Com a minha mania nada humilde
De dedicar corpo e alma à Poesia....

Já contei isso mil vezes, na verdade,
Mas o faço agora pra mim mesma
Não só devido a esta saudade
Que está a tornar-me uma abantesma,

Mas porque minha saudade é o meu melhor
Já que não carreguei ressentimento,
O que por certo seria bem pior.

Me perdoem, estou a ser conceitual
Isto aqui não é poesia, é pensamento.
Quero voltar a ser poeta, meu normal...

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27/06/2018

A parábola convexa (de Alma Welt)

Sim, cada um de nós possui uma quota
De alegrias e tristezas alternadas
Para fruídas serem ou suportadas,
Exceto o homem fútil e o janota:

Estes vivem qual se fácil fosse a vida,
Risonhos cegos na beira do abismo
Ou bêbados pra quem álcool é a comida,
Ou idiotas que ainda creem no comunismo.

Assim falava meu pai, a mim, perplexa,
Que era só uma guria inocente
Querendo mais ser feliz eternamente...

E então, numa parábola convexa
Morreu meu pai e sua morte confirmou
O abismo cego, que só ele me alertou...

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27/06/2018

terça-feira, 26 de junho de 2018

As rosas no pó (de Alma Welt)

"O mistério da Razão, eis o mistério
Que desafia a própria razão nossa,
Pois ela é Deus em forma de critério
Ou o Diabo de nós fazendo troça"...

Assim dizia Frida Welt, minha avó,
Que ao podar rosas, retirando larvas
E ervas más que compartilham nosso pó,
Não eram necessárias nem palavras...

Minha avó era em si alegoria,
E eu sabia que se ela fosse muda
Suas ações teriam igual sabedoria.

Morreu Frida e eu voltei ao seu jardim
E só encontrei pó, terra desnuda;
Plantar rosas só cabia agora a mim...

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26/06/2018

sábado, 23 de junho de 2018

Em louvor de Alma Deutsher (de Alma Welt)

https://youtu.be/Nz0OAcYknyw

Em louvor de Alma Deutsher,
(prodígio musical infantil)(de Alma Welt)

Muitos de nós voamos muito raso, 
Muito já nos arrastamos sobre os pós,
Há quem não creia, pois, nos anjos entre nós
E no entanto há alguns deles ao acaso.

Alma Deutsher, eu a ti reverencio
Pois percebi tuas pequeninas asas
Invisíveis que são pro olhar vazio
Da maioria de nós em nossas casas...

Mas ao ver-te e ouvir-te ao piano
Eu caí de joelhos de imediato,
Admirada de estares neste plano.

Anjo puro de beleza e de talento
Tua origem celeste é, pois, um fato,
Tua música é Deus por um momento...

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24/06/2018

Palavras de minha avó (VIII) (de Alma Welt)

Se mantiveres o coração bondoso
Estás salva, não te corrompeste.
A bondade é ainda o maior teste
E da integridade o mais honroso.

Repara, todo desonesto é mesmo mau
Pois sabe bem que está prejudicando
E age torto como se fosse o normal,
E na ponta não estar alguém matando.

Então, minha Alma, eu bem te compreendi,
Quando tu te recusaste, eu percebi,
A brincar daquela "dança das cadeiras".

É bem possível viver sem disputar
Como também sem passar rasteiras,
Quanto mais pisar cabeças pra galgar...

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23/06/2018

Palavras de minha avó (VII) ( de Alma Welt)

Quando afinal, Alma, ao mundo fores,
E então perdida na grande multidão
Te lembrarás de mim entre estas flores,
Este jardim, a varanda, o casarão...
.
E lembrarás que eras feliz e mal sabias
Com esta tua inquietude de saber
Tudo aquilo que com olhos teus não vias
E só sabias de ouvir falar ou ler...

E por fim perceberás que não havia
Nada aqui que não fosse essencial,
Que não tivesse do mundo uma fatia.

O todo está inteiro em cada parte
Por isso é cada minuto tão fatal,
Por isso a verdadeira vida é Arte...

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23/06/2018

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Um simples resfriado (de Alma Welt)

Um simples resfriado ou dor de dente
Põem abaixo o ânimo do herói
E revela a imagem decadente
Que, inútil, nosso esforço, só, constrói.

Tal é a patética humana condição,
Que o astuto Ulisses aceitava
Em conversa com Circe meio brava
Por ele recusar sua ascensão.

Mas esse homem, frágil entre procelas,
É capaz de novamente alçar as velas
E enfrentar os deuses irritados...

O sonho de voltar, eis o segredo
De toda humana força no degredo
Deste mundo, mero campo de exilados.

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20/06/2018

terça-feira, 19 de junho de 2018

Fundamentos do absurdo (de Alma Welt)

Absurdos são a vida e o mundo
Diante da Razão que nós herdamos
Quando num impulso de um segundo
Fruímos do tal fruto que furtamos...

Nada mais fez sentido, fez-se o caos.
Muito antes da torre de Babel
Já estávamos confusos, tolos, maus;
Caim, coitado, já fizera seu papel.

Tardou-nos perceber que o Paraíso
Continuava a ser nosso cenário,
Pois formamos antagônico juízo.

À beleza que nos oprime agora
Contrapomos o nosso imaginário
Em que a inveja de Caim ainda mora...

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19/06/2018

Teoria e Técnica da invisibilidade (de Alma Welt)

Aplicada, minha mãe quis me ensinar
As estratégias pra invisível me manter,
Começando por deixar de escrever
Asas cortando-me para eu jamais voar.

Ela dizia: "Minha filha, fique quieta
E se possível muda como um peixe.
Entretanto caminhe sempre ereta
E não de lenha carregando um feixe."

"Jamais fale de si mesma ou da família.
O sofrimento esconda por indigno;
Misture-se depressa com a mobília .

"Amaldiçoa em ti tua poesia
Renunciando afinal a esse teu signo
Rebelde, que me olha com ironia..."

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19/06/2018

domingo, 17 de junho de 2018

O poder secreto da Poesia (de Alma Welt)

Às vezes penso que brincar com a Poesia,
Como lidar com a integridade de uma célula,
É confundir borboleta com libélula
E esquecer do átomo a energia.

Porque que sinto que a poesia é poderosa
Pois traz em si, secreto, algo latente
Muito além do que pode a simples prosa
Que muda um conteúdo ou continente,

Não que possa causar uma explosão
Ou o simples poder mágico de um gozo
De transfigurar a vida e o mundo,

Mas um poder de coração pra coração,
Como o boca a boca milagroso
Para quem, de si mesmo, viu o fundo...

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17/06/2018

A fonte secreta da Poesia (de Alma Welt)

Em que estás a pensar?- arguía meu pai
Como o facebook agora o faz...
E eu pensava cá comigo: Agora vai,
Vou abrir-me e talvez consiga a paz.

Mas não: meu coração tem um segredo
Que não consigo claramente exprimir,
Não por pudor, incompetência ou medo
Mas porque é denso demais pra dividir;

Ele é fonte da poesia como um surto
E que carrego qual pecado original
Ou trago comigo como herdeira,

Como a pulsão de Adão e Eva para o furto,
Anterior ao simples ato criminal
A que seguem as desgraças como esteira...

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17/06/2018

sábado, 16 de junho de 2018

O Medo (de Alma Welt)

Tenho medo da solidão da Morte,
Como o Corisco no meio da caatinga, *
Medo do frio que sobrevém ao corte,
E do silêncio que finalmente vinga.

Tenho medo do aniquilamento
Do ego longamente acalentado
Para nada, ou vislumbre de momento,
Para logo se apagar não anotado,

Duas datas somente, o tal resumo
Da ópera que foi a nossa vida,
Talvez um epitáfio como sumo.

Por isso arte, Arte, luta contra o Nada
Uma ilusão talvez, ingênua lida
Da alma eternamente inconformada...

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16/06/2018

Nota
*Tenho medo da solidão da Morte,
Como o Corisco no meio da caatinga - Alma está certamente aludindo ao belo monólogo do cangaceiro Corisco de São Jorge, o Diabo de Lampião, no filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol", vivido  maravilhosamente pelo grande ator Othon Bastos,  na obra-prima de Glauber Rocha: "Tenho medo da Morte, Silvino. Tenho medo do frio e da solidão da Morte... " No filme segue-se uma maravilhosa oração de fechamento do corpo do personagem Corisco, sempre em forma de monólogo poético.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Divina Justiça (de Alma Welt)

Clamei: Senhor, vejo justiças desiguais:
Pois conosco foram expulsos os animais
Que sem terem provado Vosso fruto
Vagam eles na terra em estado bruto,

Lutando, sofrendo, trabalhando
Como se deles também fosse o pecado,
Somente a dura terra não lavrando,
No mais, igual pesado e duro fado...

Francamente, não entendo essa "Justiça"
Que junto com seu dono pune o cão
Assim como a gazela e o leão.

E Deus me disse: "Ó Alma insubmissa,
Espera que tua batata está assando!
Está boa, Eu Mesmo andei provando"...

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15/06/2018

Sem conselhos (de Alma Welt)

Na vida sempre evitei aconselhar,
Nunca me verão dar um conselho,
Mas meus pecados me veem até rolar
Como bola de estrume o escaravelho.

Ousar ditar regras não é comigo,
Talvez seja centrada em meu umbigo
E assim sou exemplo de não ser;
Disponham, não precisam agradecer.

Me disseram porém que causo inveja
E fiquei perplexa com a notícia:
Comemorei com rima falsa de cerveja.

Enxergo a nudez nossa sem malícia,
Não como à roupa daquele pobre rei,
Que às vezes me dou conta de que a herdei...
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15/06/2018

Minha bela Moira (de Alma Welt)

De tempos em tempos dou com ela,
A Moira, que parece me gostar
E me aborda com um olhar que mela
E um sorriso lindo, de encantar.

Mas, Alma, não é assim que a Moira é vista!
A julgar pelo que lemos nos compêndios
A aparência dela é mais sinistra,
Mais como mendiga em seus remendos...

Com um chapéu de plumas demodé
A convidar-nos para a acompanhar no "thé",
Outros mesmo a veem como Madame.

Mas minha Moira é jovem e sedutora:
Me dá vontade de com ela ir embora
Desta minha bela ópera de arame...
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15/06/2018

O Trato (de Alma Welt)

A vida exige certo afastamento
Para ser plenamente aproveitada.
Demasiado envolvidos no momento
Não enxergamos do todo quase nada.

"Mas, Alma, não propões o "aqui e agora"?
Não consiste nisso a tua doutrina?"
Ora, amigos, isso apenas foi outrora,
Joguei tal filosofia na latrina...

Para fruir da vida o puro extrato
Fiz com o meu anjo um simples trato:
Que me deixasse preservar minha criança.

E assim vivo agora duas vezes:
Emendando meus sonetos de revezes
Com as minhas memórias de abundância...

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15/06/2018

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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Francamente ... ou Os Pelicanos (de Alma Welt)

Vivo às custas de pintura e de poesia,
Ballet, cinema, ópera e até drama,
Somente isso o fardo me alivia
Sem o que nem sairia da minha cama.

Sem Arte a vida é idiota, francamente,
Me perdoe dizer isso, meu Senhor...
É verdade que contamos com o Amor,
Também Arte, ele, pura e simplesmente.

Reparem que sem esse recurso
O que vemos é um simples debater-se,
Ou da insensata nau diário curso.

Talvez mero ir e vir do mercadinho,
Com sacolas cheias a romper-se,
Pelicanos voltando para o ninho...

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14/06/2018

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O Camaleão (de Alma Welt)

Ver o mundo pelo prisma da poesia
Não é de modo algum dourar a pílula.
O poeta, sim, delira ou se extasia,
Sem do mundo mudar nem uma vírgula.

Também não é pura aceitação,
Não, de puro conformismo não se trata
Descobrir a beleza ao rés do chão
Quando, de quatro, seus próprios cacos cata.

Fidelidade não se julga, puro fato,
Nasce como as cores de uma flor
E determina não destino, mas pendor.

O poeta é multicor camaleão:
Me é difícil apontar predileção
Ao tornar-me tudo aquilo com que trato.

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13/06/2018

terça-feira, 12 de junho de 2018

Não me cobrem (de Alma Welt)

Vim ao mundo para dar minha poesia,
Não me cobrem senão o gênio ou quase,
Não queiram que eu trabalhe ou case,
Só um pouco de beleza a cada dia.

"Saí de casa, só com massa e pita".
Lembram do pequeno Malazarte?
Sou a última talvez que ainda o cita,
Exemplo de matreiro engenho e arte.

Minha beleza ajuda, é verdade...
Não falo isso, bem sabem, por vaidade
Quanto a isso não posso fazer nada.

Este meu fardo, bem sei, parece leve:
A solidão é uma tara não notada
Ao pesar-se na balança o que se deve...

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12/06/2018

As rosas de minha avó (V) (de Alma Welt)

"De lágrimas este mundo é mesmo o Vale,
Todavia embelezá-lo nós podemos,
Ou pelo menos deixá-lo "meno male",
Dificultando as coisas para os demos."

Minha avó alsaciana assim dizia,
Já por conta cultivando suas rosas
Que eram suas dádivas honrosas
Nesse processo simples de poesia

Que era não somente em si a flor,
(que esta vem na conta do Senhor)
Mas na sua relação tão paciente.

E eu ficava observando a velha dama
Que mudava o mundo em sua mente,
Sortilégio de quem quase tudo ama...

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12/06/2018

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Tributo (de Alma Welt)

Disse o bom padre: "A vida é para dar, *
Não para receber". Foi o que disse
Ajuntando, ao que Valjean ia roubar,
Um castiçal pra que partisse....

Nunca me esqueço do episódio
Fundamental daquele grande livro
Que li quando meu pai era ainda vivo
E que me eliminou da vida o ódio.

Fui viver a minha vida em plenitude
Norteada, pois, por tal sabedoria,
Entregando de mim tudo o que pude.

Se não esperas receber, então és livre
Entre aqueles a quem falta a Poesia,
A miséria é só pedir,  mal sobrevive...

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11/06/2018

Nota
*"A vida é para dar, não para receber."Frase fundamental, que muda a trajetória e o destino do personagem Jean Valjean no monumental romance Les Misérables, de Victor Hugo.

domingo, 10 de junho de 2018

O artista e sua lenda (de Alma Welt)

Indo ao mundo, saindo de minha cama,
Não demorei a perceber certo desprezo
Que mundo revelava, frio e teso,
Pelo artista genial antes da fama.

E meditando sobre isso, percebi
Que do soneto mesmo vale a emenda,
E o mundo aprecia mais a lenda
Que a própria criação, a obra em si.

Pensei até cortar-me uma orelha:
(não era mais, felizmente, original)
E ainda aprecio demais meu visual...

A sofrer muito, também, embebedar-me
Sem necessitar tal fogo, na centelha,
Preferi a alma nua: o desvelar-me.

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10/06/2018

Últimos conselhos de meu pai (de Alma Welt)

"Já não és, Alma, guria como antes
E estás prestes a voar, a ir ao mundo...
Eis um conselho útil: sim, vá fundo,
Mas cuidado com os "insinuantes"!

"Quem são eles? São aqueles prestativos
Demasiado sorridentes e gentis,
Charmosos demais, demais ativos
Naquelas vênias e obséquios servis".

Sombras saídas das literaturas
Eu ouvia meu pai atentamente
Tentando imaginar essas figuras...

Já não crendo no mundo, no seu gozo,
O desencanto emanava de sua mente
E eu olhei meu belo pai: estava idoso...

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10/06/2018

sábado, 9 de junho de 2018

O Primado da Inocência (de Alma Welt)

Quisera ser alegre, ó meus amigos,
Rir à toa como em tempo de criança,
Correr por correr em meio aos trigos,
Nos cabelos uma flor ou uma trança;

Olhar todas as pessoas com olhos bons
Exceto quando torvas suas feições,
Porque quem vê da cara os meios tons
Vê por certo, com acerto, os corações.

Acreditar que a vida é uma aventura
Excitante, sempre rica de vivência,
Por dela enxergar a essência pura;

Reconquistar, não qualquer sabedoria,
Mas aquela do primado da Inocência,
Que por pouco a gente não perdia...

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09/06/2018

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Spengleriana * (de Alma Welt)

Tudo está perdido e então vivemos
Nossas "possibilidades extensivas";
A descida é longa, então rememos
Contracorrente como sombras vivas.

De quê falas, Alma? Sê mais clara,
Estás a falar como as esfinges...
Essa prosa enigmática mascara
Uma desesperança que mal tinges?

Então concordas que o barroco
Foi auge da cultura do ocidente?
Crês que o Van Gogh foi um louco?

A decadência é longa e agonizante,
Nosso Poente mergulha lentamente
Em miséria cultural apavorante...

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08/06/2018

Nota
*Spengleriana - relativo à Oswald Spengler (1880 –1936) historiador e filósofo alemão que escreveu "A Decadência do Ocidente" em dois tomos, que parece, a julgar por este soneto, ter impressionado a Alma Welt. Segundo Spengler, o período barroco foi o auge da Civilização Ocidental, na pintura mural, por exemplo, culminando com a arte de Tiepolo (!!). Por sua teoria, do século XIX em diante, grande obras de arte que porventura surgiram e ainda surjam, são apenas "possibilidades extensivas" (expressão criada por ele), já que a decadência de uma civilização sempre se arrasta por séculos. Seu livro causou grandes controvérsias. Nota: Spengler não foi nazista e se opôs à teoria da superioridade racial e por isso foi expulso da Alemanha.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Profecia de cigana (de Alma Welt)

É difícil sabermos onde estamos
Nessa nossa estranha trajetória,
Pois com a sorte mesmo não contamos
Nesse mapa que é, às vezes, palmatória.

Sempre tive um certo fraco por cigana,
Quanto mais brega, cafona, charlatã.
Um tanto sinistra, quase insana,
Uma delas descreveu meu amanhã:

"Alma",- disse- "serás lida pelo mundo,
Não só por teus cabelos vão amar-te,
Mas já estarás num sono bem profundo.

E eu saí daquela tenda aliviada:
Póstuma sempre é a verdadeira arte,
Nada de novo que eu não soubesse... nada.

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06/06/2018

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Segredo do Soneto (de Alma Welt)

O grande segredo do soneto
Consiste nele se escrever sozinho
Bastando um mote ou moteto,
Um teclado, uma tela e um ratinho.

Mas sem a inspiração, o que nos resta?
Pergunta quem acha isso um mistério...
Eu respondo: na verdade é o critério
Que não deixa passar o que não presta.

Ora, Alma, isso é puro Descartes,
Sem o anjo que sopra somos nada,
E o poema mero fruto de descartes...


Bem... concordo, meu anjo paira e zela
Pela última sílaba lançada
Para só então soprar a minha vela.

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04/06/2018

O primeiro contato (de Alma Welt)

Tenho saudades, o tempo todo quase,
De mim, de minha pureza e inocência
Perdidas pelo fruto da ciência
Que busquei a partir de certa fase.

Eu quis saber do mundo pelos livros,
Depois in loco, aí, pelas estradas,
Mas fatos e pessoas eram mais vivos
Nas páginas escritas e ilustradas.

Meio abúlica pareceu-me a humanidade
Que pensei em despertar meio tossindo,
Tal era a minha, sim, curiosidade...

Só me lembro de gente indo e vindo
E de alguém que me olhou e ficou rindo.
Qual se eu é que não fosse de verdade...

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04/06/2018

domingo, 3 de junho de 2018

Ideal (de Alma Welt)

Para elevar o mundo a um ideal
Não temos base para a comparação;
O que vem de nosso âmbito mental
A marca leva, já, da imperfeição.

Do ideal, portanto, eu tenho medo
Pois é dele que deriva a derrocada,
Depois da opressão (parte do enredo),
O naufrágio, o fracasso da empreitada.

Alma poeta, não és idealista?
Como pode não sê-lo, uma artista...
Bem melhor o mundo quem não quer?

Estava escrito: "Ideal" (mote do orgulho),
Estandarte na mão do próprio Lucifer,
Antes da guerra, da queda, do mergulho...

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03/06/2018

sábado, 2 de junho de 2018

O Medo (de Alma Welt)

Deus não falou no "medo", em seu furor,
Limitando-se a citar suor e pão
E também ao terrível parto em dor,
Estes anátemas cruéis da expulsão.

Mas o medo... báh! o medo os supera
Como perfeita maldição a qualquer um,
Pois se a morte incontornável nos espera
Bem podia ser banal, sem dor, comum...

Mas não! Esse fantasma nos assombra
Pois de um minuto vivido, salvo e são,
Era do minuto a própria sombra.

Medo: lado mais mesquinho do castigo,
Nos retira o sabor do próprio pão
E duplica a dor que o parto traz consigo.

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02/06/2018

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O poeta sorri (de Alma Welt)

Muita gente tateia como cega
Num mundo de teor indefinível.
O poeta, rebelde, não se entrega
Ao nível mais rasteiro do visível.

Visionário? Talvez... mas do real
Em sua forma mais perfeita
A que alguns chamam de Ideal
E pensam que se trata de receita...

O olhar desvelador é privilégio; 
Para alguns talvez cause receio
Para outros, supremo poder régio.

O poeta tateia em outro nível,
Como cego em meio ao tiroteio
Sorri, pois como corpo, é invisível.

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01/06/2018