sábado, 14 de novembro de 2020

A Ordem e o Caos (de Alma Welt)

"Manter-te íntegra num mundo em confusão,
Será o que te espera em desafio..."
Disse meu pai, me lembro, num serão,
Num momento em que eu só sentia frio.

Mas, pai (eu disse), que confusão é essa?
Será acaso este minuano frio?
Tenho o pala que me deste. É quente à beça.
Vou buscá-lo e não mais darei um pio. 

Meu pai olhou-me e sugou o chimarrão,
E disse: "Alma, vejo em ti a ordem pura,
Que do caos é a verdadeira salvação... "

"Quem como tu conserva essa candura,
Sem deixar de ser, também, inteligente,
Está salva, e segura, certamente..."
.
14/11/2020

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Beleza e Amor (de Alma Welt)

"Alma, és um enigma"- disse alguém.
E eu me fiz um ar dúbio de mistério
Com um vago sorriso meio sério,
Assim, entre o deleite e o desdém...

Mas, é claro, pouco tempo suportei,
O riso transformou-se em gargalhada.
Sou assim: não levo a sério quase nada
Para além da voz poética que herdei.

"Da visão que sem querer, Alma, nos legas,
A Beleza só em parte te pertence
E por certo é um fardo que carregas..."

Olhei então a raiz da minha tristeza:
Se a solidão do belo só Amor vence,
Meu Amor se confundira co'a Beleza...
.
13/11/2020

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Alma no balanço (de Alma Welt)

                                  Alma no balanço - o/s/t de Guilherme de Faria, 2018, 100x100cm

Alma no Balanço (de Alma Welt)

Armo com cordas um balanço em meu pomar
Na mesma árvore que viu a minha queda
Quando guria, que inocente quis me dar
Só ao ser que meu senso ainda seda.

E me ponho a balançar quando estou só
O que me faz lembrar e ver mais claro
Que ao desfazer da memória um certo nó
Me sobe na garganta, engulo e paro...

Mas minha árvore do fruto da razão
Não logra me dar conta de um pecado
Que de mim já nasceu com meu perdão

E me vejo cada vez mais inocente,
Retornando ao paraíso de repente
No embalo do meu balanço alado...
.
12/11/2020

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Espelho meu (de Alma Welt)

Jurei jamais cobrir meu belo rosto
Sequer pra mero efeito de disfarce,
Pois com máscaras não me sinto a gosto
E nunca trairia a minha face. 

Hoje de manhã me olhei no espelho
E há tempos, acreditem, o não fazia.
Vi que o branco rosto meu sobressaía
Na moldura natural de tom vermelho. 

E perguntei, pois gaiata, não me manco:
"Espelho, espelho meu, seja bem franco,
Não me mintas jamais pra me agradar..."

E o espelho respondeu, pra meu espanto:
"Alma, um dia certamente vou trincar,
Até lá garantirei o meu encanto..."
.
11/11/2020

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

A Caverna dos Gigantes (de Alma Welt)

Acordando de mim mesma parti cedo,
Levando meu caderno de poesias
Como mapa do tesouro, mas sem medo
Das minhas próprias e intrincadas trilhas.

Logo encontrei a Caverna do Soneto
Coruscante de pepitas e diamantes
Mas vi que era um pátio de gigantes
E com eles, por certo, não me meto. 

Gravado estava o nome de Petrarca
Também o de Shakespeare estava à vista
Onde Dante deixara a sua marca.

Luzindo, o nome de Camões eu deparei, *
O Polifemo que encabeçava a lista
Com Florbela e Pessoa... e acordei.
.
09/11/2020

Notas
*Luzindo, o nome de Camões eu deparei -
Trocadilho com a palavra luso (português)...
 
*O Polifemo que encabeçava a lista -
Alma designa Camões, que era caolho (perdeu um olho em batalha em Ceuta) com o nome do gigante (Titã) de um olho só, da Odisseia de Homero, que morava numa caverna que Odisseu e seus homens invadiram.


domingo, 8 de novembro de 2020

O Eterno Retorno (VII) (de Alma Welt)

Uma vida bem vivida é uma epopeia,
Mas me refiro mesmo às bem modestas,
Até aquelas de fogão ou de boleia,
Não dos que se esgueiram pelas frestas.

O desastrado, o perdedor e o canhestro,
Esses ocupam a base de amplo rol
Junto ao pobre sonetista com seu estro,
Que mal desfruta o seu lugar ao sol.

Mas de perto, todos eles, todos nós
Estamos numa nave entre perigos
Para voltar e refazer nossos umbigos.

Chegar à nossa casa, nosso porto
Edificado pelos nossos pais e avós
E fruir a maçã do antigo horto...
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08/11/2020

Aos meus antigos amores (de Alma Welt)

Meus amores, quanta pena tenho
Não de nosso leito o desempenho,
Mas do quanto empenhei de amor e arte,
De vós distante, de nós, em outra parte...

Alguns, desdenháveis do meu verso,
Do meu suposto "vício" da poesia,
Me pondo no minúsculo universo
De cama e mesa, depois louça na pia...

Mas eu vos canto, sim, pra compensar.
Éreis todos belos, ternos, imaturos,
E mesmo hoje gozo só de vos lembrar.

Creio tendes me esquecido porventura
Aqueles dentre vós que eram mais puros,
Porque nos outros, eu sei, não tenho cura...
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08/11/2020

As Origens do Mal (de Alma Welt)

Cedo apreendi o que era o Mal, apenas
Ao ver braços estendidos às centenas
De homens de uniformes, "di profilo",
E perguntei ao pai o que era aquilo...

E o velho desfiou teia de horrores
Que ele viu de perto na Alemanha
De sua juventude a mim estranha,
Eu mestiça de Germânia e de Açores.

E disse que o embrião veio da Itália
Dos romanos de uma era imperial
Que conquistaram a pobre velha Gália...

Mas na mordida da maçã em vez do figo,
Que começou bem ali no meu quintal,
Percebi um Mal, então, bem mais antigo...
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08/11/2020

sábado, 7 de novembro de 2020

Vingança Sutil (de Alma Welt)

Construir meu mundo foi preciso
Depois que fui flagrada no jardim,
Embora original não seja isso,
Que a todos cabe e não somente a mim.

Viver é recompor-se após o trauma
Da expulsão brutal de um paraíso.
Uns ficam aleijados em sua alma,
À espera só do Dia do Juízo...

Então consultei minha rebeldia
E cheguei rapidamente à conclusão
De uma vingança sutil em alegria...

E o consigo a ponto de girar,
Num frenesi de amor feliz e solidão
Com os braços abertos para o ar...
.
.
07/11/2020

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Celebração (de Alma Welt)

Se celebro a cada dia minha vida,
Com um verso, um soneto, uma canção,
Esperando de mim mesma a acolhida,
Não façam ao Narciso uma alusão...

Me mantenho assim jovem e bonita
E não só para sair-me bem na fita
Mas por pura gratidão ao meu destino,
Que também Eco não sou, mas violino.

A beleza me impuseram como pecha
Para não reconhecerem-me outros dons,
Ocultando o arco hábil desta flecha... 

Mas não quero me queixar, fruir apenas,
Essa tão lenta mutação sutil de tons
A alvejar-me o ruivo das melenas...
.
06/11/2020

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O livro proibido (de Alma Welt)

Nenhum livro nosso pai nos proibia
Dentre aqueles milhares das estantes
Que os olhos percorriam, hesitantes,
Até que um dedo afinal os escolhia. 

Mas leria eu a todos, eu sabia...
Eram questão de tempo e tão somente,
Pois cada livro deixava uma semente
Que no volume seguinte cresceria..

Mas, meu pai um dia um livro proibiu
Tirando da minha mão que mal o abrira,
Conquanto o único interdito entre mil.

Mas qual foi, lhe prometi não revelar
Pois há árvores que não devo plantar,
Que a roubada Razão nossa nos retira...
.
05/11/2020

Infinitos jardins (de Alma Welt)

Sei que posso governar o mundo em mim,
Mas somente dentro em mim, ó meu amigo.
Minha alma é pois, sabeis, o meu jardim,
E os espinhos, os tolero e não persigo...

Mas pulgões e ervas daninhas não suporto,
E há tempos já me pus em pé de guerra;
Por isso, às vezes, este meu olhar entorto:
É que aqui dentro ocorre a luta pela terra. 

Cada um tem seu jardim, ao infinito,
Embora muitos queiram o contrário,
E o livre arbítrio nulo ou interdito...

Mas se Deus nos permitiu a liberdade
E não nos castigou pondo no armário,
Nos perdoou, Suas crianças, na verdade...
.
05/11/2020


quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Extremo Sul (de Alma Welt)

Eu vi chegar o peão cambaleando
Montado em sua sela meio troncho
Com uma mancha rubra no seu poncho
E foi logo em meus braços desabando.

Fomos ao chão: era pesado o infeliz,
E antes mesmo que a relva nos colhesse
Na pobre testa o sinal da cruz lhe fiz
E era como se já o conhecesse... 

De sua boca aproximei o meu ouvido
E suas palavras derradeiras escutei
Com um espanto que eu nunca tinha tido:

"Morro, Alma, nos teus braços, não no chão,
Pois direto para o Inferno enviei
O maldito que te nomeava em vão..."
.
04/11/2020

Far South (by Alma Welt)

I saw the cowboy stagger
Mounted half crooked in his saddle
With a red spot on the poncho
And soon he was collapsing in my arms.
We went to the ground: the unfortunate was heavy,
And before the grass even caught us
On his poor forehead I made the sign of the cross
And it was as if I already knew him ..
I brought my ear close to his mouth
And his final words I heard
With a wonder I never had:
"I die, Alma, in your arms, not on the ground,
Because I sent straight to hell
The bastard who named you in vain ...
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Free transliteration with rymes:

Far South (by Alma Welt)

I saw the cowboy stagger maddle
Mounted half crooked in the saddle
With a red spot on his darms
And soon he was collapsing in my arms.
We went to the ground: was heavy, the unfortunate
And before we lay down on the moss
On his poor forehead I made the sign of the cross
And it was as if I already knew him for a long date
I brought my ear close to his mouth
And his final words went to my brain
With a surprise I never had eard about:
"I die, Alma, in your arms, not on the ground,
Because I sent him straight to hell, like a mad hound,
The bastard that called you names in vain

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O Aceno (de Alma Welt)

Eis-me como quase em selva escura
Quando penso meu jardim ter alcançado.
Mal avisto de meu lar a forma pura
Da casa e sua varanda de sobrado...

Mal enxergo no jardim minha avó Frida
A conversar com seus botões perfeitos,
Como também de meus cães a acolhida
De seu amor tão cego aos meus defeitos.

Um silencio de uma paz de quarentena
Paira denso a começar pela varanda
Em que meu próprio vulto ainda acena.

Então ocorre, a mim, que esteja pronta,
E ao imortal coração que me comanda,
De que morri faz tempo e não dei conta...
.
02/11/2020

sábado, 31 de outubro de 2020

Vã Filosofia (de Alma Welt)

Da Ignorância, sob o signo,
Não sabemos a que veio tudo isto.
Alguns de nós fechados com Mefisto,
Nosso papel é triste e pouco digno.

Não saber sequer nosso destino...
O ser em penumbra e vacilante,
Lá fora o escaldante sol a pino
Somos cegos em torno do elefante.

Entre o céu e a terra tudo é vão,
Disse um bardo irônico e sagaz
Que sabia todavia um pouco mais.

Lembre: o anjo enxotou-nos do Jardim
Pela nossa incoercível inclinação
Para os meios, desconhecendo o fim...
.
31/10/2020
Notas
Alguns de nós fechados com Mefisto -
alusão ao pacto de Fausto com o Diabo encarnado no personagem Mefistófeles (ou Mefisto) , no célebre drama "Fausto", de Goethe.
*Somos cegos em torno do elefante -
Alusão à famosa parábola indiana dos sete cegos e o elefante.
*Entre o céu e a terra tudo é vão- alusão à famosa frase do Hamlet (de Shakespeare): "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia".
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Para que os amigos de língua inglesa:

Vain Philosophy (by Alma Welt)

Of Ignorance, under the sign,

We don't know what all this came to.
Some of us closed with Mephisto,
Our role is sad and unworthy.
Not even knowing our destiny ...
The shady and wavering being,
Outside the scorching sun
We are blind around the elephant.
Between heaven and earth everything is vain,
Said an ironic and canny bard
Who knew a little more, though.
Remember: the angel chased us out of the Garden
For our unavoidable inclination
For the media, not knowing the end ...
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*Some of us closed with Mephisto -
an allusion to Faust's pact with the Devil embodied in the character Mephistopheles (or Mephisto), in Goethe's famous drama "Faust".
* We are blind around the elephant -
Allusion to the famous Iindian parable of the seven blind and the elephant.
* Between heaven and earth everything is in vain - allusion to Hamlet's famous phrase (by Shakespeare): "There is more between heaven and earth than our vain philosophy dreams about".
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And now a free translitration with rymes:
 
Vain Philosophy (by Alma Welt)

Of Ignorance, under the sign,

we don't know what all this came to.
Some of us closed with Mephisto,
our unworthy role is not fine.
Not knowing our destination is not fun,
of dark beings we are a kind.
Under the scorching sun,
around the elephant we are blind.
Between heaven and earth everything is vain,
said an ironic and cunning bard,
although knowing a little more is hard
Remember: in the garden the angel still stands
and it's blocking our curious brain
not for the media, but for the ends...
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Que, por sua vez, traduzida fica assim:

Vã Filosofia (por Alma Welt)

Da Ignorância, sob o signo,
não sabemos a que veio tudo isso.
Alguns de nós fecharam com Mephisto, *
nosso papel indigno não está bem
Não saber o nosso destino não é divertido,
de seres escuros, somos uma espécie.
Sob o sol escaldante,
em torno do elefante somos cegos.
Entre o céu e a terra tudo é vão,
disse um bardo irônico e astuto,
embora saber um pouco mais seja difícil
Lembre-se: no jardim, o anjo ainda está de pé
e está bloqueando nosso cérebro curioso
não para os meios, mas para os fins...

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Onírica bisonha (de Alma Welt)

São patéticos os meus sonhos reais:
Me vejo sempre entrando pelos canos,
Tentando, louca, só sair de uns locais
Embrulhada em jornais ou sujos panos.

"Alma, o que é isso?" (me disseram já alguns)
"Não reveles, por favor, isso a ninguém!
Seria como se contasses dos teus puns,
Não faria à tua imagem nenhum bem..."

Mas realista romântica que eu sou,
Que de quase nada mais tenho vergonha,
Celebro, pois, minha "onírica bisonha"...

Esse patético da humana condição
Me fascina e com ele monto o show,
Comediante do meu próprio coração...
.
30/10/2020

As Bodas de Caná (de Alma Welt)

"A cada novo dia as más surpresas
De dores, ameaça e desistência...
Quê esperam, jovens tolos, fáceis presas,
Do maligno fantoches da demência?"

Assim falava nosso padre confessor,
Para nós, pobres guris amedrontados,
Uns rindo, é verdade, outros calados,
Alguns mesmo em puro estado de terror.

Então me levantei e disse séria:
"Sabemos, Monsenhor, a vida é dura,
Mas aqui fomos poupados da miséria."

E o bom padre calou-se, deu guinada,
Retomando do Evangelho a linha pura
Contou da água em vinho transformada...
.
29/10/2020

Agora uma tradução literal para o inglês:

The Wedding at Cana (by Alma Welt)

"Every new day the bad surprises

Of pain, threat and withdrawal ...
What are you waiting for, young fools, easy prey
From the evil a demential puppets? "
So our priest confessor spoke,
For us, frightened poor kids,
Some laughing, it is true, others silent,
Some even in pure state of terror.
So I got up and said seriously:
"We know, Monsignor, life is hard,
But here we were all spared misery. "
And the good priest fell silent, turned,
Taking up the pure line of the Gospel
He told the water transformed into wine ...
_______________________

Agora uma transliteração livre para o inglês com rimas,) embora perdida a métrica, deixando de ser soneto: 

The Wedding at Cana (by Alma Welt)

"Every new day the bad surprises

Of pain, threat and withdrawal arises...
What are you waiting for, young fools, easy prey
From the evil the demential puppets way? "
So our priest confessor spoke with hate
For us, frightened poor kids, in a date,
Some laughing, it is true, others silent,
Some even the pure state of terror rent
So I got up and said seriously:
"We know, Monsignor, life is hard,
But here we are'nt in misery, obviously.
And the good priest now seams in a silent ward,
Taking up of the Gospel a pure line,
He told the water transformed into wine ...

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A chegada do Tempo (de Alma Welt)

Envolto em trevas o Tempo Negro vem
De penumbra dolorosa carregado,
E um silêncio triste encomendado
Preenche os ares de sinistra nuvem.

Desconhecidos entre nós os seus sinais,
Malgrado a carga de experiência
De tempos idos todavia mais fatais,
Nos enchem de um pavor quase demência.

E eu, que o Tempo Oculto bajulava
Através deste meu polido espelho
Agora o ouço bater a minha aldrava.

E vejo pálidos fugirem meus amigos
Pelos fios do meu cabelo tão vermelho,
Toda a plêiade dos meus deuses antigos...
.
28/10/2020
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So that my eventual friends of the English language can enjoy:

The arrival of time (by Alma Welt)

Wrapped in darkness, the black hour arrives
Of painful charged darkness,
And a sad silence ordered
Fills the air with an ominous cloud.
Its signs are unknown to us,
Despite the load of experience
From days gone by, however, more fatal,
They fill us with dread, almost insanity.
And I, that hidden time flattered
Through this polished mirror of mine
Now I hear him hitting my knocker.
And I see my pale friends running away
Through the strands of my hair so red,
All the infinity of my ancient gods...
__________________________________

And now a free transliteration with rymes:

The arrival of Time (by Alma Welt)

Wrapped in darkness, the black hour arrives
Of painful charged darkness as knives,
And a sad silence ordered aloud
Fills the air with an ominous cloud.
Its signs are unknown to our existence
Despite the load of experience
From days gone by, however, more fatal,
They fill us with dread, almost insanity, at all.
And I, in that hidden Time in flattered way
Through this polished mirror against all odds
Of heard him hitting my knocker, came the day.
And I see my pale friends running away
Through the strands of my hair so red and gay
All the infinity of my ancient gods...

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Meus hóspedes (de Alma Welt)

Me perdoem alguns fiéis leitores
Que à minha infância retorne, tão amiúde.
Se cresci até agora o quanto pude
Foi pra melhor enxergar todas as cores.

Não posso me furtar a esta saudade
De mim mesma em torno ao casarão
Que agora eu mesma assombro, na verdade,
Com as memórias que deixei em cada vão.

Alguns que me visitam a meu convite
Depois de pernoitar se vão correndo
Porque de noite o casarão se põe gemendo...

Mas garanto que nem tudo é bem assim,
Os "farrapos" cá estiveram antes de mim,*
E ainda hospedo Anita em seu limite... *
.
27/10/2020
Nota
*Os "farrapos" cá estiveram antes de mim/
E ainda hospedo Anita em seu limite... -
*"Farrapos", assim eram chamados eram os revolucionários da Guerra dos Farrapos , ou "Revolução Farroupilha" contra os "imperiais".
Alma diz que a Anita Garibaldi ainda assombra o casarão da estância que agora é dos Welt, mas da qual foi hóspede durante um momento daquela guerra, vivendo agora no "limite" entre os vivos e os mortos...
_________________________

A "mídia" da Alma (de Alma Welt)

Nada mais me liga ou mesmo empolga
Do que escrever o meus rimados versos,
Que não os faço em momentos vãos de folga,
Mas como mediadora de universos.

És estranha, Alma, isso é mania!
Ninguém mais com tal mídia se importa.
Não batem mais os jovens na tua porta
Pois teu soneto é já "coisa de tia"...

Mas na contramão eu sempre estive;
Nunca algo fazendo de encomenda
Mas sem compromisso e sempre livre.

Quantos deles podem isto assim dizer
Em língua que por ora ainda se entenda,
E que pode, de repente, os comover?
.
17/10/2020

A rota do poeta (de Alma Welt)

Talvez tenha vocação para o patético
E ante os dois extremos de conduta
Entre o bufo e o melodrama ético,
Uma risada me vence na disputa.

Mas a tragédia, bah! é uma vertigem
Que me colhe a alma como um laço.
Na verdade só a ela se dirigem
As minhas farsas grotescas de palhaço.

Não procuro o fracasso ou a derrota
Mas ao escolher a via do poeta
Talvez perdi como Dante a vera rota.

Mas meu inferno é doce, comparado
A outros que escolheram a mesma meta,
Ao colher flores sofridas neste prado...
.
27/10/2020

As confissões da Alma (de Alma Welt)

O velho pároco, amigo de meu pai
Que costuma vir aqui na nossa casa
Nos dá sua benção enquanto vai
Roendo uma coxinha ou uma asa.

Longe de mim criticar o velho padre
Que só requer a minha doce confissão
Embora tenha um pouco de comadre
No leva e traz sutil de seu sermão. 

"Alma", diz ao retirar-se, já na porta
Sinal fazendo, da cruz, na minha testa:
"Quero saber como a guria se comporta..."

"Pelos pecados, pai (respondo), que cometo,
À confissão minha alma já se presta,
Mas somente em cada verso do soneto"...
.
27/10/2020

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Poeta, escultora (Alma Welt)

Quando desperto dos meus curiosos sonhos
Corro ao teclado antes mesmo do café
Já que os sonetos vêm, alguns bisonhos,
Que certas vezes me dão vergonha, até.

Deixo passar, talvez, os "pé-quebrados",
Pois a Alma é imperfeita se encarnada,
Por isso mesmo é que será julgada,
Mas duvido que por versos abortados...

E se por versos mesmo me edifico,
Não feita de tijolos e argamassa,
Mas escultor na pedra após a massa,

Cada lasca retirada, em mim mais fico,
Sendo eu mesma e não o meu oposto,
Para extrair assim meu próprio rosto...
.
26/10/2020

Perguntas no Jardim (de Alma Welt)

Era um verso a primeira frase dita,
Após o furto do tal pomo da Razão?
Era um poema a primeira discussão?
A poesia resultante foi maldita?

Estas questões colocadas só por mim
Não encontrarás na boca de ninguém,
Mas dei com elas neste meu belo jardim
Que outro horto ecoa... o primo Éden. 

Fazes somente perguntas descabidas
Para tuas vãs respostas escolhidas,
Tens a mente ociosa, disse alguém...

De versejar tiveste a permissão,
Não especules mais num vai e vem
Pelo teu gosto, Alma, dúbio, da razão.
.
26/10/2020

domingo, 25 de outubro de 2020

O Leque de Kardec (de Alma Welt)

"Só amamos quem nos foi designado"
(assim falava aquela dama no jantar
com o marido apático ao seu lado)
"... o resto vem pra nos manipular."

E o meu pai assentia, de olhos sérios
Mirando a lady inglesa com seu leque,
Que se dizia iniciada nos mistérios
Do Oriente e igualmente no Kardec.

E eu, guria, vi o pobre do marido
Liberando um suspiro tão discreto
Que eu somente, acredito ter ouvido.

Então fui pr'o jardim das minhas estrelas,
Deixando os adultos, sob o teto,
Que julgavam, sem olhá-las, saber lê-las...
.
25/10/2020
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Agora a tradução literal para o inglês:

The Kardec Fan (by Alma Welt)

"We only love those assigned to us"

(so that lady spoke at dinner
with apathetic husband at her side)
"... the rest come to manipulate us."
And my father nodded, with serious eyes
Aiming the English lady with her fan,
That was said initiated in the mysteries
From the East and also at Kardec.

And I, girl, saw the poor husband
Releasing such a low-key sigh
That I alone, I believe I heard.
So I went to the garden of my stars,
Leaving the adults, under the roof,
Who thought, without looking how to read them ...
.
25/10/2020
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Agora uma transliteração livre para o inglês (tomando grandes e graciosas liberdades) a fim de conservar rimas, embora com prejuízo da métrica, deixando de ser soneto:

The Kardec Fan (by Alma Welt)

"We only love those assigned to us"
(so that lady spoke at dinner with pride
with apathetic husband at her side)
"... the rest come we find in a bus."
And my father nodded, with serious eyes
Aiming the English lady with a fan, she at back,
That was said initiated in the mysterious guys
From the East and also at Kardec.

And I, girl, saw the poor husband
Releasing such a low-key sigh: uuuuf!
That I alone believe I heard as a band.
So I went to my stars of Betlehem,
Leaving the adults, under the roof,
Who thought, without looking, how to read them ...
.
10/25/2020
_________________________

Eis como fica a reversão para o português da transliteração pro inglês com rimas (a mim me parece bem graciosa....) :

O Leque de Kardec (por Alma Welt)

"Nós só amamos aqueles que foram atribuídos a nós"
(assim aquela senhora falou no jantar com orgulho
com o marido apático ao seu lado)
"... o resto a gente acha num ônibus."
E meu pai acenou com a cabeça, com olhos sérios
Visando a senhora inglesa com um leque, ela atrás,
Que se dizia iniciada nos caras misteriosos
Do Oriente e também em Kardec.
E eu, menina, vi o pobre marido
Soltando um suspiro tão discreto: uuuuf!
Que só eu, acredito, ouvi como uma banda.
Então eu fui para o jardim das minhas estrelas de Betlehem,
Deixando os adultos, sob o telhado,
Que pensavam, sem olhá-las, saber lê-las ...

A viajante mental (de Alma Welt)

Viajei pelo mundo em minha mente
Por muitas nações e em alguns séculos,
E quando o fiz bem mais restritamente
Apenas os confrontei com meus espéculos:

Eram bem menos reais e interessantes
Aquelas ruas e pedras milenares
Contrastando com pedestres aos milhares,
E os carros prosaicos e incessantes.

O mundo é semelhante em toda parte
No dia a dia nosso, pelo menos,
E eu o reconstruo em minha arte...

Mas seria uma poeta de somenos
Não fosse esta empreiteira de reformas
A manter as mesmas pedras, mesmas formas...
.
25/10/2020
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Agora uma tradução literal para o inglês:

The mental traveler (by Alma Welt)

I traveled the world in my mind
For many nations and in some centuries,
And when I did it much more strictly
I just confronted them with my mirrors
They were much less real and interesting
Those ancient streets and stones
In contrast to pedestrians by the thousands,
And the prosaic and incessant cars.
The world is similar everywhere
In our daily lives, at least,
And I reconstruct it in my art ...
But it would be a little poet
Were it not for this reform contractor
Keeping the same stones, the same shapes ...
.
25/10/2020
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Agora uma transliteração livre para o inglês , conservando rimas (embora sacrificando a métrica, e deixando de ser soneto):

The mental traveler (by Alma Welt)

I traveled the world in my mind
For many nations and in some horrors
And when I did it much more strictly I find
That I just confronted them with my mirrors
They were much less real or interesting
Those ancient streets and stones and something
In contrast to pedestrians
And the prosaic cars and no equestrians.
The world is similar everywhere
In our daily lives, at least, here and there
And I reconstruct it in my art ...
But I would be a little poet eating grapes
If it not for this reform contractor apart
Keeping the same stones, the same shapes ...
.
25/10/2020

sábado, 24 de outubro de 2020

Nem a Pau (de Alma Welt)

Exasperada, sim, me sinto às vezes
Diante do desprezo e da mudez.
Mas não vou declamar em meio às rezes,
E já que Inês é morta... viva Inês! 

Meia dúzia de leitores já me bastam,
Fui feita para os poucos, para os raros.
Não há nada a deplorar ante os avaros
De aplausos, dos que nunca se derramam. 

Sendo poeta escolhi a solidão,
Não vou, pois, me queixar ao pobre Orfeu
Que a pauladas, por sua vez, morreu...

Deus me deu senso de humor, até beleza,
Que é a virtude que vem do coração,
Flor da pele, não do Hades profundeza...
.
24/10/2020

Agora uma tradução literal para o inglês: 

Not beaten (by Alma Welt)

Exasperated yes, I sometimes feel
Faced with contempt and dumbness.
But I will not recite in the midst of the cattle
And since Inês died... long live Inês!
Half a dozen readers is enough for me,
I was made for the few, for the rare.
There is nothing to deplore in the face of the miser
From applause, from who never spills himself
As a poet I chose solitude,
I will not, therefore, complain to poor Orpheus
Who was beaten to death.
God gave me a sense of humor, even beauty,
That is the virtue that comes from the heart,
Flower of the skin, not the depth of Hades.
_________________________

Agora uma transliteração livre para o inglês com rimas (embora com perda da métrica, deixando de ser soneto): 

Not beaten (by Alma Welt)

Exasperated yes, I sometimes feel
Faced with contempt and dumbness still...
But I will not recite in the midst of the cattle
And since Inês died... long live Inês! And I'll settle.
Half a dozen readers is enough for me, sir,
I was made for the few, for the rare, myself.
There is nothing to deplore in the face of the miser
From applause, from who never spills himself.
As a poet I chose solitude, since it fades,
I will not, therefore, to poor Orpheus complain,
Who was beaten to death in the plain.
God gave me a sense of humor, even beauty,
This virtue comes by heart, without not even duty,
Flower of the skin, not the depth of Hades.
________________

E agora a tradução literal da transliteração livre:

Não derrotado (por Alma Welt)

Exasperado sim, às vezes sinto
Diante do desprezo e da mudez ainda ...
Mas eu não vou recitar no meio do gado
E desde que a Inês morreu ... viva a Inês! E eu vou resolver.
Meia dúzia de leitores é o suficiente para mim, senhor,
Fui feita para poucos, para os raros, eu mesma.
Não há nada a deplorar na cara do avarento
Dos aplausos, de quem nunca se derrama.
Como poeta, escolhi a solidão, pois ela se esvai,
Não vou, portanto, reclamar do pobre Orfeu,
Que foi espancado até a morte na planície.
Deus me deu um senso de humor, até mesmo beleza,
Essa virtude vem de cor, sem nem mesmo dever,
Flor da pele, não a profundidade do Hades.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O poeta triste (de Alma Welt)

Meu pai, me lembro, hospedou anos atrás
Um poeta triste, aqui na estância,
Contando sílabas até com as mãos pra trás,
Saudoso demais de sua infância...

A três por quatro, queixoso, suspirava,
Não achando graça em quase nada
Nem mesmo numa enorme cavalhada
Que em honra dos farrapos eu montava.

Então, confesso, que perdendo a paciência,
Disse ao pobre, meio assim, de supetão:
"Crês, senhor, que das sílabas a ciência

Resgatará tua infância, ora perdida?
Eu tenho feito isso em igual medida,
Mas, garanto, em alegria e gratidão..."
.
23/10/2020
_______________________________

Agora uma tradição literal para o inglês: 

The sad poet (by Alma Welt)

My father, I remember, hosting years ago
A sad poet, here at the ranch,
Counting syllables even with his hands behind,
Too homesick for his childhood ...
Continualy plaintiff, sighed,
Finding nothing funny
Not even in a huge cavalcade
That in honor of the "Farrapos" I would ride.
So, I confess, that lost my patience,
An said to the poor man, somewhat like that, suddenly:
"Do you believe, sir, that with the science of syllabes
Will yout rescue your childhood, now lost?
I have done this in equal measure,
But, I guarantee, in joy and gratitude ... "_____________________________

Agora uma transliteração livre para o inglês, com algumas imagens novas para preservar rimas, embora com sacrifício da métrica, deixando de ser soneto: 

The sad poet (by Alma Welt)

My father, hosting, years ago, I did remind,
A sad poet, here at the ranch,
Counting syllables even with his hands behind,
Too homesick for his childhood branch.
Continualy plaintiff, sighing, faded
As a kind of ghost bride,
Disliked even a huge cavalcade
That in honor of the "Farrapos" I would ride.
So, I confess that lost my patience,
And I opened to the poor man, suddenly, my treasure:
"Do you believe, sir, that with the syllabes science
Will yout rescue your childhood, with that mood?
I have done this in equal measure,
But, I guarantee, in joy and gratitude ... "
_________________

Agora a tradução literal da transliteração livre: 

O poeta triste (de Alma Welt)

Meu pai, hospedando, anos atrás, eu lembrei,
Um poeta triste, aqui no rancho,
Contando sílabas mesmo com as mãos atrás,
Muita saudoso de seu ramo de infância.
Continuamente reclamante, suspirando, desbotado
Como uma espécie de noiva fantasma,
Não gostava nem mesmo de uma grande cavalgada
Que em homenagem aos "Farrapos" eu cavalgaria.
Então, confesso que perdi a paciência,
E eu abri para o pobre homem, de repente, meu tesouro:
"Você acredita, senhor, que com a ciência das sílabas
Você vai resgatar sua infância, com esse humor?
Eu fiz isso em igual medida,
Mas, garanto, na alegria e na gratidão ...

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O guarda de meu irmão (de Alma Welt)

"As pessoas são ruins e o mundo é mau",
Diziam alguns, a mim, de boca cheia.
"Deus errou na receita", e coisa e tal,
Repetiam quando a coisa estava feia...

Mas eu digo o que tantos já sabemos:
Ainda antes desta criação nossa
O mal existe mas criado pelos demos,
E Satã mal chegado era da roça.

E, guria, eu perguntava pros adultos
Por quê a gritaria e os insultos
Quando os peões brigavam na coxilha.

E o bom homem de quem eu era filha
Me contou de Abel, de quem Caim
Guarda não foi, como o velho era de mim...
.
22/10/2020

Agora uma transliteração livre para o inglês (para isso com o sacrifício da métrica, deixando, portanto, de ser soneto):

My brother's guard (by Alma Welt)

"People are evil and the world is bad",
Some said to me with their mouths full.
"God made a mistake in the recipe" so they said
And they repeated when things were ugly and dull.
But I say what so many already know:
Even before our creation and its show
Evil exists but created by the devil
And Satan had just arrived from exil
I was a girl, and I asked the adults:
Why the shouting and the insults
When cowboys fought in the plain?
And I, as a daughter of a good man,
Heard about Abel, of whom Cain
Guard was not, as of me was him...
______________________________
E vejam como fica interessante também
a tradução literal da transliteração :

O Guarda do meu irmão (por Alma Welt)

“As pessoas são más e o mundo é mau”,
Alguns me disseram com a boca cheia.
“Deus errou na receita” então eles disseram
E repetiam quando as coisas estavam feias e maçantes.
Mas digo o que tantos já sabem:
Mesmo antes de nossa criação e seu show
O mal existe, mas foi criado pelo diabo
E Satanás tinha acabado de chegar do exílio
Eu era uma menina e perguntei aos adultos
Por que os gritos e os insultos
Quando cowboys lutavam na planície?
E eu, como filha de um bom homem,
Ouvi sobre Abel, de quem Caim
Guarda não era, como de mim era ele ...

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O Ensaio (de Alma Welt)

Eu tenho tido muita pena de morrer,
Ainda mais como me foi predito: cedo.
Então ensaio no leito um arremedo,
Branca e fria, sem o espelho poder ver.

Então chamei a minha bá fiel, Matilde,
Pra dizer se pra defunta tenho jeito,
Com as mãos pousadas sobre o peito
E um semblante que queria ser humilde. 

Mas a pobre, indignada, me exortou:
"Não blasfemes, guria, isso é despacho!
Quem soube antes, jamais, como acabou?" 

"Tudo em ti ou é arte ou é poesia,
Precisas de um bom tanque de água fria,
Lavar roupa e assentar esse teu facho..."
.
21/10/2020

terça-feira, 20 de outubro de 2020

A Rosa e o Jasmim (de Alma Welt)

Para mim cada dia é, sim, sagrado
Porque deles extraio sua poesia
Como alguém que na manhã de cada dia
Ordenha a melhor rês de todo o gado...

Alma (dizes), não acordas assim cedo;
Depois do amargo vais direto ao teu jardim,
Entre espinhos aspirar rosas, sem medo,
Como à noite o fazes com o jasmim...

Ora, me fazes parecer mimada e fútil,
Por pequenos prazeres pobre presa,
Incapaz de algo mais fazer de útil...

Mas qual rosa de espinhos tão armada,
O poeta não precisa mais defesa,
E jasmim, deixa a noite perfumada...
.
20/10/2020

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Claro e escuro (de Alma Welt)

Jamais renegarei meus privilégios,
Tanto mais que eu nunca deles me pejei.
O dia e a noite, claro e escuro, sempre régios,
Diante deles ao nascer me prosternei.

Assim também diante de toda a Natureza,
Imagem viva de Deus que nos foi dada,
Com as flores e animais, de mão beijada,
E os rios com a infinita correnteza...

É verdade que alguns rios secaram,
Mas muitos outros nasceram de lambuja
Para nos lavar as mãos e a cara suja...

Do que te queixas, ó homem infeliz!
"Queres viver para sempre?" (o gringo diz,
No filme, antes dos tiros que disparam)...
.
19/10/2020

domingo, 18 de outubro de 2020

As Lendas dos avós (de Alma Welt)

Naqueles longos, frios meses entre nós,
Aos amigos isolados na coxilha
Eu gostava de ofertar a maravilha
Das misteriosas, longas lendas dos avós.

Nós em torno ao nosso fogo de bivaque,
Mal se vendo na penumbra o casarão,
O meu pai a cofiar seu cavanhaque
E a chaleira a chiar pro chimarrão...

E me recordo de um deles, muito belo,
Que no jardim, manhã seguinte d'um serão,
Disse tirando da minha mão o meu rastelo:

"Alma, a Porto Alegre vem comigo,
Ou Paris, Roma, São Luiz do Maranhão...
Serei lenda também, de estar contigo."
.
18/10/2020

O Rastro (de Alma Welt)

Como tens tantas lembranças (disse alguém),
Tão ricas e já com feição de lenda?
E minha resposta me surpreendeu também:
"O minuto que passa, me encomenda..."

"És tão belo!" Como Fausto também digo*
Correndo o eterno risco de minha alma.
Cada minuto é precioso, meu amigo
E estará nos poros da minha palma...

Alma, então pra ti tudo é memória?
Não sabes viver o aqui e agora?
Pobre de ti, retardatária de ti mesma!"

Mas com vida lenta e já história,
Talvez rastro prateado de uma lesma,
Inesquecível, saberão que fui embora...
.
18/10/2020

Nota
*"És tão belo!" Como Fausto também digo -
Mephistófeles (o Diabo) depois de uma aposta que fez com Deus no "Prólogo no Céu", do drama imortal de Goethe, sobre a duvidosa fidelidade da alma do servo de Deus, o erudito Fausto, através de um pacto que Mephistófeles faz com o sábio frustrado na sua reclusão de uma vida entre os alfarrábios, este teria todos os seus sonhos e caprichos atendidos, realizados, desde que jamais dissesse "ao minuto que passa" : "Pára! És tão belo!" Nesse momento ele perderia tudo, isto é, cairia morto e Mephisto vencedor da aposta com Deus levaria a alma de Fausto para o inferno.
O curioso é que Goethe termina a peça fazendo Deus fraudar a aposta com o Diabo, enviando uns serafins (anjos meio andróginos e sensuais) revoluteando em torno do corpo distraírem o lubrico diabo, e escamoteando rapidamente a alma de Fausto quando ela está saindo do cadáver, levando-a com eles para o Céu, deixando o diabo furioso, frustrado, invectivando...
(Goethe era mucho loco rrrrsss)
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Agora uma transliteração livre para o inglês com rimas, embora com o sacrifício da métrica:

The Trail (by Alma Welt)

How has thou so many memories (someone ask),
So legendaries and rich of thee
And my answer was a kind a task:
"The minute that passes, order me ..."

"You are so beautiful!" As Faust also says *
With the eternal risk of my soul
Every minute is precious, along the days,
And on my palm drop slow.

Alma, so everything is memory for you?
How to live the here and now in depht
Poor you, lagging behind yourself, as you do... 

But with a slow life and already a tale,
Maybe a slug's silvery trail,
Unforgettable, they'll know I Ieft.
.
10/18/2020
Note
* "Thou are so beautiful!" As Faust also says -
Mephistófeles (the Devil) after a bet he made with God in the "Prologue in Heaven", of Goethe's immortal drama, about the doubtful faithfulness of the soul of the servant of God, the scholar Faust, through a pact that Mephistofeles makes with the wise man frustrated in his seclusion of a life among the books, he would have all his dreams and whims taken care of, as long as he never said "to the minute that passes": "Stop! thou are so beautiful!" At that moment he would lose everything, it means would fall dead and Mephisto, winner of the bet with God, would take Faust's soul to hell.
The curious thing is that Goethe ends the play by making God defraud the bet with the Devil, sending seraphins (angels kind of androgynous and sensual) revolting around the body, distracting the erotic devil, and quickly concealing Faust's soul when she is leaving the corpse , taking her with them to Heaven, leaving the devil furious, frustrated, invective ...
(Goethe was "mucho loco" rrrrsss)

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Novo Conto de Fadas (de Alma Welt)

Então se aproximando Ela me disse:
"Alma, teu mistério recatado é perigoso,
De ti fazendo um prato saboroso,
Com esse condimento de meiguice."

Mas eu mirando a tal Sombria Dama
Respondi (hesitante, na verdade)
Que assim era desde tenra idade
E que só me degustava quem me ama.

Em paráfrase ao Osvald de Andrade
Eu disse : "A massa não come o que eu fabrico,
Pois meu caldo é demasiado rico."

"Pergunte ao lobo (ouvi a Dama responder) :
Boca tão grande pra quê? Por caridade!
O homem-massa dirá "Só pra te comer!"
.
16/10/2020

Consulta à cigana (de Alma Welt)

"Às vezes eu me vejo atarantada,
Perdida no meu próprio labirinto,
Sem saber o que faço e o que sinto,
De mim mesma alheia, alienada."

"Assim disse alguém que não nomeio,
Amiga de uma amiga de um parente."
(disse eu, disfarçando, de repente)
"Que comigo não ocorre esse aperreio."

"Teu tempo acabou"... Fosse analista,
Veterinária de nós, seres humanos,
Assim terminaria a entrevista.

Mas, cigana, e em consulta aos seus arcanos,
Surpreendeu-me: "És poeta, és artista.
Vá sofrer. Volte daqui a vinte anos..."
.
16/10/2020
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Agora uma transliteração livre para o inglês, com rimas, embora com o sacrifício da métrica: 

Gypsy Consultation (by Alma Welt)

"Sometimes I find myself dazed,
Lost in my own labyrinth,
Feeling as if had drink an absint,
From myself alienated and faded".

"So said someone I don't name,
Friend of a friend of a relative. "
(I said, disguising my fame)
"No problem with me, I'am not ative"

"Your time is over..." If she was an analyst,
Veterinary of us humans, kind of beast,
So the interview would end in tears.

But, gypsy, with her arcana and no fears,
She surprises me: "You are a poet, and an artist.
Go suffer. Come back in twenty years ... "

.
16/10/2020

A Conclusão (de Alma Welt)

Mais um pouco todo dia me aproximo
De descobrir o sentido desta vida
Conquanto aqui no fundo do meu imo
Minha tristeza eu perceba acrescida.

Estou bem desconfiada, mas não quero
Tirar aquelas conclusões precipitadas
Que nos fazem chegar na estaca zero
Ou ao epílogo dos contos de fadas. 

O príncipe realmente era um sapo
E a princesa engordou e tem um papo,
Para sempre não seríamos felizes...

E ao me aproximar da conclusão
Não repetirei o nome que já dizes,
Cala-te boca... que esse gela o coração.
.
16/10/2020
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Uma tradução literal para o inglês, para os gringos pelo menos entenderem o sentido do soneto (perde-se o ritmo, a métrica e as rimas, enfim, o sabor original):
 
The conclusion (by Alma Welt)

A little more each day that I approach
To discover the meaning of this life
Although here in the back of my mind
I realize my added sadness.

I'm very suspicious, but I don't want to
Draw these hasty conclusions
This takes us to square one
Or the epilogue of fairy tales.

The prince really was a frog
And the princess got fat and has a double chin
We wouldn't be happy forever ...

And as I approach the conclusion
I will not repeat the name you already said,
Shut up ... the one here freezes the heart.
________________________________ 

Agora uma transliteração livre para o inglês, com rimas:

The conclusion (by Alma Welt)

Each day that I approach over and over

The meaning of this life to discover
Although here in the back of my inness
To add sadness is my business.

I'm very suspicious, but I don't sale

These false and hasty conclusions
That takes us to new ilusions
Or to the epilogue of a fairy tale.

The prince really was a frog,

The princess got fat and has a double chin
We wouldn't be happy forever in our blog...

And as I approach the conclusion, and smart

I will not repeat the name you have mean.
Shut up ... the one here freezes the heart...
______________________

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O recado mudo (de Alma Welt)

Da varanda vi o peão se aproximar
Até uma distância de dez metros,
E eu, acostumada a ver espectros,
Contava vê-lo dissolver-se em pleno ar.

Em vez disso o seu chapéu tocou de leve
Saudando como mandam os bons costumes.
Mas se o peão se portou como se deve,
Já o cavalo liberou os seus estrumes... 

Ao ver isso sorri com certo alívio
De afinal estar diante de um ser vivo,
Conquanto impressionada com seu porte

E numa espécie de lapso perene
O peão só me mirou mudo e solene,
E ao partir eu soube que era a Morte...
.
15/10/2020
Agora uma tradução literal para o inglês, para que os gringos entendam pelo menos o sentido do soneto da Alma:

The silent message (by Alma Welt)

From the balcony I saw the approach

Up to a distance of ten yards
And I, used to seeing spectra,
I expected to see it dissolves in midair.

Instead his hat touched lightly

Saluting as good manners dictate.
But if the cowboy behaved as it should,
The horse released its manure ...

Seeing this, I smiled with some relief

After all, being in front of a living being,
While impressed by its size

And in a kind of perennial lapse

The man just looked at me dumb and solemn,
And when he left I knew it was Death ...
_________________________________________
E agora uma tentativa de transliteração livre com
rimas, embora sem métrica:

The silent message (by Alma Welt)

From the balcony I saw the approach

Up to a distance of ten yards of dispair
And I that seeing spectra use to coach
I expected to see it dissolves in midair.

Instead he touched lightly his hat

Saluting, of good manners a gesture.
But if the cowboy behaved well in fact,
The horse released its manure ...

Seeing this, I smiled with some relief to them

After all, being in front of a living being,
While impressed by what I was seeing 

And in a kind of perennial lapse, I guess,

The man just looked at me dumb and solemn,
And when he left I knew it was Death...

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Até o Fim (de Alma Welt)

"O que faz essa velha em minha cama?
Não conheço essa senhora, assim velha...
Então corro ao espelho que me ama
E revejo a bela jovem que ele espelha."

O que dizes, meu amigo, "velha amiga"?
As roseiras que diariamente podo
Com seus espinhos propensos à intriga
Não me tratam irreverentes desse modo.

Assim falou a amiga de meu mano,
E eu ria com ligeira dor no peito,
Ao pensar: Será humor ou só insano?

Então corri pra minha cama de dossel
Para ver se havia velha no meu leito,
Se meu espelho ainda era fiel...
.
13/10/2020

A Volta ao Jardim (de Alma Welt)

Antes do desjejum, logo soneto,
Por trazer fresca a dimensão do sonho
Que embora conserve um tom bisonho
Nada deve aos erros que cometo.

Mas não se trata do meu mundo falsear,
Ou tentar alardear o que não tenho
Como a compensação de desempenho
Desde aquela expulsão do meu pomar.

Eu fui expulsa, sim, mas bom poeta
Já tinha mordido o fruto mágico
Que era na verdade a minha meta...

Com o "amargo", retorno ao meu Jardim
Tratando de tirar o timbre trágico,
Que daqui veio o melhor que há em mim...
.
12/10/2020

domingo, 11 de outubro de 2020

O Bom Deus do Acaso (de Alma Welt)

Eu acordo de manhã sem um roteiro,
Quero como aventureira entrar no dia.
O acaso é meu curioso companheiro
E me ajuda nos trabalhos de poesia.

Curiosidade é também meu elemento,
Mas somente a posteriori é que perscruto
Os sinais semi-ocultos do momento:
Não roubarei de mim meu próprio fruto...

Há quem possa achar-me impertinente
Ao querer me renovar diariamente,
Ou por sem dor e sem suor parir meu pão.

Mas confesso que ao chegar o fim do dia,
Previsível então faço a oração
A Deus, que no Acaso eu mal O via...
.
11/10/2020

sábado, 10 de outubro de 2020

Lenda de boêmia (de Alma Welt)

Eu te visito, amigo, e tu me dizes
Que estás nos teus últimos pincéis
E as últimas tintas que ainda alises
Já se vão como foram teus anéis...

Mas ficaram os teus dedos? Te pergunto.
Mas me falas de uma fibromialgia
E eu que com o amigo já ri muito,
Olho as tuas mãos, e me angustia...

Tudo acaba lentamente, lentamente...
Talvez lento de mais pra ser sentido
Pois me pedes que eu jamais lamente.

Mas saio das tuas ruínas de pintor
Com aquela sensação de ter vivido
Uma lenda de boêmia, um velho amor...
.
10/10/2020

A gaúcha universal (de Alma Welt)

Vem de perene fonte o meu soneto
Pois do universal brota direto
E nunca de um determinado gueto
Ou mesmo pra agradar grupo seleto.

Muito poucos me acessam, como luxo
Feito para um leitor talvez mais raro.
Meu verso é menos doce, mais "amaro"
Como o mate na cuia do gaúcho.

Gaúcha, sim, mas de cunho universal,
Só pode desfrutar da minha fonte
Quem conhece a vastidão do meu quintal.

E convido a quem vier para esta banda
Bah! Que se sente comigo na varanda,
O olhar "galopeando" no horizonte...
.
10/10/2020

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Conversas com o Anjo (de Alma Welt)

"Dizem, Alma, que já avistaste um anjo
E com ele conversaste de verdade.
Mas perdoe se acaso te constranjo,
Não podes ocultar da humanidade!"

Disse uma senhora aqui na estância
Acompanhada do pároco da aldeia
(conforme me recordo em minha infância)
Por meu pai convidados para a ceia.

Mas respondi com a maior candura,
Olhando as mastigantes bocas cheias:
"O anjo me exigiu que fosse pura

E jamais fofocasse com as tias
Na conversa durante as nossas ceias,
"Que santas devem ser desde o Messias."
.
09/10/2020

"Pentimento" (de Alma Welt)

Se não logro o meu soneto da manhã
Meu dia foi perdido, isto é certo.
E se uma comparação feliz acerto,
Foi de um pintor a pincelada vã...

Na pintura há um poético recurso
Que se se denomina "pentimento",
Praticado também no humano curso
Mas com dor que requer esquecimento.

Na tentativa e erro construída
A arquitetura do poema corresponde,
De Babel, à grande torre demolida. 

Eu poderia criar novos universos
(Quantos 'pentimenti" o verso esconde!)
Com a história oculta sob os versos...
.
09/10/2020

Diálogo imaginário (de Alma Welt)

Alma, conheceste o mundo e a vida?
Presenciaste, acaso, a dor das gentes?
Ajudaste a parir parturientes,
E deste aos nascituros acolhida?

Não, eu reconheço, ou muito pouco.
Mas não preciso ter visto Jesus Cristo
(que nem sou jamais digna disto)
Para saber de Deus preso num toco.

Longe de mim, blasfêmia ou desrespeito.
E só quis enfatizar os absurdos
Que nos cercam a torto e a direito...

Como poeta, eu sei, grande é minha boca
Mas poesia é também feita para surdos
E nem por isso gesticulo feito louca...
.
09/10/2020

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A carta na garrafa (de Alma Welt)

Por quê escreves sonetos aos milhares,
Que mal os dá à luz e logo postas?
Acaso aguardas a garrafa de outros mares
Com uma carta dentro com as respostas?

Escrevo tanto, mas por maior razão:
Para que num momento inesperado
Que deixe o poeta iluminado,
Talvez atinja do soneto a perfeição...

"Mas, por quê?" (na pergunta alguns insistem)
"Não é deste nosso mundo a perfeição:
É orgulho, é vaidade, é pretensão..."

O poeta, do desprezo mal se safa,
Mas no final, quando os anjos o revistem
Encontrarão uma carta na garrafa...
.
08/10/2020

A nova expulsão (de Alma Welt)

Meus amigos mascarados, que saudade
Do tempo que mostrávamos nosso rosto;
O nosso vinho da Verdade tinha o mosto
E a Beleza não nos era só metade.

A solidão já existia, é bem verdade,
Mas não era essa sentença capital
Que pesa sobre a nossa humanidade
E não estava na expulsão primordial.

Adão e Eva usaram folhas raras
De uva, em suas belas genitálias,
Mas mostravam altivos suas caras. 

E eu, que da minha face sinto falta,
Alva, lisa, sem remorsos de mais falhas,
Eis-me nua, com a folha bem mais alta...

08/10/2020
.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O Jardim da Complacência (de Alma Welt)

Longe de mim olhar o mundo e a vida
Num sistema de moral ou de valores;
O poeta em mim enxerga as cores
E não julga as formas com que lida. 

Ser poeta é estar em outro diapasão,
E se não for o rei da complacência,
Exerce sua imensa aceitação
No reino profundo da aparência.

Não procures aqui o Bem e o Mal
Mas poderás procurar pela Verdade
Que à Beleza é exatamente igual...

E se ao leres um poema com este fim
Não voltas à maçã ou sua metade,
Não valeu o furto antigo no Jardim...
.
07/10/2020

A Quiromante (de Alma Welt)

Uma peona rude aqui da estância
Instou-me a ler nas mãos a sorte sua
Pois me imaginava desde a infância
Como quem preza tal arte ou a cultua.

Logo pensei desmentir tal fantasia
Ou demonstrar seu ledo engano,
Pois se de fato possuo algum arcano
É meu mistério suficiente de Poesia.

Mas diante de um inútil arrazoado,
Lendo palma que quase nada encerra
E onde mal se distinguia o seu traçado,

Uma onda de insólita ternura
Diante da bela e tosca criatura
Me fez beijar suas mãos sujas de terra...
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07/10/2020

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Questão de Métrica (de Alma Welt)

Tem uma hora, bem sei, que em nossa vida
A própria vida entra em desarranjo...
Digo isso até meio constrangida,
Que, confesso, raramente me constranjo...

Tendo perdido o manual e o freio
Da minha alma no meio da ladeira,
Não se tratava mais de brincadeira:
A vida ficou séria e ficou feio...

Disse Deus (que me conhece de sobejo
E colocou-me neste Leito de Procusto):
"Alma, contes doze e assim te rejo"...

Mantendo as doze sílabas a custo
(que do soneto não perdi o meu rigor)
Então clamei: "Valha-me Deus, Nosso Senhor!"
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06/10/2020

Meu encontro com o Anjo rebelde (de Alma Welt)

Porque conheço meu viés de orgulho,
Peço a Deus que a humildade me conceda.
Minha natureza guarda o entulho
Da antiga rebelião mesquinha e leda.

O Anjo rebelde, decaído, apareceu
Aqui na minha estância, e muito belo
Procurou minha aliança e prometeu
Coisas que por pudor eu nem revelo. 

Mas quando o Anjo voltou pra me cobrar
Minha resposta adiada por prudência
Encontrou-me de volta em meu lugar.

Não sou santa, mas com o Demo não me meto
Sou poeta, de seus truques tenho ciência.
Traição? Tenho orgulho e não cometo...
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06/10/2020

Argumentos jurídicos (de Alma Welt)

Deus não nos condenou ao exílio só.
Sabemos bem a nossa pena capital.
A sentença de nos reverter ao pó
Parece louca e desproporcional...

Direito não cursei, e poeta das coxilhas
Sei que muitos estudaram nas Arcadas *
Para depois com o apoio das famílias
Escreverem seus versos de enxurradas.

Mas eis-me aqui a julgar por outro lado,
Ainda revoltada com a sentença,
Nosso juízo final antecipado...

Pois num galho, ao alcance pendurado
(se foi crime, foi demais facilitado),
O fruto, responsável por quem pensa...
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06/10/2020

Nota
*Sei que muitos estudaram nas Arcadas - No final do século XIX e começo do Século XX, era costume os rapazes "de boas famílias" da elite, com vocação literária, principalmente os poetas, estudarem Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, também chamada de "Arcadas " por essa peculiaridade de sua arquitetura.

O passeio da Alma (de Alma Welt)



O passeio da Alma - o/s/t de Guilherme de Faria, 2018, 100x150cm



O passeio da Alma (de Alma Welt)

A criança que eu fui está comigo
E eu passeio com ela de mãos dadas.
Mas supondo que estejamos encantadas
Não nos verás, que por aí não sigo...

Tudo se passa num jardim que cultivei
Com tal esmero dentro da minha alma
Que nisto reside a estranha calma
E este límpido olhar que conservei.

"Ora, Alma" (me dirás), "todos nós temos
A lembrança da criança que já fomos...
Isto é simples demais, e compreendemos."

Mas não! Em mim tudo é concreto e literal,
E o Jardim do pomo que repomos,
Me protegeu até aqui de todo o Mal...
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06/10/2020

Nosso Trem (de Alma Welt)

Desesperada, confesso, às vezes fico
Com o trem da nossa humana condição,
A ponto de eu pensar pedir penico
Ou tentar descer na próxima estação.

Sinto como quem tomou o trem errado
Entre suspeitos e dúbios passageiros
Com os seus sorrisos só de um lado,
Tristes não pela metade, mas inteiros.

Este trem é noturno, certamente,
Mesmo quando viajando sob o sol
E é isso que o deixa deprimente...

Então vem o sinistro bilheteiro
Empertigado como se fosse de escol,
Caronte é seu nome, e foi barqueiro...
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06/10/2020

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O "kit" de Primeira Comunhão (de Alma Welt)

Deus me poupe dessa sensação de nojo
Que o contrário é, bem sei, da compaixão
Que muitos guardamos num estojo
Desde o tempo da "primeira comunhão".

Ainda ontem encontrei-o como um kit,
Com o livrinho de capa nacarada
Num pequeno rosário enroscada,
E com um amarelado... sim, convite.

E folheando vi de novo as imagens
Da Via Crucis do Senhor dos Passos,
Com a minha letrinha pelas margens... 

Então chorei de pena Dele e de mim,
Que ainda guardo talvez os mesmos traços
Da ingênua pecadora... até o fim.
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04/10/2020

Dos deuses caídos (de Alma Welt)

Deus tem sido de tal modo generoso
Que me deixa cultuar menores deuses
Para efeito poético-verboso,
Rindo dos "mistérios" meus, de Elêusis...

ELE me disse: "Tolerei parnasianos
Com seus carros de Apolo (o meu sol)
Mais as luas de Diana... muitos anos,
E as Auroras do meu simples arrebol." 

"Aquele tal de Bilac renomado
Que dizia escutar minhas estrelas,
Fez que Eu quase nem mais quisesse vê-las."

"Agora tu, Alma, me vens com teu capricho
E me pedes retomar o descartado
E tirar esses deusinhos do meu lixo..."
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05/10/2020



A cada verso (de Alma Welt)

O meu mundo interior possui facetas,
Vários modos diferentes de expressão
Tomando às vezes uma épica feição
Outras vezes, só rápidos cometas...

E eu percebo como cresço a cada verso
Como tijolo dia a dia acrescentado
Num templo de meu próprio universo
Ou no meu túmulo, talvez, mais limitado.

E eu me encanto de poder me construir
No território mágico da Alma
Que é o único que pretendo dividir.

Mas se algo mais palpável não divido,
Ambígua entre dádiva e pedido,
Ao bom leitor estendo a minha palma...
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05/10/2020

domingo, 4 de outubro de 2020

O toque de magia (de Alma Welt)

Na verdade, ser inútil eu nunca quis,
Embora saiba que o soneto é um capricho
Que nas artes tem o seu modesto nicho
Conquanto o centro da minha vida dele fiz.

O que me vai no peito com ele digo
O que não pode ser dito de outra forma
E que de modo mágico transforma
Em realeza o trapo do mendigo...

Entretanto já aqui nas cercanias
Uns me apontam o dedo em derrisão
E me retiram as derradeiras companhias.

Mas, ai! Temo que o toque de magia
Que existe no soneto em minha mão,
Me fez suspeita do mal de bruxaria...
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04/10/2020

A luta (de Alma Welt)

Uma luta intermitente co'a tristeza
Da qual saio vitoriosa, e até feliz,
Bem... não sei vocês (como se diz),
A mim, bem me descreve, com certeza.

Ninguém mais suporta choradeira.
Aquela mesma, da dor de cotovelo,
Ou de quem ao subir desce a ladeira,
E que de um certo "kitsch" tem o apelo.

Já não tenho mais a nota dominante
De um romantismo tardio e lacrimoso
De um século cada dia mais distante...

Mas, ai! de repente vem um engulho
Que me sobe do íntimo orgulhoso,
Trazendo aquela sombra em que mergulho...
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04/10/2020

Queixa (de Alma Welt)

Uma das coisas mais tristes que concebo
É a solidão de um ser não compreendido,
E com frequência isto em mim percebo,
Conquanto o que sou tenha escolhido...

O soneto é a minha forma de pensar,
E talvez tenha escolhido um labirinto
De que as pessoas têm medo por instinto
E evitam, com razão, se aventurar. 

Meu encanto da cadência musical
E da rimas, quem sabe insuficiente
Para lograr um grande quorum natural,

Me fazem uma Ariadne sem fio
Depois do labirinto o expediente,
Abandonada por Teseu e seu navio...
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04/10/2020

sábado, 3 de outubro de 2020

Ariadne, Ícaro (de Alma Welt)

No labirinto de mim, mas não perdida,
Mas atada a este fio condutor meu,
Deixei lá fora o meu próprio Teseu,
Tendo invertido os polos da partida. 

E tateio, não no escuro (tocha tenho),
As úmidas parentes da memória,
Apenas refazendo o fio da história,
Que por meu Minotauro jamais venho...

Como passar pelas câmaras secretas,
Os atalhos e desvios de percurso
Com esta mesma dor de antigas setas?

Uma alegria me resguarda o curso:
Mantida a duras penas a auto-estima,
Como asas com que irei sair por cima...
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02/10/2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O voo para trás (de Alma Welt)

Vivi sempre gravitando a minha casa
E nesse item não sou nada original.
Se a casa paterna me deu asa,
Orbito presa a um cordão umbilical.

Li num livro de animais imaginários
Que existe a ave que só voa para trás,
Porque a ela, entre mil itinerários,
Só interessa onde seu ninho mesmo jaz.

Se no meu próprio pomar colhi o fruto,
De um desconto desde então desfruto,
Pois do pecado original já condenada.

Mas malgrado tal primordial desfeita,
Permaneço sob a égide perfeita
De uma infância magnífica e dourada...
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02/10/2020

A carruagem ( de Alma Welt)

Nossas novas propostas são irrisórias
Ante a fatalidade do destino;
Ainda valem as tolas promissórias
Que assinamos, enganados, de menino. 

Fomos enganados? Podes crer...
O destino vem com juros nos cobrar
Suas dádivas a nós dadas ao nascer,
Quando já não conseguimos negociar.

Sobram só as dores e as memórias.
Pelo menos alguma coisa sobra:
Para a nossa faxineira, as histórias...

A ver navios em secos e molhados
Ficamos nós, velhinhos enrugados,
E a carruagem, sim, era uma abóbora... 

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02/10/2020

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Minhas noites (de Alma Welt)

Minhas noites são plenas de mistérios...
Mas de quem, acaso, as noites não o são?
De sonhos feitos para a invocação
De mundos sob bem outros critérios...

Entro na noite, esse mar desconhecido,
Solene, com a postura de uma amante
Sob a égide fugaz de um tempo ido,
Que a saudade é a nota dominante...

Sei que não falo por todos, nestes versos.
Pois quem dorme como rito e não atalho
Tendo que ir de manhã para o trabalho?

Só comungo com aqueles que, ociosos,
Longe dos mundanos temas tergiversos,
Acendem velas aos deuses silenciosos...
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01/10/20200



Paolo e Francesca (de Alma Welt)

Se não olhas teu amor como sagrado,
Não estás diante do amor, isso é certo,
Se por dentro não estás prostrado
Quando o miras, tremendo, mais de perto...

Ora, Alma, estás sempre no limite;
És radical demais no amor, isso é paixão!
Não recomendes aos outros e até evite
Pra ti mesma esse horrível turbilhão.

Mas me lembro do Paolo e da Francesca
Que lançados no eterno minuano
Não ficaram enganchados numa cerca...

Eternamente abraçados, como viste,
A voar sobre este pampa, todo o ano,
O seu destino não me parece triste...
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01/10/2020
Nota
Paolo e Francesca - De maneira muito original e graciosa, a gaúcha Alma Welt incorpora ao seu pampa gaúcho com seu famoso vento minuano, neste soneto, a história real de Paolo e Francesca da Rimini, da Idade Média italiana, na cidade de Rimini, que revelada ao mundo de maneira magistral no segundo círculo do Inferno na Divina Comédia de Dante Alighieri, quando este na sua jornada subterrânea guiado pelo poeta romano Virgílio, avista o casal famoso enlaçado num abraço sem pouso no "turbilhão eterno". De algum modo Dante consegue uma pausa naquele voo do casal, para ela, Francesca, narrar a sua trágica morte atravessada com seu amante secreto Paolo Malatesta, pelo mesmo golpe de espada de outro rival Malatesta, Giovanni (Gianciotto, mais velho deformado e feio), quando flagrados em conluio amoroso. Dante os colocou no Inferno no "bolge" dos amantes clandestinos, condenados ao turbilhão. O curioso no poema dantesco é que Dante fica tão emocionado com a narrativa da tragédia feita pela própria protagonista, que desmaia e o episódio termina como o verso: "E cade como corpo morto cade." (E caí como corpo morto cai.)
Um curiosidade: a cidade de Rimini ainda veria o nascimento do grande cineasta Federico Fellini. Ele e Francesca são os mais ilustres nativos daquela cidade.


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Dos Mundos (de Alma Welt)

Sim, há infinitos mundos nesta vida
Pois Deus nos dá um "modo" alternativo
Já que criou o destino do ser vivo,
E podemos escolher uma saída...

É verdade que às vezes nosso escape
Corresponde ao simples "modo" covardia
De que lançamos mão no dia dia
Ou diante da pistola ou do tacape... 

Quanto a mim, refugiei-me na Poesia
O que pra uns é outro lado da euforia,
E pra outros uma espécie de ilusão.

Mas se soubesse o que há de solidão
No pobre ser que a beleza ama e cria,
O mundo ainda mais sós nos deixaria...
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30/09/2020