quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Às Ilhas... (de Alma Welt)

 

Alma Welt nas Ilhas Bem Aventuradas - óleo s/ tela de Guilherme de Faria 
 
Às Ilhas... (de Alma Welt)

Às Ilhas Bem Aventuradas hei de ir.
Para isso descarto até a mochila
Pois pra lá só se vai sem prevenir
E chegamos nus e nunca em fila...

Pois estamos sempre sós nessa chegada
Qual nascemos e morremos cá na Terra.
E essa é a beleza da jornada
Já que a massa ignara só aberra...

Então nesse paraíso desfrutamos
“En petit comité” (odeio o termo)
A companhia só de quem amamos.

Se este sonho continuo acalentando,
Para uns como delírio de um enfermo *
É que voltar para lá estou tentando...

_____________________
 
Nota

*Para uns como delírio de um enfermo - Alma alude ao filósofo Friedrich Nietzsche, que morreu louco, e que escreveu sobre as Ilhas Bem-Aventuradas no seu belo livro Assim Falava Zaratustra

 

Balanço da Vida (III) ( de Alma Welt)

                                                                        Foto de Alla Alborova

Balanço da Vida (III) ( de Alma Welt)

Ao fazer o balanço da minha vida
Não precisei retirar senão minutos

Que já me tinham posto arrependida
Na hora, e não perante os estatutos.

E foram sempre os de auto-traição,
Inconfidências das quais não me orgulho;
Também da inépcia ou dos erros sem lição
E aqueles do impulso de mergulho

Nas águas rasas do mundo corriqueiro
Que nos oferece muito pouco,
Não falo em prazeres ou dinheiro,

Mas pelo preço que nos cobra o banal
Tirando nossa alma do sufoco
Sem jamais nos devolvê-la ao Ideal...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Quase prece (de Alma Welt)

Ninfa Eco - num parque em Barcelona
 

A ninfa Eco- Max Ernst
 
 
Quase prece (de Alma Welt)

Senhor, dai-me a fé que nunca tive!
Fazei-me crer que a morte não existe
E que o Nada que temo e que persiste
Em mim é só o engano que mantive.

O medo assombrou minha existência
Desde os tempos encantados de guria
Em que a beleza era minha consciência,
Já que mais nada me dava garantia....

Depois, os versos tristes se tornaram,
Bem mais pesados, de timbre mais profundo,
E para estranhos pagos me levaram

Onde um eco repetia a tal pergunta,
Que bate num rochedo além do mundo.
Orgulho à solidão sempre se junta...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

De Profundis (de Alma Welt)

 Amnion - Martha Mayer Erlebacher
 
 
De Profundis (de Alma Welt)

Além da Morte, claro, tenho medo
Do Inferno das banais mesquinharias;
Não do Jardim do Engano Ledo
Mas do limbo fatal das ninharias...

Então me cerco das certezas do olhar
E da poesia inerente às coisas vivas
Que são aquelas com que posso contar,
Que jamais estão no cerne das intrigas.

Uma vida é pouca e preciosa,
Não me deixe, Senhor, desperdiçar
Com a malta argentária e cobiçosa.

E por fim quando chegar a Hora Louca
E nos olhos toda a vida me passar,
Eu só ouça o melhor da minha boca...

domingo, 24 de fevereiro de 2013



                                    A Última Ceia do filme Viridiana, de Luis Buñuel

A Última Ceia (de Alma Welt)

Estaremos todos lá em torno à mesa
Para a última ceia dos amigos!
Pra celebrar, cada qual sua vela acesa
E taças cheias dos vinhos mais antigos.

Um discurso! Fale o mais ousado!
Conte tudo o que fizemos de notável
E também nosso momento desastrado,
Que nos faça rir de nós, sempre louvável.

Se algum de nós ainda a sério se levar
Nesse dia que cesse a sisudez
E que ria de si mesmo ao nos contar

Cada sonho, fracasso, veleidade.
Que a vaidade se veja em sua nudez,
Que nosso rei andou nu pela cidade...
 


Celebremos (de Alma Welt)


                       Carnaval romano no século XVII- pintura de Johannes Lingelbach 1622-1674

Celebremos (de Alma Welt)

Celebremos a vida, meus amigos,
Não cansemos de a vida celebrar!
Não olhemos demais nossos umbigos,
Olhemos mais pra cima para amar.

Bebamos moderado, se soubermos,
Mas se acaso passarmos do limite
Escrevamos mil vezes nos cadernos:
“Sou um bêbado idiota, não me imite.”

A alegria, meus amigos, é vital,
Não deve nos levar para o buraco;
A vida é o Bem, e a Morte é o Mal.

Tudo que aprendi só me diz isso,
O resumo do saber cabe num saco,
Que não seja o nosso saco do sumiço!
 


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Descida ao Hades (de Alma Welt)


                                       Pandora - Johnn William Waterhouse, 1896

 Descida ao Hades (de Alma Welt)

Nós iremos a Elêusis, meu irmão,
Onde os órficos logravam ir ao Hades
E depois voltavam... como não?
Hoje somos certamente mais covardes...

Sim, se quiseres tentaremos lá baixar
Pois conheço o caminho de descida,
E neste ponto preciso confessar:
Já estive onde as dores têm guarida.

Essa forte atração por sombras mortas
Que habitam o casarão que herdei
Tem origem na mais funda das retortas.

Como Pandora e Psiqué antes de mim,
Eu, esta Alma, lá estive e retornei,
Mas resisto abrir a caixa até o fim...
 


Pantera Negra (de Alma Welt)

                            Pantera negra - obra do pintor geogiano Merab Abramishvili 1957-2006



Pantera Negra (de Alma Welt) 

Pantera negra, fluida e deslizante
No meio da floresta eu bem quisera
Não ter rivais, apenas o elefante
Pra temer e respeitar, maior que era...

Foi este, assim, um sonho recorrente
Que tive nos quinze e ainda lembro.
Faltava muito pra me sentir contente
Conquanto estivesse em meu setembro.

Um remorso de não ser bastante forte
Para amar aquela que me sombreava
E de cujo cordão mal fiz o corte...

Mais um ano e minha mãe morria
E o mundo já não era o que eu pensava
E eu menos a pantera que queria...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Meu trenzinho (de Alma Welt)


 
 
Meu trenzinho (de Alma Welt)

Ainda espero o trem da minha infância
O mesmo, de fumaça, em meio à bruma;
Trenzinho dos meus sonhos sem ganância,
Que pra essa estação ainda não ruma...

A viagem cujo rumo mal importa,
É toda encantamento como outrora,
Envolta no mistério de uma porta
Que não logrei transpor até agora.

Pois o que interessava era o comboio
Levando e trazendo o não e o sim,
Separando em mim o trigo e o joio...

Era eu que eu esperava ou despedia,
Tudo se passava dentro em mim,
Plataforma em que eu chorava e ria...


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My train (Alma Welt)

I still hope the train of my childhood,
The same, of smoke in the mist;
Little train of my dreams without greed,
Which to this season has not came

The journey whose direction dont care
It's all charming as before,
Shrouded in the mystery of a door
I did not reach to pass until now.

For what mattered was the train
Taking and bringing no and yes,
Separating the wheat on me and the weed ...

I was what I expected or say goodbye
Everything was going on inside me,
The platform where I cried and laughed ...Ver mais



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Maktub (de Alma Welt)


 
Maktub (de Alma Welt)

Embora possa haver destino escrito,
A empreitada é tirá-lo do papel
E montá-lo qual castelo de palito
Ou como torre vulnerável de Babel.


Que imenso mistério controverso
Haver ou não haver a nossa estrela!
Tendo sílabas contadas no meu verso
Reconhecerei a Morte quando vê-la?

Tudo são perguntas sem resposta
Que geram historietas e anedotas
Ou os “causos” que o povo tanto gosta.

Mas por mais que nossas mesas sejam fartas
E já tenhamos bebido nossas cotas,
Pelo chão nossos castelos são de cartas...

Como é belo viver (de Alma Welt)



                                                        Portinari

Como é belo viver (de Alma Welt)

Como é belo viver, e tão poético!
Me refiro, certamente, a viver bem
Malgrado, por exemplo, o tom patético
Que a nossa humanidade sempre tem.

Me refiro às fartas lágrimas de dor,
Indefectíveis junto àquela cova
Com discursos ternos sobre o amor
E como tudo, tudo ele renova.

Não que não seja uma verdade...
Mas por quê choramos pela morte
Se acreditamos nas palavras a metade?

Sim, temos medo, meu amigo, meu irmão,
De quão breve nos espera a mesma sorte
Já que somos sempre nós nesse caixão...


domingo, 17 de fevereiro de 2013

O Castelo (de Alma Welt)


 
O Castelo (de Alma Welt)

Reinventar a vida a cada dia
Tem sido meu propósito simbólico,
Contra um certo traço melancólico,
Uma estrada que só leva à apatia.

Mas talvez sendo lúcida e atenta
À visível insensatez do ser humano,
Minha aguda natureza mal agüenta
Viver sem ver sentido a cada ano.

A vida é tola e a gente se aborrece,
A menos que se apegue à fantasia;
Cada um é sua casa, a que merece...

Todos nós temos que nos construir.
Quanto a mim, construí-me em poesia
Um castelo imaterial sempre a ruir...
 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A Remadora (de Alma Welt)

Monet (reinterpretado)
 
A Remadora (de Alma Welt)

Báh! Venham-me os ventos do passado,
Que este presente é tão fugaz

Com seu jeito de correr desabalado
Pra deixar a vida mesma para trás...

Outrora no presente eu me aninhava
Ou em lentos passos na coxilha
A contar sílabas nos dedos caminhava
Como se do próprio Tempo eu fosse filha.

Ó vocês, apologistas do Presente!
Talvez tenham razão mas eu discordo
Pois da lógica me encontro dissidente...

E se contemplo tanto o que passou
É que de uma canoa estou a bordo
Assim, de costas, a remar pra onde vou...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Muro (de Alma Welt)



                                                                         A Roda da Fortuna
                                       
 
O Muro (de Alma Welt)

Que imensa alegria era acordar
Para a vida e o mundo em plenitude,
Depois de espreguiçar, cantar, rodar,
Recordando que fiz tudo o que pude...

Mas se já não tenho essa alegria
Em minha mente, na alma e coração,
Houve um grande avanço da poesia
Que me faz ver o destino em rotação:

A Fortuna e sua roda, eu a conheço
E já me inteirei do meu futuro
E confesso que com isso me entristeço

Pois além dele não poderei mais ir,
Ela me mostrou meu próprio muro,
Eu vi a Moira e já não posso mais sorrir...

O Obscuro Jogo (de Alma Welt)


 Teenage Mona, after the Isleworth Mona Lisa
                                                                    Mike Licht, NotionsCapital.com
 
 
O Obscuro Jogo (de Alma Welt)

Nós só temos uma chance de acertar
A cada instante que viver nos cabe
No tempo que aqui temos que passar,
Mas o jogo que jogamos ninguém sabe.

As regras são confusas e obscuras,
Também são transmitidas para engano.
Dependendo somente quanto aturas
Serás um carneiro ou ser humano.

Neste caso poderás ou não gritar
E fazer um escarcéu se te aprouveres,
Mas dará no mesmo: vais passar.

Porque todos os projetos são brinquedos
Como aqueles ledos mal-me-queres
Da estação dos sorrisos e dos medos...
 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A vinha da Melancolia (de Alma Welt)


Não poderão contar com esta guria
Aqueles que chegarem ao casarão.
Meus cabelos ruivos não verão
Só uns roxos cachos de agonia.

Nesta vinha não recebo mais ninguém,
Nada deve distrair-me do meu fado.
A porteira já não sofre o vai e vem,
Recusei a visita de um prelado...

E nos pastos em que gado não havia
E eram pura coxilha dos meus sonhos
Já não vago compondo minha poesia...

Nas noites perambulo os corredores
Com os meus fantasmas mais bisonhos,
A pensar onde errei nos meus amores...

 

Sic transit... (de Alma Welt)




Sic transit... (de Alma Welt)

Me desculpem, mas amo a decadência
E as ruínas fazem bem ao meu olhar.
Na verdade aprecio a transferência
Da riqueza para a perda, é bom notar.

Não aprecio o que nunca foi pujante
Mas sim aquilo que aos poucos se perdeu,
Pois nele o Tempo é dominante
E permanece dormindo o que morreu...

Assim, amo o silêncio entrecortado
Por um grito de pássaro de agouro
Por sobre um torreão desmoronado

E aos meus ouvidos retorna a melodia
Ao zumbido do vôo de um besouro
Onde outrora um piano bem se ouvia...
 

A Vinha Perdida (de Alma Welt)


 
 
A Vinha Perdida (de Alma Welt)

Tudo é inútil, há muito já sei disso,
E trabalho de acordo com a ilusão,
Me cercando de vinhedos de feitiço
Enquanto os tonéis dormem no porão.

Não mexo mais um dedo pra render
Pois quero ver o mato tomar tudo
Também a hera à fachada se prender
E o Tempo imperar solene e mudo...

“Estás louca, precisas te internar!”
“Teu pai era um artista e segurou!”
Diz Matilde, a cabeça a abanar...

“Mas, ele se foi...” – respondo eu.
“Quê pode me importar o que ficou
Se a vinha era real... e esvaneceu.”

Alma nua (de Alma Welt)


                                                  Pintura de Eliseu Visconti
Alma nua (de Alma Welt)

Não, não sou sozinha pois carrego
Milhares de versos no meu mundo,
Que são como cão guia para um cego
Ou porto de retorno ao oriundo.

Minha arca é meu lastro suficiente
Com todos os sonetos de uma vida
Dedicada à poesia competente
Que me põe a mim mesma comovida.

Eu não seria mais que “de programa”
Se eu me desnudasse simplesmente
E doasse o meu corpo numa cama...

Assim, se ao revê-los não chorasse
Não poderia dar-me a tanta gente
Como quem ao dar a alma não amasse...
 


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Mais Palavras ao Vento (de Alma Welt)


 
Mais Palavras ao Vento (de Alma Welt)

Vento, há muito tempo não te imploro
Que me leves daqui para os teus pagos
Pois o Tempo já não ouve quando choro
E a ele não seduzem meus afagos.

 Então ponho-me nua ante os espelhos
E peço que me dêem mais uns anos
Ao menos pelos meus pêlos vermelhos, *
Que a estes não pertencem meus enganos...*

Ó Tempo, ó espelhos, ó meu Vento!
Revelai-me a essência do momento
Num acordo que o meu destino sele,

Que nada mais almejo, só mais prazo,
Já que a cada rima mais me atraso
Para o Verso fatal que me revele...
__________________________

Nota
* Ao menos pelos meus pêlos vermelhos / que a estes não pertencem meus enganos ... - Alma com estes curiosos versos quis dizer que ela era ruiva natural (não de "enganos", tingida), pois seus pêlos púbicos eram vermelhos...
 

O Pássaro Azul (de Alma Welt)


                                    O Pássaro azul (Alma na Coxilha)- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 2013, 30x40cm 

O Pássaro Azul (de Alma Welt)

O pássaro azul que me acompanha
Aonde quer que eu vá pela coxilha,
Ao dizê-lo, sei, cheira à patranha,
Mas é o indicador de minha trilha

E mostra-me as coisas que não sei
Sobre o meu futuro, me alertando
Sobre o destino breve, que é de lei,
Já que o meu coração sequer comando...

Ao vento da campina, num barranco
Ele num galho pousa e me transmite
Suas fábulas de um universo branco

Que a mim foi doado por herança,
E oriundo de um povo sem limite
No bem como no mal, sem temperança.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Soneto de Amor Bandido (de Alma Welt

                                                  Vinheta de cordel de autoria de Guilherme de Faria  




Soneto de Amor Bandido (de Alma Welt)

Tem dias em que creio a vida bela,
E o digo porque em outros a deploro.
A vida é cambiante como vela
Que tremula quando rio e quando choro.

A verdade é que não sei nada da vida
Embora especialista em seus reflexos
Que me põem amiúde comovida
Com seu jeito de misturar os nexos.

O amor... esse também é comovente
Conquanto ainda não seja compreendido
Pois chega a fazer mal a tanta gente...

Quanto a mim já não ouso invocá-lo
Com receio de chamar o “amor bandido”,
Que é galã, e sabeis, vem a cavalo...
 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Tempo e coração (de Alma Welt)



Foto de Felipe Arozi
 
Tempo e coração (de Alma Welt)

Ó Tempo, desfila em minha varanda
Mas não me transforma o coração
Que permanece de guria e pouco anda
Me mantendo sentadinha na estação


A esperar o trem das novidades
Como se o mundo só mudasse alhures
E eu, aqui, na espera e nas saudades,
Que dessa nem espero que me cures...

Mas, coração, passageiro ensimesmado,
Liberta os olhos de passadas águas,
Que não passas d'um narciso debruçado,

E deixa-me ir ao léu com o trenzinho
Às terras onde nem existem mágoas,
Nem é mais verde o pasto do vizinho...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

De sonetos e de espelhos (de Alma Welt)


                Capa e contracapa do CD de canções de Alma Welt/João Roquer/Guilherme de Faria

De sonetos e de espelhos (de Alma Welt)
(ou Olhos de Nunca Mais)


O soneto para mim é meu diário
Onde venho registrando minha vida
No seu enorme espectro tão vário
De idéias, emoções, desejo e lida.

Lida... na verdade é um eufemismo
Pro ato de escrever que só me encanta,
Pois me sinto bem mais viva no lirismo,
Como pássaro, suponho, quando canta.

Um me disse: “És bela. Por quê escreves?”
E eu podendo me ofender, só sorri
Do machismo dessa gafe das mais leves.

Entretanto, mesmo assim me questionei
Uma vez quando no espelho olhei, me vi,
Com os olhos do que nunca mais serei...
 


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Entrevista (de Alma Welt)


Crepúsculo - óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 30x40cm 
 
Entrevista (de Alma Welt) 

Coloquei-me na varanda dos poentes
Mas não para julgar o mundo e a vida
Nem para a solidão dos decadentes
Mas pra manter-me a alma comovida


Pela beleza, sempre, que é a Verdade,
E assim adquirir sabedoria
Por difícil de encontrá-la na cidade
Em meio àquela louca correria.

E quando veio a mim a jornalista,
Levei-a comigo à minha varanda
Para não perder a minha vista.

Então disse quando o fogo mergulhou:
“Agora sabes com quem minha alma anda.”
E quase nada para dizermos nos restou...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Jardim do Amor Constante (de Alma Welt)


 
O Jardim do Amor Constante (de Alma Welt)

Hoje vou ao encontro da Alegria.
Assim o decidi, vou porque vou.
Estou meio cansada da ironia
Dela só vir até mim quando não estou.

Tomarei desta vez a iniciativa
E quero estar e me ver esfuziante.
Não mais me deixarei pegar passiva,
Mas como o meu jardim, daqui pra diante,

Que dá flores, na verdade, quando quer
Pois nunca esperou a primavera
Com seu temperamento de mulher.

E vou dançar, gritar como bacante,
Meu cabelo ao vento de outra era
No fiel jardim do amor constante...
 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O Balanço Final (de Alma Welt)






 
O Balanço Final (de Alma Welt) 

No final sobram somente os amores
E é tudo o que resta e ainda vale
Do balanço da alegria e das dores
Que se faz quando tudo o mais se cale:

As misérias, os conflitos, ninharias,
E todo aquele rol do dia a dia,
Quase sempre de cruéis mesquinharias
Menosprezadas até pela Poesia,

Musa ótica que quase tudo salva
Por sua decantada indulgência
Ao pêlo em ovo e à feia calva...

Nossa memória, vêde, é generosa
E num último suspiro de inocência
Nos devolve o beijo e aquela rosa...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Cinzas e Versos (de Alma Welt)

 
Cinzas e Versos (de Alma Welt)

Tornei-me prisioneira do meu verso
E nem existo fora da poesia,
Embora constitua um universo
Que é a minha vida e mais um dia...

Dia esse que eu projeto no momento
Do amigo mais dileto lendo uns versos
Enquanto minhas cinzas lança ao vento
Desejando os meus átomos dispersos

Como os sonetos meus por tantas mentes
(que este é só o sonho que perdura)
E que serão talvez como sementes

Germinando como a Alma fez um dia
Ao construir-se como plena criatura
Enquanto o criador chorava e ria...